Tesouros de papel

Dos deslumbrantes códices medievais vindos de Santa Cruz de Coimbra à edição original da Fábrica do Corpo Humano de Vesálio e ao roteiro manuscrito da viagem de Vasco da Gama, 100 Tesouros da Biblioteca Pública do Porto revela um património que poucos saberiam existir na cidade.

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Das Revoluções das Esferas Celestes, de Nicolau Copérnico, também foi considerado pela revista The Economist um dos livros mais caros de sempre DINIS SANTOS
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Esta edição histórica de Os Lusíadas data de 1817 DINIS SANTOS
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A obra em que Galileu pôs em confronto, recorrendo ao diálogo de estilo platónico, as perspectivas geocêntrica e heliocêntrica DINIS SANTOS
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O Livro de Marco Polo numa célebre e raríssima edição espanhola impressa em 1529 DINIS SANTOS
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O núcleo dos periódicos inclui a revista Presença, em torno da qual se organizou o segundo modernismo português DINIS SANTOS

“Vocês têm aqui a Fábrica do Corpo Humano do Vesálio?!”. A directora das bibliotecas municipais do Porto, Maria João Sampaio, ainda se lembra da surpresa de Paulo Cunha e Silva quando soube que o velho edifício do Jardim de S. Lázaro possuía um dos raríssimos exemplares da primeira edição desta obra do médico bruxelense Andries van Wesel, um livro que não só fundou a Anatomia moderna como constitui um dos exemplos máximos das artes gráficas da Renascença, com as suas quase 700 páginas ilustradas com mais de 200 xilogravuras de qualidade superlativa, algumas delas atribuídas a Jan van Calcar, um discípulo de Ticiano.

A Cunha e Silva se deveu a ideia de mostrar ao grande público as mais notáveis jóias escondidas do acervo da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), e foi ainda ele quem, no Verão de 2015, poucos meses antes de morrer, convidou o poeta e ensaísta Fernando Pinto do Amaral para comissariar a exposição os 100 Tesouros da Biblioteca Pública do Porto, inaugurada esta sexta-feira na Galeria Municipal, junto à Biblioteca Almeida Garrett, nos jardins do Palácio de Cristal, onde decorre a Feira do Livro.

Médico de formação, mas também crítico e curador, não surpreende o particular entusiasmo do então vereador da Cultura do Porto pela monumental obra de Vesálio, com a sua minuciosa ilustração textual e gráfica do corpo humano. Mas seria difícil eleger nesta exposição, que permanecerá na Galeria Municipal até 13 de Novembro, uma espécie de jóia da coroa, até porque depende do que valorizarmos mais: a antiguidade, a raridade, o valor económico, a beleza gráfica, o peso simbólico, a relevância histórica, o génio literário? Uma lista que não esgota, aliás, os muitos sentidos que Pinto do Amaral, ao seleccionar esta centena de peças, quis deliberadamente atribuir à palavra “tesouro”.

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A Fábrica do Corpo Humano de Vesálio, impressa em 1543 DINIS SANTOS

O livro de Vesálio cumpre, é certo, boa parte dos critérios, incluindo o do valor monetário: a par de outra obra marcante da revolução científica do século XVI, impressa no mesmo ano de 1543 e igualmente presente nesta exposição, Das Revoluções das Esferas Celestes (De revolutionibus orbium coelestium), de Nicolau Copérnico, a Fábrica do Corpo Humano (De humani corporis fabrica) integrava em 2010 a breve lista, divulgada pela revista The Economist, dos 16 “livros mais caros” de sempre.

Pinto do Amaral, que faz questão de sublinhar que esta exposição é um “trabalho de equipa”, e que não teria sido possível realizá-la sem a colaboração da directora e de vários funcionários da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) – entre os quais destaca Sílvio Costa, “um homem que conhece como ninguém os segredos daquela biblioteca” , conta que chegou a encontrar na instituição quem receasse um pouco a visibilidade que está agora a ser dada a peças que poucos imaginariam que existissem no Porto. “É que algumas destas coisas valem imenso dinheiro”, nota o comissário.

