A longa batalha de uma sem-abrigo para provar que o Estado lhe devia uma fortuna

Wanda Witter dormiu 16 anos nas ruas de Washington e afirmava que a Segurança Social lhe devia dezenas de milhares de dólares. Diziam que era louca, mas afinal tinha razão.

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Witter foi devolvendo os cheques porque não batiam certo Linda Davidson/The Washington Post
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A idosa foi agredida na semana passada Linda Davidson/The Washington Post
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Wanda Witter depois de ter recebido o seu primeiro cheque com a quantia certa, já este mês Linda Davidson/The Washington Post
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Witter no momento em que foi levantar o cheque de quase 100.000 dólares à Segurança Social Linda Davidson/The Washington Post

Quem já passou pelo centro de Washington D.C. provavelmente deu de caras com uma mulher de 80 anos chamada Wanda Witter.

Cabelos brancos, uma expressão fechada e determinada, calças de ganga. Se calhar já lhes pediu uns trocos, e provavelmente não agradeceu com um sorriso. Nos últimos dias, talvez tenham reparado também no olho negro e nos pontos que tem na cara.

Há anos que Witter dorme na esquina entre as ruas 13 e G, na zona Noroeste de Washington, no seu saco-cama azul, bem fechado até cima para manter as ratazanas e as baratas à distância. No seu carrinho de supermercado, acorrentado às cadeiras da esplanada que fica mesmo ao lado, está uma torre feita com três malas.

Talvez até lhes tenha dito que dentro dessas malas está toda a papelada que prova que o governo federal norte-americano lhe deve mais de 100.000 dólares. E tinha razão.

"Diziam-me que estava louca. Que podia deitar as malas ao lixo", disse Witter, uma antiga metalúrgica que nasceu em Corning, no estado de Nova Iorque, divorciada e mãe de quatro filhas.

"Quando decidi passar a dormir nas ruas, sabia que tinha de ter muito cuidado. Estava sempre a repetir a mim mesma que não podia fazer nenhuma parvoíce. Porque eles iam pensar que eu estava louca", disse.

E também tinha razão em relação a isso.

Mas, ao fim de mais de uma dúzia de anos, Witter encontrou finalmente alguém que não a tratou como uma louca, alguém que acreditou nela – uma assistente social chamada Julie Turner.

Há nove meses, Turner, que trabalha para uma organização ecuménica sem fins lucrativos, recebeu um telefonema de uma outra associação humanitária a perguntar-lhe se podia ajudar a tratar de Witter.

A assistente social já tinha tentado ajudá-la uma vez, quando a encontrou numa cantina social. Witter rejeitou-a. Mas desta vez, Turner, que também ajuda os sem-abrigo que vendem o jornal Street Sense, conseguiu persuadir Witter a falar com ela. Em vez de a tratar como uma mulher sem-abrigo rude e louca, Turner começou a ler os documentos que aquela mulher transportava nas malas.

"Ela tinha todos os documentos bem organizados, tudo em ordem. E tinha razão, teve sempre razão. Deviam-lhe mesmo aquele dinheiro todo", disse a assistente social, de 56 anos.

Witter vai receber um cheque da Segurança Social no valor de 99.999 dólares, disse a sua advogada, Daniela de la Piedra, especialista em litígios com a Segurança Social. É a quantia mais elevada que a agência pode pagar de imediato, mas Witter tem a receber ainda mais dinheiro, que deve ser pago dentro de pouco tempo, assim que a burocracia for ultrapassada.

Teimosia contra a burocracia

Será o culminar da sua longa batalha. Witter vagueou pelas ruas de Washington durante 16 anos, enquanto ia ligando para o número da Segurança Social, enviava cartas e tentava que alguém ouvisse a sua história.

Tudo começou depois de ter perdido o emprego como metalúrgica na fábrica Ingersoll-Rand em Corning, no estado de Nova Iorque, onde montava turbinas e componentes de motores.

Depois disso, foi viver com uma das suas filhas para Fort Carson, no estado do Colorado, e matriculou-se no community college de Pikes Peak (uma instituição de ensino entre o secundário e a universidade). Acabou o curso em três anos e depois tornou-se solicitadora.

Pensou que conseguiria arranjar emprego na capital do país, e por isso mudou-se para Washington em 1999. "Washington era a cidade onde estavam todos os advogados", disse Witter.

