Filhos de embaixador iraquiano sentiram-se “humilhados e zangados” em Ponte de Sor

Os gémeos iraquianos contaram à SIC a sua versão do episódio de violência com jovens portugueses, um dos quais esteve até esta terça-feira em coma induzido.

Haider e Ridha decidiram falar publicamente sobre o caso de Ponte de Sor
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Haider e Ridha decidiram falar publicamente sobre o caso de Ponte de Sor Rui Gaudêncio

Os filhos do embaixador iraquiano em Portugal admitiram, numa entrevista à SIC, que agrediram o jovem português internado no Hospital de Santa Maria após um episódio de violência em Ponte de Sor na madrugada de 18 de Agosto, por se sentirem “humilhados e zangados” com a agressão de que foram vítimas.

Os gémeos Haider e Ridha Ali, de 17 anos, encontram-se protegidos pela imunidade diplomática conferida ao seu pai, o diplomata Saad Mohammed M. Ali. A viver em Portugal há um ano, encontravam-se em Ponte de Sor há duas semanas para que Haider completasse a parte prática do curso que tirava na escola de aviação local. Na entrevista, em inglês, quiseram mostrar o seu ponto de vista acerca do sucedido, afirmando que os irmãos, a família e toda a embaixada iraquiana estão a “rezar pela recuperação” do jovem português.

Os irmãos gémeos contaram que começaram a noite no Koppus e que foi nesse bar de Ponte de Sor que Haider levantou parte das calças para mostrar uma tatuagem na perna. Segundo os adolescentes iraquianos, um grupo que incluía o adolescente português internado no hospital abordou-os com “obscenidades” e agarrou as mãos de um deles.

O confronto continuou na rua. O grupo de “cinco ou seis pessoas” terá rodeado e atacado Ridha Ali antes de este conseguir entrar no carro, onde Haider já se encontrava. Segundo Ridha Ali, o grupo de jovens portugueses não acedeu à sua tentativa para que se acalmassem. Fugiram do local mas voltaram mais tarde, altura em que o jovem que acabou hospitalizado ter-se-á dirigido a eles num tom agressivo, em português, e dado um murro na cara e no ombro de Ridha Ali, que se sentiu “extremamente insultado”. Perseguindo-o, os dois irmãos acabaram por o atirar ao chão. Haider Ali afirma que deveriam ter parado, porque “ele já estava no chão, não devíamos fazer mais nada”.

Quando voltaram a entrar no bar, para recuperar objectos perdidos na discussão inicial, a GNR já tinha sido chamada ao local.

Os militares acabaram por levar os gémeos a casa. A cara de Haider Ali apresentava feridas e, segundo contaram, o pé e o nariz de Ridha estavam fracturados. Os irmãos contaram que a GNR os aconselhou a apresentar queixa. No dia seguinte, a polícia foi buscar Ridha Ali ao hospital, onde tinha ido fazer um exame de raios X. Já na esquadra, onde se encontrava Haider Ali, os gémeos esperaram cerca de cinco horas, para que os inspectores chegassem de Lisboa. Foram de seguida “interrogados durante horas”.

Segundo Haider Ali, os irmãos foram informados pela escola de aviação que o grupo de amigos do jovem hospitalizado já causara problemas anteriores a outros alunos da escola. “Estão eles acima da lei?”, pergunta o irmão Haider, após explicar que, embora se comente a sua imunidade diplomática, nada está a acontecer aos rapazes que os agrediram.

Haider Ali, que diz ter feito um teste de álcool nessa noite (e ter acusado 0,58), atribui o episódio a um descontrolo causado por “adolescentes, álcool e mentalidade de grupo”, e que todos, os irmãos e o grupo português, foram “vítimas das circunstâncias que facilmente acontecem em Portugal”. Haider Ali referiu ainda o mediatismo gerado pelo caso, afirmando que todos os dias ocorrem situações semelhantes no país e que “os media estão a aproveitar-se da situação de forma a inflamá-la e a criar mais problemas e escândalos”.

Os irmãos afirmam que “não estão acima da lei”, tendo respeitado todos os procedimentos policiais, mesmo quando podiam ter invocado a imunidade diplomática e evitado interrogatórios. Acrescentaram ainda que não tencionam deixar Portugal até a situação estar resolvida.

Os irmãos afirmam que têm recebido várias ameaças de morte que os “assustam”, até porque se sentem “parte da comunidade portuguesa”. E dizem que não representam o pai, que está “devastado”, nem o Governo iraquiano, e sim eles próprios. Questionados sobre a possibilidade de ser levantada a imunidade diplomática, Haider diz que “aceita totalmente a responsabilidade” pelos seus actos e que está “pronto para lidar com as consequências”, embora não saiba ainda qual é a opinião dos responsáveis do seu país.

“Nesta altura, temos de ter amor no coração e não ódio”, pede Haider Ali. “Esta é uma lição da qual todos podemos aprender.”

O adolescente em causa saiu esta terça-feira dos cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria após ter estado em coma induzido. O jovem havia sido transportado de helicóptero para Lisboa em estado crítico após o episódio de violência.

Texto editado por Hugo Torres