Esperando não atiçar a cobiça de eventuais larápios, e só para dar uma ideia dos potenciais valores em causa, um exemplar da Fábrica de Vesálio dedicado ao imperador Carlos V foi arrematado num leilão da Christie’s, em 1998, por mais de 1,5 milhões de dólares (perto de 1,7 milhões de euros). Mesmo actualizando preços, é ainda assim um pouco menos do que iria render, uma década mais tarde, um exemplar do referido livro de Copérnico, vendido em 2008, na mesma leiloeira, por 2,2 milhões de dólares (2,46 milhões de euros).

E não é apenas por serem caras que muitas destas peças exigem particulares cuidados de segurança. Algumas, por exemplo, são demasiado frágeis para suportar uma iluminação forte, o que obrigou o estúdio de arquitectos responsável pelo projecto do espaço expositivo, o ,i (leia-se “vírgula i”) a encontrar soluções para as necessidades específicas das diversas obras. “Há um núcleo de códices que tem de estar muito protegido da luz, de modo que criámos uma estrutura circular alta que proporciona um espaço bastante escurecido”, explica a arquitecta Teresa Aguiar.

A indiscutível originalidade do projecto concebido pelas arquitectas Leonor Macedo, Teresa Aguiar, Pedro Guedes e JP Pereira contribuiu para assegurar uma exigência que Cunha e Silva colocou mal começou a discutir o seu projecto com a equipa da BPMP. “Ele não queria uma coisa pesada, erudita, dizia que a exposição tinha de ser sexy”, conta Maria João Sampaio.

O projecto arquitectónico partiu de duas ideias complementares: uma delas, a de distribuir as peças por uma constelação de cinco estruturas de base geométrica circular, mas que se desenvolvem em diferentes formas – um hexágono, um octógono, uma espiral… –, cabendo a cada visitante percorrê-las pela ordem que entender. Se esta opção, como pretende Teresa Aguiar, dá à exposição “um carácter mais contemporâneo e lúdico”, a outra ideia, a de as construir em cartão, acentua ainda mais esse contraste com o peso simbólico de uma vetusta biblioteca pública com quase 200 anos. E ao mesmo tempo, observa a arquitecta, o recurso ao cartão associa um “material pobre” à riqueza dos “tesouros” expostos, ainda que estes, em boa verdade, sejam maioritariamente feitos de papel.

Já na zona de estar e de leitura que prepararam para os visitantes, as arquitectas quiseram recriar um pouco a genuína atmosfera da própria BPMP, de onde trouxeram dois grandes e pesados armários de madeira trabalhada devidamente forrados de livros.

Frades e miguelistas

Responsável pela exposição Cem Livros do Século [XX], organizada para o Centro Cultural de Belém no âmbito da Expo-98, e nomeado em 2009 comissário do Plano Nacional de Leitura, Pinto do Amaral tem experiência em seleccionar obras e organizar listas que mantenham algum sentido de conjunto na sua desejável diversidade. Mas esse apreciável currículo de pouco lhe terá servido diante da espinhosa tarefa que Cunha e Silva lhe confiou: escolher cem peças de uma biblioteca que tem mais de 700 mil espécimes registados e cuja colecção abarca códices medievais manuscritos, livros impressos ao longo dos últimos 500 e tal anos, revistas e jornais, mapas, partituras, fotografias, e ainda uma profusão de objectos da mais diversa natureza, de um pisa-papéis feito de pregos enferrujados que pertenceu a António Nobre a dois grandes globos ingleses do século XVIII provenientes do Mosteiro de Tibães, um e outros presentes nesta exposição.

Durante meses, em sucessivas reuniões com a equipa da BPMP, o comissário foi-se inteirando do que existia na Biblioteca e acabou por chegar a uma escolha que mistura critérios mais canónicos com o seu gosto pessoal e que, procurando as representatividades e os equilíbrios possíveis, dá propositado realce, diz, “a uma parte do acervo que está muito ligada à cidade do Porto”.

A exposição divide-se em 12 núcleos, alguns dos quais são essencialmente cronológicos (por exemplo, Incunábulos, com obras impressas nas últimas décadas do século XV), ao passo que outros têm uma lógica disciplinar ou temática, como Ciência ou Porto, ou dizem respeito à natureza dos objectos que reúnem, como Periódicos ou Cartografia.

Respeitando a ordem pela qual os diversos núcleos irão surgir no catálogo, a editar brevemente, os primeiros destes cem tesouros são os códices medievais, parte deles vindos da chamada “livraria de mão” do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, um riquíssimo conjunto de 97 volumes manuscritos que o então 2.º bibliotecário Alexandre Herculano transferiu para a recém-criada Biblioteca do Porto em 1834, logo após a vitória liberal e o subsequente decreto de extinção das ordens religiosas.

