O mundo encantado de Florence e Natália

Ficaram ambas famosas por cantarem ópera muito mal. A estreia do filme sobre a americana Florence Foster Jenkins lembra-nos que Portugal também teve a sua "diva iludida", Natália de Andrade. Quando cantavam, as duas abafavam as gargalhadas por detrás dos aplausos. Tiveram vidas com trágico e cómico.

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O filme Florence Foster Jenkins lança várias possíveis causas para o alheamento daquela que chegou a ser chamada “a pior cantora do mundo”
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A americana Florence Foster Jenkins
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A portuguesa Natália de Andrade
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Natália de Andrade numa daquelas “actuações” lhe traziam felicidade e não lhe causavam qualquer tipo de sofrimento porque vivia noutra realidade

A americana Florence Foster Jenkins e a portuguesa Natália de Andrade viveram convencidas de que eram divas do canto lírico, que cantavam tão bem que aquelas palmas - elas só ouviam as palmas - no final dos seus espectáculos eram mais do que merecidas. O que terá acontecido na vida destas duas mulheres para que, aparentemente, não se tenham apercebido de que os aplausos escondiam afinal gargalhadas e troça?

Queremos por tudo uma explicação simples para o seu grau de alheamento - eram loucas? Ficaram loucas por causa de algo que aconteceu no seu trajecto de vida? Porque, tendo havido uma causa evidente, podemos ter a certeza que tal nunca nos podia acontecer a nós, expormo-nos assim, ao ridículo, sem disso nos darmos conta.

Quando decidi começar a pesquisar a vida da portuguesa Natália de Andrade para uma reportagem para o PÚBLICO, chamei-lhe Natália de Andrade, a cantora iludida que pensava ser diva, e era dessa resposta que andava à procura. A pesquisa levou-me ao sítio onde Natália acabou os seus dias, irónica ou poeticamente um lar de idosos criado para albergar artistas como ela julgava ser (a Fundação Sarah Beirão e António Costa Carvalho, em Tábua).

Ali, num salão bafiento, onde o piano servia mais para decorar do que para ser usado, estavam ainda pousadas junto ao teclado, cerca de onze anos depois da sua morte, as partituras que tocava ao piano para se acompanhar sozinha a cantar ópera.

Fui a primeira pessoa a pedir para aceder ao que restava dos seus 89 anos de vida: oito pacotes de papel amarelecido selados com fita-cola seca. Estavam dispostos em cima de uma mesa enorme que os fazia parecer mais pequenos do que eram. Era o que restava. Nunca tinham sido reclamados por familiares ou amigos. Ninguém compareceu ao seu funeral, em Outubro de 1999.

Desempacotei-os, um a um. Num primeiro encontrei nove retratos autografados pela própria, titulados “soprano”, mostrando uma Natália muito jovem (andaria nos 20 anos), bonita e muito elegante. Pareciam ser restos de um conjunto de fotos que mandou fazer para distribuir a fãs, e que tinham ficado por distribuir. Mas foi num dos últimos volumes que abri que estava a maior surpresa: um diário de 549 páginas intitulado A Minha Biografia.

Entusiasmei-me. Naquelas linhas desenhadas a caligrafia cuidada, escritas para serem lidas, estaria a chave daquela vida. Queria muito encontrar-lhe momentos de lucidez, talvez provas de que sabia que era gozada e assim seria, afinal, ela quem tinha gozado com os outros, uma espécie de justiça privada. Lancei-me na leitura com essa esperança. Ou talvez lá encontrasse um momento de vida que explicasse em quem ela se tinha transformado, aquela velhinha débil de voz esganiçada que divertia tanta gente. Haveria um diagnóstico clínico? A prova de que seria louca?

O filme Florence Foster Jenkins lança várias possíveis causas para o alheamento daquela que chegou a ser chamada “a pior cantora do mundo”. A americana, protagonizada por Meryl Streep, contraiu sífilis quando era jovem, uma doença que, à época, era tratada com arsénico, o que poderá ter tido consequências na sua saúde mental. Sabe-se também que teve um casamento infeliz. E que o pai, quando era adolescente e estaria no auge das suas capacidades vocais, a proibiu de cantar.

A pequena Florence chegou a fazer recitais quando era menina. Apresentava-se com o nome artístico de Litlle Miss Foster e aos oito anos chegou a cantar para o presidente dos Estados Unidos, diz-nos no filme realizado por Stephen Frears. Foi apenas com a morte do pai, e com a avultada herança que lhe coube, que pôde retomar o sonho de uma carreira musical que culminou num concerto na famosa sala de espectáculos nova iorquina, o Carnegie Hall, para uma plateia de três mil pessoas, no ano da sua morte, em 1944, quando já tinha 76 anos.

