Crítica

A dona da casa

O dinamarquês Thomas Vinterberg conta a história de uma mulher à procura de si mesma pelo meio de uma utopia colectiva: A Comuna.

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O dinamarquês Vinterberg confirma o seu interesse pelo relação entre o indivíduo e a comunidade

Há aquela célebre frase, “cuidado com o que desejas”, que se aplica na perfeição à concretização do sonho de Anna Møller (Trine Dyrholm). Quando o marido, professor de arquitectura, herda a mansão familiar em Copenhaga, Anna, que sente que o seu casamento entrou em velocidade de cruzeiro, sugere que se mudem para lá, convidem alguns amigos a ir viver com eles e criem uma casa comunitária. O que Anna não esperava era que, nesse processo, Erik se apaixonasse por outra pessoa – e A Comuna, apesar do que o seu título dá a entender, é muito menos um filme sobre a utopia colectivista dos anos 1960 e 1970 e muito mais um triângulo amoroso-familiar com o amor livre como pano de fundo.

Na verdade, a tal comuna é um pretexto, quase uma ferramenta narrativa – as suas personagens são mais um coro grego que está lá para servir de testemunha e comentador da acção. É Anna, e o modo como a sua própria identidade é questionada pelo affaire do marido com uma aluna, que é o centro da casa colectiva e o centro do do filme de Thomas Vinterberg. O dinamarquês confirma assim o seu interesse pelo relação entre o indivíduo e a comunidade, embora aqui de modo muito menos confrontacional do que em A Festa, o filme que o revelou mundialmente, e A Caça, o título que o “ressuscitou” depois de uma longa série de tiros ao lado.

A Comuna não escamoteia que esta casa colectiva não passa de uma brincadeira burguesa com coisas sérias, uma versão light e confortável dos anos do amor livre e da permissibilidade; Vinterberg empresta-lhe um certo ar de nostalgia dourada ao filmar tudo pelos olhos de Freja, a filha adolescente de Anna e Erik, que tem durante este período as suas primeiras experiências “adultas”.