Mas a peça mais antiga que se pode ver na Galeria Municipal é ainda anterior a estes códices e foi precisamente encontrada num deles, a reforçar a encadernação: tem mais de mil anos e trata-se de um fragmento em pergaminho de um texto legislativo visigótico do século IX.

Se mesmo os mais antigos e valiosos livros impressos seleccionados para esta exposição podem encontrar-se noutras bibliotecas um pouco por todo o mundo, Jorge Costa – um dos três “Costa” da equipa da Biblioteca (os outros são Sílvio e Júlio) que Pinto do Amaral cita expressamente nos seus agradecimentos – não tem dúvidas de que “a colecção única, de dimensão europeia e universal” que verdadeiramente diferencia a BPMP é esta colecção de manuscritos de Santa Cruz de Coimbra, regularmente consultada por investigadores estrangeiros.

Fundado ainda antes da nacionalidade pela Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, o mosteiro de Santa Cruz era, com os de Lorvão e Alcobaça, “um dos três grandes núcleos de produção de livros neste território”, explica Maria João Sampaio. Mas os acervos documentais de muitos outros mosteiros a Norte do Mondego também vieram para à Biblioteca do Porto nesses anos conturbados do rescaldo das lutas liberais, após a derrota das forças miguelistas. E o mesmo caminho seguiram várias bibliotecas privadas, muitas vezes notáveis, de partidários de D. Miguel caídos em desgraça. Maria João Sampaio lembra o caso do Visconde de Balsemão, um diplomata que vivera em Londres e que “tinha uma biblioteca fabulosa”, além de uma valiosíssima colecção de mapas que forneceu boa parte dos espécimes cartográficos desta exposição.

Entre os códices seleccionados por Fernando Pinto do Amaral contam-se uma cópia manuscrita profusamente ornamentada do final do século XII do Comentário ao Livro dos Reis do monge beneditino Rábano Mauro, e o chamado Livro das Aves de Hugo de Fouilloi, numa cópia da primeira metade do século XIII ilustrada com 28 representações de aves, incluindo uma exótica avestruz.

Mas a peça mais singular deste núcleo é talvez um códice do século XIV que inclui L’image du monde, um poema enciclopédico ilustrado com cenas bíblicas e esquemas astronómicos que se propõe descrever todo o mundo então conhecido, atribuído ao monge francês Goussouin de Metz – um improvável precursor real desse imaginário Carlos Argentino Daneri que Jorge Luis Borges criou no conto Aleph e que dedicara a sua vida a compor um poema épico que, uma vez completo, descreveria com enfadonho detalhe todos lugares da Terra.

Um belíssimo livro de horas flamengo vindo do mosteiro de Tibães e missais ricamente adornados originários de Santa Cruz de Coimbra completam o capítulo dos códices, ao qual se segue o dos incunábulos, designação convencionalmente atribuída aos livros impressos nos cerca de 50 anos que medeiam entre publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV.

Uma novela gráfica de 1499

A BPMP tem cerca de 250 incunábulos, um número francamente considerável, e para esta exposição foram escolhidos, entre outros, uma tradução latina da Ilíada impressa em 1474, uma compilação das obras de Aristóteles saída dos prelos do humanista italiano Aldo Manuzio, a quem se deve, entre outras inovações tipográficas, a criação do itálico, uma edição muito ilustrada da Cidade de Deus de Santo Agostinho, e ainda o fascinante Hypnerotomachia Poliphili, de autor anónimo, mas atribuído ao monge dominicano Francesco Colonna com base numa alegada cifra envolvendo a letra inicial de cada capítulo.

Redigido sobretudo no italiano da época, mas com passagens em latim, grego e árabe, o livro, também ele impresso por Manuzio, em 1499, relata um sonho de Poliphilo, que deseja unir-se à sua amada e, para o conseguir, tem de vencer diversos obstáculos, numa viagem onírica e iniciática que leva os seus leitores a “penetrar em estranhos universos paralelos" recheados "de reflexões filosóficas, descrições fantásticas e visões eróticas”, diz o texto redigido para o catálogo da exposição. Acresce que a obra funciona também como um romance ilustrado, ostentando 172 xilogravuras de autor desconhecido cuja sequência forma, ela própria, uma espécie de narrativa gráfica. Collona, ou seja quem for que escreveu o livro, não terá sido um Homero ou um Aristóteles, mas o seu Hypnerotomachia Poliphili é considerado um dos mais belos objectos alguma vez impressos.