Também Natália teve “glória” tardia. Conseguiu gravar um disco pela primeira vez, às suas expensas, quando já passava dos 50 anos. Mas quase todos os seus seis vinis foram feitos quando já andava nos 70 anos. Na capa de três deles, Natália escolheu ver reproduzida uma elogiosa crítica, publicada no Diário de Lisboa, que lhe foi feita por uma prestigiada e exigente crítica de música erudita da altura, Francine Benoit: “De facto, trata-se de uma autêntica vocação lírica, a quem podem estar reservados grandes triunfos.” E continua referindo-se às suas “qualidades vocais de ampla e boa sonoridade, apesar da sua extrema mocidade”. A crítica, sem data, refere-se aos dotes quando era muito jovem, mas a antecipação de um futuro promissor é reproduzida em álbuns que gravou já idosa.

Parece haver em Florence Foster Jenkins e em Natália de Andrade esta vontade de retomar uma infância e juventude perdidas. Há nas suas vidas algo que ficou por cumprir, uma dimensão “do que podia ter sido’. Ambas vestem-se de forma excêntrica, quase pueril, de forma desfasada para a sua idade, como se vivessem num tempo passado.

É fácil ver nestas duas carreiras de final de vida uma desforra existencial. Ambas cumpriram na terceira idade o que não conseguiram na altura certa. As duas retomaram o seu percurso artístico quando lhes foi possível.

No espólio de Natália há duas fotos em que aparece vestida da mesma forma e que simbolizam este longo hiato. Numa surge muito jovem, na outra muito franzina e envelhecida. Entre as duas imagens terão passado mais de quatro décadas mas a capa de penas brancas que tem aos ombros é a mesma: na primeira surge felpuda e viçosa, na última tem um ar carcomido e gasto.

Florence e Natália repetem que, ao contrário do que é costume em cantoras de ópera, mantiveram as suas vozes intactas e com o viço da juventude. A idade não lhes afectou a qualidade, diziam-se a si, repetiam-no aos outros. E poucos as desmentiram. Pelo contrário, essa ilusão foi sendo, de uma forma ou de outra, alimentada.

Sucessos encenados

No filme vemos o marido de Florence, St. Clair Bayfield, protagonizado por Hugh Grant, afadigado com a encenação dos seus aparentes sucessos, filtrando e pagando aos seus espectadores, subornando críticos musicais. Florence rodeava-se de músicos profissionais de prestígio, incluindo o seu instrutor de canto, que, a troco de faustosos pagamentos, não só nunca lhe disseram que não sabia cantar como lhe alimentaram a convicção de que tinha talento.

Depois da separação dos pais, Natália viveu toda a vida sozinha com a mãe, também ela auto-intitulada cantora lírica. Mãe e filha alimentavam o ego artístico uma da outra, fechadas num mundo isolado. Quando chegavam as duas ao café lisboeta Brasileira, no Chiado, viviam ali por perto, a mãe de Natália ordenava: “levante-se que ‘chegou a maior cantora de ópera de Portugal’”, contou Hugo Ribeiro, técnico de som da Valentim do Carvalho no documentário Natália, a diva tragicómica, que acabou por resultar do artigo inicial do PÚBLICO.

Fora do ambiente protegido da sua casa foram poucos os que disseram a Natália a verdade cruel, a de que a fama que obteve não lhe vinha do talento musical. Pelo contrário, a convicção da sua pretensa qualidade foi sendo estimulada. As primeiras gravações discográficas foram feitas à sua custa, na Columbia de Madrid, as últimas, na Valentim de Carvalho, terão sido patrocinadas por “admiradores” do meio musical e artístico que depois organizavam festas privadas onde Natália era a animação, onde era uma espécie de bobo da corte, mostra o documentário realizado por João Gomes, em que fui co-argumentista.

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No espólio de Natália há duas fotos em que aparece vestida da mesma forma e que simbolizam este longo hiato. Numa surge muito jovem, na outra muito franzina e envelhecida. Entre as duas imagens terão passado mais de quatro décadas

Quando o documentário (uma produção da RTP2 e da Real Ficção) foi apresentado publicamente foi seguido de um debate sobre “os limites do humor”. Tirei da discussão aquela que me parece ser uma barreira ética básica, também em humor, não gozar com quem não sabe que está a ser gozado. Rir das suas gravações é diferente de a colocar no centro de aparições públicas em que só ela parecia não saber porque era a estrela.

