Ministro da Economia francês demitiu-se para lutar pela presidência

Hollande aceitou demissão de Emmanuel Macron, que agora deve concentrar-se na candidatura às presidenciais de 2017.

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Macron de regresso ao seu ministério, de barco LIONEL BONAVENTURE/AFP

Emmanuel Macron, o ministro da Economia francês, demitiu-se. Há muito que a decisão era esperada, e foi apresentá-la esta terça-feira ao Presidente François Hollande - foi como seu conselheiro que entrou para a política. A partir de agora, vai dedicar-se ao movimento Em Marcha!, que lançou em Abril, com a ambição de se candidatar às eleições presidenciais da Primavera de 2017.

Michel Sapin, que era ministo das Finanças, vai acumular a Economia que Macron deixou vaga.

Macron não anunciou para já que se candidatava - prometeu apenas "tudo fazer para transformar a França no ano que vem", superando "os bloqueios económicos, ideológicos e políticos", em declarações breves no Ministério da Economia, depois de apresentar a demissão.

“Agora que se demitiu, vai concorrer às primárias da esquerda ou da direita?”, interrogou-se, viperino, Florian Philippot, dirigente do partido de extrema-direita Frente Nacional. Apesar de fazer parte de um governo socialista, Macron não é filiado no PS francês. A sua experiência profissional é a de consultor num banco de investimento, o Rothschild – algo que os sectores mais à esquerda não se cansam de sublinhar, dedicando-lhe o desprezo reservado para os que querem aparentar algo que não são.

O jovem Emmanuel Macron – de 38 anos – tornou-se o ministro mais popular do Governo de Manuel Valls. A popularidade é comprovada pelas vendas de um número recente da Paris Match com ele e a sua mulher na capa, numa praia de Biarritz, que vendeu cerca de 260 mil exemplares – foi a edição da revista que mais vendeu neste Verão, diz o Le Monde.

Mas é também um dos mais polémicos, devido às suas posições liberais, que defende dizendo serem essenciais para “desbloquear” a economia e o mercado de trabalho em França. O pacote legislativo variado que leva o seu nome, que incide sobre áreas tão vastas como a extensão do trabalho ao domingo e a liberalização do transporte em autocarros de passageiros, fez correr rios de tinta e acabou por ser aprovado sem discussão no Parlamento, através do recurso ao parágrafo 3 do artigo 49.º da Constituição; foi a primeira vez que o Governo Valls usou esse artifício.

Esta faceta liberalizante não o torna propriamente apreciado pela esquerda, mas dá-lhe credenciais como um possível candidato que cruze as fronteiras ideológicas e capte votos da esquerda reformista – que anteriormente estaria com Valls, mas o primeiro-ministro está em queda-livre na popularidade – e também os da direita e centro-direita. Ele, como o seu movimento Em Marcha! – que ainda não tem programa – diz que quer ir ir além da esquerda e da direita, das divisões habituais.

A sua saída do Governo era esperada há meses. Os momentos de incompatibilização com Valls, o fim das boas graças de Hollande, já o tinham tornado claro. Com a indefinição do Presidente, que continua sem dizer se vai recandidatar-se ou não, vários socialistas começaram a perfilar-se como candidatos às primárias, para escolher quem levará a bandeira da esquerda nas eleições.

O avanço de Manuel Valls, que era visto como o “senhor que se seguiria”, se Hollande não voltasse a lutar pelo seu lugar no Palácio do Eliseu, já não é dado como uma aposta segura. As suas posições radicais contra o uso do burkini, na polémica que agitou o Verão francês, e a descida nas sondagens, enterraram as suas hipóteses.

No seio da maioria socialista – que tem perdido as eleições que se foram realizando desde que ganhou as presidenciais e as legislativas, em 2012 – o abandono do Governo por parte de Macron está a ser visto como uma traição, embora fosse previsível. “É um kinder surpresa por conveniência pessoal no momento em que a França se recupera e a direita se organiza”, reagiu o primeiro-secretário do PS, Jean-Christophe Cambadélis.

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