Entre os clássicos, não poderiam faltar Os Lusíadas, mas a BPMP, ao contrário da vizinha biblioteca do Ateneu Comercial do Porto, não possui uma primeira edição do poema nacional. A solução foi escolher duas edições históricas: a do Morgado de Mateus, de 1817, e a que o fotógrafo Emílio Biel publicou no Porto em 1880, por ocasião do terceiro centenário da morte de Luís de Camões.

Ainda no contingente nacional, uma edição de cordel de um auto de Gil Vicente assegura a quota teatral, enquanto a narrativa fica bem representada por um exemplar da primeira edição de uma das mais universais obras literárias portuguesas, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

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Um exemplar da primeira edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto DINIS SANTOS

A selecção estrangeira inclui obras de nomes incontornáveis, como Erasmo ou Descartes, este último com uma tradução latina de 1644 do Discurso do Método, mas também escolhas menos óbvias, como uma bela edição ilustrada das Fábulas de La Fontaine ou um curioso exemplar manuscrito de uma tradução feita por Bocage do best-seller oitocentista Paulo e Virgínia.

E entra-se no núcleo dedicado aos autores portugueses do século XIX, que inclui manuscritos de Garrett, Herculano, Antero de Quental, Camilo ou Guerra Junqueiro, um álbum de autógrafos da poetisa romântica Maria da Felicidade Browne ou, numa pequena “batota” do comissário, nove peças do espólio de António Nobre – incluindo manuscritos, uma primeira edição do ou o cachimbo do poeta – que contam como uma só para a contabilidade destes “cem tesouros”.

Puxando um pouco a brasa à sua sardinha académica e afectiva, o comissário inflacionou um tanto o capítulo da literatura portuguesa do século XX, escolhendo 16 peças, que nalguns casos se desdobram em várias, como acontece com Régio, Sophia ou Eugénio de Andrade. Mas justifica-o a qualidade do conjunto, que abre logo de modo tão discreto quanto comovente com um manuscrito do soneto Passou o outono já, já torna o frio… escrito pelo punho de Camilo Pessanha.

Manuscritos de Pascoaes, Raul Brandão, Aquilino, Vergílio Ferreira, Agustina ou Alexandre O’Neill são outras jóias deste núcleo, que inclui ainda a rara primeira edição do romance de estreia de José Saramago, Terra de Pecado (1947). Dos dois grandes génios do modernismo português, Pessoa e Sá-Carneiro, é que não se arranjou melhor do que dactiloscritos, que o essencial dos respectivos espólios está, como se sabe, conservado na Biblioteca Nacional 

Do mundo ao Porto

Uma colecção da Gazeta Literária, fundada no Porto em 1761 e considerada a primeira revista literária portuguesa, abre o núcleo dos periódicos, que inclui, numa opção bastante canónica, as três publicações em torno das quais se organizaram sucessivamente os movimentos da Renascença Portuguesa (A Águia) e do primeiro e segundo modernismo (respectivamente Orpheu e Presença). Pinto do Amaral soma-lhes uma notável curiosidade: os 34 exemplares de um jornal manuscrito, O Mosquito, que António Carneiro redigiu e desenhou ao longo de 1888, quando tinha 15 ou 16 anos e frequentava a Academia Portuense de Belas-Artes.

A política é arrumada em alguns, poucos, documentos relativos a momentos decisivos da cidade e do país ao longo do século XIX, das lutas liberais à intentona republicana do 31 de Janeiro de 1891, esta última representada por 15 fotografias que documentam a evolução da revolta no Porto.

Bastante mais forte é o núcleo da ciência, que, além dos valiosíssimos volumes de Vesálio e Copérnico, mostra uma primeira edição de uma obra em que Galileu se serve do diálogo ao estilo platónico para pôr em confronto as perspectivas geocêntrica e heliocêntrica, e inclui ainda o monumental volume O Tratado da Esfera, de 1537, em que o astrónomo e matemático português Pedro Nunes traduz e comenta várias obras científicas anteriores, ao mesmo tempo que publica o seu Tratado em defensão da carta de marear e outros textos originais, descrevendo pela primeira vez as curvas loxodrómicas.