Mas arranjar emprego não era uma tarefa fácil. Quem queria dar emprego a uma mulher austera, a caminho dos 70 anos, e que ainda se comportava como uma metalúrgica? Ninguém. Foi arranjando pequenos trabalhos e acabou por ficar sem dinheiro.

Em 2006, decidiu pedir os pagamentos da Segurança Social a que tinha direito, mas os cheques que iam chegando não batiam certo. As quantias variavam entre os 300 dólares e os 900 dólares por mês. E ela quis perceber o que se passava. Telefonou e perguntou, mas ninguém lhe deu respostas.

Farta daquela confusão, começou a escrever a palavra "Void" nos cheques, para inutilizá-los, e devolvia-os à Segurança Social, recusando-se a levantar as quantias que lhe enviavam porque sabia que estavam erradas.

A maioria das pessoas com pouco dinheiro teria depositado esses cheques, mas Witter é teimosa. "Se eu os tivesse depositado, quem é que acreditaria que as quantias estavam erradas?"

Quando as suas filhas conseguiram localizá-la (ela não tinha dito a ninguém para onde ia), uma delas foi até Washington D.C. e tentou convencê-la a ir viver com a sua família.

"Eu disse-lhe que tinha assuntos para tratar aqui, e que não podia ir embora antes de os resolver. Estava determinada a não sair daqui enquanto não me pagassem o que me deviam." Uma das filhas comprou-lhe um telemóvel e fê-la jurar que se manteria em contacto.

Orgulhosa demais para confessar a situação em que se encontrava, Witter foi parar a um abrigo, juntando-se aos cerca de 3600 adultos sem casa que vivem em Washington.

E quando tentou voltar a receber os cheques da Segurança Social – mesmo os que não chegavam com a quantia certa –, não teve sorte.

Quando não se tem uma casa, é difícil receber correio. Os cheques iam sendo devolvidos à Segurança Social mesmo antes de chegarem a Witter, disse a sua advogada.

"Ela devolveu todos os cheques em 2006, 2007 e 2008", disse Daniela de la Piedra. "Vários cheques foram devolvidos sem referência a uma morada e sem informação sobre uma conta bancária. Por isso, em Outubro [de 2015], a Segurança Social deixou de passar os cheques. Deixaram de tentar contactá-la."

Uma porta-voz da Segurança Social disse que não podia comentar casos individuais.

"Eu não estava louca"

Durante os anos em que dormiu nas ruas, Witter tentou que alguém a ouvisse. Explicou a várias organizações que ajudam os sem-abrigo que as suas malas, empilhadas no carrinho de supermercado, tinham as provas. Deviam-lhe dinheiro, muito dinheiro, e ela podia prová-lo.

Witter não é uma pessoa particularmente calorosa nem extrovertida. Não é desagradável, apenas directa. Muito desconfiada de toda a gente e obcecada com a Segurança Social.

"Eles estavam sempre a sugerir-me consultas com especialistas em problemas mentais. Eu não estava louca. Não tinha nenhum problema de saúde mental", disse.

Mas, ao fim de todos estes anos, Turner ouviu-a.

"Ela precisava de ajuda económica e não de ajuda psiquiátrica", disse Turner. "Isso é uma parte do problema dos sem-abrigo em D.C. Há muitas pessoas que são classificadas como doentes mentais. Muitas vezes, o problema dos sem-abrigo é realmente apenas uma questão de economia."

Em Maio passado, Turner levou Witter a uma organização que aconselha idosos sobre problemas com a Justiça. Foi aí que Daniela de la Piedra analisou todos os documentos, tal como Turner tinha feito.

E sim, concluiu de la Piedra – esta mulher sem-abrigo tinha a receber muito dinheiro.

Mas Witter não sorriu.

Não é nenhum segredo que a Segurança Social tem falta de pessoal. Um relatório do Center on Budget and Policy Priorities indica que o orçamento da agência encolheu 10% desde 2010, à medida que os baby boomers foram envelhecendo e pondo mais pressão sobre o trabalho da Segurança Social.

No ano passado, a agência recebeu 37 milhões de telefonemas com pedidos de ajuda e 41 milhões de visitas nos seus escritórios. A média do tempo de espera para uma audiência era de três semanas, e mais de um milhão de processos de pagamentos a pessoas com incapacidade para trabalhar estavam parados, segundo o relatório.