Quem, ao longo dos tempos, a levou a programas televisivos defende-se, diz que Natália, naqueles momentos públicos se realizava, era feliz. No filme o marido de Florence diz-lhe muitas vezes: “O nosso mundo não é feliz?”

Em nenhum momento do seu longo diário Natália dá notas de ter consciência de que era usada para fins humorísticos. Pelo contrário, depois da sua aparição no programa Passeio dos Alegres congratula-se com o seu sucesso renovado, alegra-se por ser reconhecida na rua.

Ler o diário de Natália é, afinal, acabar como se terminou. No pouco que revela de factual diz-nos que teve uma infância infeliz, que os pais discutiam e se separaram. Mas nele não encontrei causas, explicações para a origem do mundo em que vivia. É um diário escrito para ser lido na posterioridade, a suposta biografia de uma grande artista, melhor que Maria Callas.

No filme Florence diz que “as pessoas podem dizer que eu não sabia cantar mas não podem dizer que eu não cantei”, o que nos pode levar a crer que talvez tenha tido a consciência de que, no mínimo, o seu talento não era unânime.

Mas, ao contrário de Florence, Natália não tinha dinheiro e isso fez toda a diferença. Era uma socialite nova iorquina que financiou a sua suposta carreira de cantora de ópera, criou um clube privado onde ela era a estrela. O dinheiro também servia para a manter numa redoma onde era protegida do mundo exterior.

Já Natália foi sendo “mostrada” em programas televisivos ao longo de vários anos. Júlio Isidro diz que a levou ao Passeio dos Alegres tendo noção de que aquelas “actuações” lhe traziam felicidade e não lhe causavam qualquer tipo de sofrimento porque vivia noutra realidade. Herman José, que a celebrizou com a Canção Verde, não deixa de reconhecer no documentário que “há uma certa pitada cruel neste tipo de aproveitamentos e caricaturas, mas são as regras do jogo. Se as gargalhadas forem muitas e boas mais vale assumir a crueza da situação.”

"Elas fazem as pessoas sentir-se desconfortáveis"

Separa-as mais de meio século, Florence nasceu em 1868, Natália em 1910, nunca se conheceram, nunca terão ouvido falar uma da outra. Mas estão juntas num álbum que reunuiu mais cantoras como elas. O mentor desta colectânea, o americano Daniel Collup, chama-lhe “‘divas iludidas’. É um género e faz parte da história da música, quer se queira, quer não”.

Há um público para o seu tipo particular de canto, diz, e tem tudo a ver com um sentimento que é profundamente humano. “É algo que em alemão se chama de schadenfreude, uma forma de prazer que vem do sentimento de alegria e de pena de alguém. É difícil de definir. Elas fazem as pessoas sentir-se desconfortáveis: sabem que aquela pessoa está a cantar mal e agradecem não serem elas ali no palco”, comenta Collup, que foi cantor lírico na juventude.

Em programas televisivos como American Idol (Ídolos) “as maiores audiências são nas audiências preliminares, onde aparecem personagens ridículas convencidas de que têm talento. São estas que as pessoas mais gostam de assistir”, nota Collup. São arrasadas por um júri, mas se calhar continuarão a acreditar em si de forma cega, afirma. É o mesmo sentimento que atrai as pessoas a ouvir as Florences e as Natálias deste mundo, defende Daniel Collup, que fez um documentário sobre Jenkins chamado A world of her own (algo como "um mundo só dela").

Há algo mais que une as duas mulheres, a importância da música nas suas vidas. No filme, quando Florence está combalida, na cama, regressam-lhe energias quando o seu pianista começa a tocar, como se ouvir música lhe devolvesse vida. O mesmo acontecia com Natália.

Talvez dos momentos mais comoventes da história de Natália seja o testemunho de uma funcionária do lar onde acabou os seus dias: quando Natália de Andrade já não sabia que era Natália de Andrade, quando já não conseguia sentar-se ao piano e cantar, quando já nem conseguia alimentar-se sozinha, Rosa Gameiro conta que só comia se ela lhe cantasse. De tanto a ouvir repetir os mesmos versos memorizou-os, são da ópera Madame Butterfly. “Canta”, pedia-lhe Natália. E a funcionária assim fazia: "Um bel dì vedremo...". Era só o som de Puccini que conseguia que Natália abrisse a boca para comer a sopa.