No domínio das artes, a peça mais importante é provavelmente uma cópia manuscrita de 1579 do primeiro tratado de Arquitectura português, atribuído a António Rodrigues, que foi Arquitecto-Mor do Reino desde o tempo de D. Sebastião até ao final da primeira década de domínio filipino. “Ainda há pouco tempo nos pediram este tratado para uma exposição em Bolonha”, diz a directora da Biblioteca, realçando os “desenhos belíssimos” que ilustram as 42 folhas do volume.

Um conjunto de 68 desenhos aguarelados da fauna e flora brasileira produzidos no final do século XVIII, de autor desconhecido mas inegavelmente talentoso, um manuscrito setecentista inteiramente dedicado à dança e um álbum de desenhos da rainha D. Amélia, mulher de D. Carlos, são outras peças fortes deste núcleo, que o comissário da exposição quis simbolicamente encerrar com uma fotografia do compositor Cláudio Carneiro a dirigir um concerto nos claustros da Biblioteca do Porto em 1946.

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O álbum de desenhos de D. Amélia DINIS SANTOS

Com apenas seis elementos, o núcleo das viagens é ainda assim um dos mais importantes desta exposição, já que inclui uma célebre e raríssima edição espanhola, impressa em 1529, do Livro de Marco Polo, a mais antiga cópia manuscrita, das cinco que se conhecem, de um livro fundamental para a história brasileira, o atlas Rezão do Estado do Brasil, encomendado por Filipe II de Portugal ao governador-geral Diogo de Meneses, um manuscrito autógrafo das Viagens e Apontamentos de um Portuense em África, de Silva Porto, um pioneiro oitocentista das explorações do interior africano, e, last but not least, o célebre Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499, numa cópia manuscrita que datará das primeiras décadas do século XVI. Única cópia sobrevivente contemporânea da expedição, transcreve um diário de bordo atribuído a Álvaro Velho. É um dos documentos mais notáveis de todo o acervo da Biblioteca do Porto, tendo sido integrado em 2013 no património Memória do Mundo pela UNESCO, que o considerou “um testemunho verdadeiro da forma como Vasco da Gama descobriu a rota marítima para a Índia [...] num momento determinante que mudou o curso da História”.

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O célebre Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499 foi reconhecido como Memória do Mundo pela UNESCO DINIS SANTOS

Confirmando a preocupação observável em vários momentos da exposição de cruzar peças universais com outras de dimensão mais restrita, a colecção de mapas que Pinto do Amaral escolheu para o núcleo de cartografia vai da edição de 1605 de um atlas que abarca todo o mundo conhecido da época a uma minuciosa Planta da Foz do Douro e dos projectos de fortificação para a defensa da mesma, desenhada em 1793 por Reinaldo Oudinot, um engenheiro militar francês que deixou vasta obra em Portugal, da arquitectura ao urbanismo e da agricultura à hidráulica.

Os últimos dez destes cem tesouros são expressamente dedicados ao Porto, e bastam as primeiras peças deste núcleo para afastar qualquer receio de que possamos estar perante um anexo de interesse marcadamente local. A secção abre com o foral manuelino da cidade, de 1517, e prossegue com as Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto, publicadas em 1497 por Rodrigo Álvares, um dos primeiros impressores portugueses. Edifícios do Porto em 1833, um álbum com 102 desenhos do pintor e gravador Joaquim Cardoso Vitória Vilanova, que mostra o Porto precisamente como ele era no ano em que foi fundada a BPMP, é outra peça notável deste conjunto, que inclui ainda várias vistas da cidade e os sete volumes manuscritos dos Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, que Henrique Duarte Sousa Reis redigiu no terceiro quartel do século XIX. E por último aquele que é ainda hoje o mais célebre mapa do Douro, impresso em Londres em 1848: a monumental carta elaborada pelo barão de Forrester, que acompanha todo o curso do rio Douro desde a fronteira com Espanha até à sua foz.

Um mapa desenhado por um inglês que o Porto adoptou é um bom fecho para uma exposição organizada por um lisboeta que não por acaso escolheu como epígrafe da sua introdução aos 100 Tesouros da Biblioteca do Porto estas palavras de Raul Brandão: “Gosto de um Porto cá muito meu".