Enfrentar um gigante como a Segurança Social é uma tarefa muito difícil, mesmo para uma pessoa tão obstinada como Witter. Ela ligava para o número geral, escrevia cartas, andava para todo o lado com todos os documentos. Mas a burocracia era impenetrável.

Enquanto Witter dormia nas ruas, a quantia que lhe deviam cresceu para seis dígitos.

Em Junho, a Segurança Social reconheceu finalmente a gravidade do caso e passou-lhe um cheque de 999 dólares – o máximo que pode ser passado num gabinete da agência, disse a advogada.

Mas Witter não sorriu.

Abriu uma conta e depositou aquele dinheiro. Era suficiente para uma boa refeição e comprar roupa. Mas Witter insistiu em regressar ao seu lugar, na esquina das ruas 13 e G, demasiadamente frugal para gastar todo o dinheiro num hotel. "Nunca se sabe quando vai chegar o próximo cheque", disse. "Não acredito."

E então, aconteceu o pior – ao fim de vários anos na rua, Witter foi agredida.

Aquele quarteirão onde uma dúzia de donuts custa 30 dólares é um mundo completamente diferente à noite. As mulheres sem-abrigo que dormem em frente ao Astro Doughnuts olham umas pelas outras. Ocupam os seus lugares e usam uma casa de banho de um restaurante McDonald's, a dois quarteirões de distância, uma de cada vez, enquanto as outras olham pelos seus pertences. Foi assim que Witter conseguiu guardar as malas ao longo dos anos.

Há duas semanas, confrontou um homem sem-abrigo que estava a mexer nos bens de uma das suas colegas de rua. O homem pegou numa cadeira e agrediu-a, deixando-a com um olho negro e um corte profundo na face.

"Mas, um dia, aquele dinheiro vai chegar", dizia a si própria, enquanto o médico lhe cosia o corte na sala de emergências.

O primeiro pagamento mensal por inteiro – a quantia a que Witter sempre tivera direito – chegou finalmente na semana passada: 1464 dólares.

Turner encontrou um apartamento, um estúdio em Capitol Hill por 500 dólares mensais. Witter arrendou o espaço e mudou-se para lá no dia 16 de Agosto, com o seu carrinho de supermercado.

Não queria tirar das malas os poucos pertences que lhe tinham dado e que ainda guardava desde que saíra de casa, e não sabia muito bem onde ia dormir. Debaixo da varanda? Ou no chão, ao lado do armário?

Turner resolveu o problema: pegou no carrinho de supermercado e esvaziou-o na nova casa de Wanda Witter – um edredão, lavado recentemente; chávenas; copos. "Olha, Wanda, talheres a sério", disse Turner, enquanto punha um garfo numa das gavetas.

Mas Witter não sorriu.

A assistente social comprou-lhe um colchão de ar, dos bons, com uma bomba de encher e tudo. "Não quero isso", disse Witter. "Passei anos nas ruas, doem-me os ossos. Quero uma cama a sério."

"Vamos comprar-te uma cama a sério, Wanda, mas isto é apenas um começo", explicou Turner, enquanto se agachava para encher a cama.

Turner levou Witter a um Walmart, para lhe comprar uma pequena televisão e uma antena. "Cinco canais, Wanda!"

Mas Witter não sorriu.

Ao todo, Witter gastou 77 dólares do seu próprio dinheiro. A compra que a satisfez mais foi uma almofada que escolheu propositadamente devido à sua firmeza. E então esboçou um sorriso.

Mas não vai comprar nenhum sistema de ar condicionado nem nada mais extravagante do que aquela almofada e uma ou outra necessidade mais urgente. Ainda lhe é difícil acreditar que os mais de 100.000 dólares vão chegar na totalidade. Mas o dinheiro vai mesmo chegar, garante a advogada quase todos os dias.

Witter fechou as cortinas do seu pequeno quarto, pronta para passar a primeira noite num sítio que ainda não conseguia ver como seu.

"Agora preciso de alguma privacidade", disse, antes de o grupo de pessoas que a têm ajudado ter saído do pequeno apartamento. Mas Witter ainda não sorriu. Porque ainda está à espera.

Nota: Um dia depois da publicação deste artigo, na semana passada, Witter recebeu finalmente um cheque no valor de 99.999 dólares. Já com um sorriso, revelou qual será a sua extravagância: "Os meus dentes. Os meus dentes de cima. Quero sorrir sem parecer uma bruxa velha."

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post