Michel Temer, de vice-presidente "decorativo" a chefe de Estado

O novo chefe de Estado brasileiro é uma velha raposa política. Tem 75 anos e algumas surpresas: escreveu um livro de poemas e vai ser pai pela sexta vez.

Michel Temer tem 75 anos
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O impeachment de Dilma Rousseff teve lugar no dia 31 de Agosto Evaristo Sá /AFP

No crepúsculo de uma vida política que parecia dedicada aos bastidores do poder, o vice-presidente do Brasil, Michel Temer, de 75 anos, apodera-se do trono presidencial que pertencia a Dilma Rousseff, cuja queda precipitou. Está à frente da 50.º país mais populoso do mundo até ao final de 2018.

Dirigente do Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMBD) há 15 anos, árbitro de todas as maiorias governativas desde 1994, Temer acumulou muitos rancores durante os seus cinco anos de casamento de conveniência com a dirigente da esquerda.

Em Dezembro, este conciliador discreto surpreendeu ao acusar Rousseff de o ter sempre menosprezado, tratando-o como "um vice-presidente decorativo". Não tornaria a levantar um dedo para a ajudar.

Na Primavera, a crise política brasileira, envenenada pelo escândalo de corrupção na Petrobras e por uma recessão económica histórica, chegou a um ponto de não retorno.

Soava a hora de Michel Temer passar da sombra para a luz. Como velha raposa da política, orquestrou no final de Março a saída do PMDB do Governo. Um golpe fatal contra a rival que conduziria à suspensão de Dilma Rousseff pelo Senado, a 12 de Maio, e à sua ascenção, ainda provisória, à Presidência. E pouco importou que Rousseff lhe tenha chamado "traidor", "chefe da conspiração" ou organizador de "um golpe de Estado" parlamentar.

Na apresentação do seu Governo, a imagem do seu gabinete formado exclusivamente por homens de idade, brancos e conservadores, causou revolta, e três deles foram rapidamente forçados a demitir-se, apanhados no escândalo Petrobras. O seu discurso de unidade nacional não conseguiu convencer uma grande parte da população que punha em questão a sua legitimidade.

Num momento em que era tão impopular como Rousseff, Temer foi apupado na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, perante centenas de milhões de espectadores em todo o mundo.

Este homem político que diz "falar suavemente", por oposição ao tom "agressivo" de Rousseff, beneficia de momento da benevolência dos mercados devido às suas posições mais liberais.

A imagem deste filho mais novo de uma família de oito irmão, nascido de imigrantes libaneses em 1940 no estado de São Paulo, sempre imaculada e com o rosto um pouco esticado pelas operações plásticas, esconde porém algumas surpresas.

Em 2013, Michel Temer publicou um livro de poesia chamado Anónima Intimidade. Tem cinco filhos de três casamentos em 40 anos. A sua actual mulher, uma ex-rainha de beleza 43 anos mais nova do que ele e com quem está quase a ter um segundo filho, foi descrita como "bela, reservada e do lar" num artigo na revista conservadora Veja.

Os mercados, inquietos com a deriva económica do Brasil, saúdam as orientações impopulares e que ainda não foram postas em prática: ajustamento orçamental e reformas estruturais no sistema de pensões ou no código do trabalho. Mas, como Rousseff, terá que se entender com um Parlamento fragmentado, onde os apoios se negoceiam a troco de dinheiro ou em troca de cargos na máquina do Estado.

Para acalmar os seus novos aliados conservadores, assegurou — tal como tinha jurado fidelidade a Dilma — que não será candidato à Presidência em 2018.

E depois há os negócios, em especial o titânico e embaraçoso escândalo de corrupção em torno da Petrobras que afectou fortemente o seu partido. A tempestade já atingiu o seu colega Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara de Deputados, que puxou os cordelinhos da destituição de Rousseff. O próprio Temer é mencionado pelos acusados, mas até ao momento não foi incomodado pela Justiça.

Agora, com Rousseff caída no abismo, o seu poema Embarque parece premonitório:

"Embarquei na tua nau
Sem rumo. Eu e tu.
Porque não sabias
Para onde querias ir.
Eu, porque já tomei muitos rumos
Sem chegar a lugar nenhum."

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