Os e-mails seguem Clinton para todo o lado e podem aparecer à porta das eleições

Milhares de novos e-mails devem ser divulgados em Outubro ou na primeira semana de Novembro e mensagens da antiga conselheira Huma Abedin dão mais armas a Donald Trump para atacar a Fundação Clinton.

Foto
Hillary Clinton continua à frente na maioria das sondagens Mark Makela/AFP

O principal obstáculo de Hillary Clinton no caminho para a Casa Branca é Donald Trump, mas há outros dois fantasmas que teimam em aparecer com frequência para agitar os sonhos da candidata do Partido Democrata. Esta semana, ambos regressaram em força: um juiz federal ordenou ao Departamento de Estado que divulgue mais 15.000 e-mails encontrados pelo FBI nos servidores pessoais da antiga secretária de Estado, e uma organização conservadora revelou mensagens que alimentam mais suspeitas sobre a Fundação Clinton.

A polémica dos e-mails estalou em 2014, quando foi revelado que Hillary Clinton mantinha na sua mansão em Chappaqua, no estado de Nova Iorque, servidores pessoais para trocar mensagens electrónicas durante o seu mandato como secretária de Estado, entre 2009 e 2013.

Apesar de Clinton não ter violado nenhuma lei, as regras da Administração Obama eram claras – os responsáveis dos vários departamentos deviam enviar e receber mensagens de trabalho apenas através dos seus endereços oficiais, por serem considerados mais seguros e para que fosse mais fácil preservar os e-mails após a sua saída doscargos.

Mas Hillary Clinton optou por continuar a usar o sistema que estava instalado em Chappaqua. Os e-mails não eram trocados através dos servidores de uma empresa comercial (como o Gmail, por exemplo), nem através dos servidores do Departamento de Estado – tudo passava por servidores instalados fisicamente na mansão, vigiados por agentes dos serviços secretos.

Depois de muita pressão, Hillary Clinton aceitou entregar ao Departamento de Estado os e-mails de trabalho – cerca de 30.000. Outros 30.000 foram apagados por ordem da actual candidata do Partido Democrata por serem considerados pessoais.

Mas o Partido Republicano não ficou satisfeito nem com o método (exigia que a selecção dos e-mails fosse feita por uma entidade independente), nem com as explicações de Hillary Clinton (a ex-secretária de Estado garantiu que não tinha trocado mensagens confidenciais).

O caso foi investigado pelo FBI durante um ano, e a decisão final chegou há um mês e meio: Clinton e os restantes funcionários do Departamento de Estado foram “extremamente negligentes” e foram encontrados pelo menos 110 e-mails marcados como confidenciais na altura em que foram trocados, mas não há indícios de que a segurança nacional tenha sido posta em causa de forma intencional.

A actual candidata à Casa Branca ficou livre de uma acusação formal que lhe poderia ter custado a corrida à Casa Branca, mas ainda assim não se livrou das acusações do Partido Republicano e de várias organizações de direita de que mentiu várias vezes durante o processo.

Mais e-mails do que se pensava

A questão dos e-mails é um fantasma que Clinton vai ter de enfrentar até ao fim da campanha eleitoral, e a decisão anunciada esta semana pelo juiz James E. Boasberg pode criar um problema grave à sua campanha mesmo à porta das eleições, marcadas para 8 de Novembro.

Afinal, durante a investigação aos servidores de Hillary Clinton o FBI recuperou mais 14.900 emails, para além dos 30.000 entregues ao Departamento de Estado, e ainda não houve tempo para separar as mensagens de trabalho das mensagens pessoais. Agora, após uma acção da organização conservadora Judicial Watch, o juiz deu ao Departamento de Estado um mês, até 22 de Setembro, para que esses e-mails sejam escrutinados – o que pode ter como consequência que o seu conteúdo seja revelado a poucas semanas ou dias das eleições.

O mais provável é que tudo continue a ser uma questão de confiança e não de segurança nacional – apesar de liderar a maioria das sondagens, Clinton é considerada uma pessoa pouco honesta e não merecedora de confiança por cerca de 60% do eleitorado. E é essa fraqueza que Donald Trump vai explorar até ao fim, apesar de as sondagens indicarem também que o candidato do Partido Republicano é visto por ainda mais pessoas como pouco honesto e não merecedor de confiança.

A estratégia de reforçar a ideia de que Hillary Clinton é desonesta e que não olha a meios para atingir os fins ganhou ainda mais fôlego por causa de uma outra iniciativa da Judicial Watch, revelada também esta semana.

A organização conservadora publicou no seu site 725 páginas de documentos do Departamento de Estado, "incluindo trocas de e-mails nunca antes divulgadas em que a antiga principal conselheira de Hillary Clinton, Huma Abedin, proporcionou a doadores da Fundação Clinton um acesso expedito à secretária de Estado".

Numa dessas trocas de e-mails, um dos executivos da Fundação Clinton, Douglas Band, pede a Abedin que tente marcar uma entrevista na embaixada dos Estados Unidos em Londres para um jogador de futebol do clube inglês Wolverhampton, que não tinha visto para entrar nos Estados Unidos devido a uma "acusação judicial". O pedido de Douglas Band foi feito em nome de Casey Wasserman, um empresário do entretenimento que doou dinheiro à Fundação Clinton e que ajudou a angariar fundos para a campanha de Hillary Clinton este ano.

Tal como nos outros emails revelados pela Judicial Watch, não há qualquer indício de que os pedidos feitos através de Huma Abedin tenham sido concedidos por Hillary Clinton – no caso de Casey Wasserman, Abedin diz que se sente "nervosa por se envolver" e Band responde: "Então não te envolvas."

Mais uma vez, a questão pode ser mais um problema de transparência do que uma prova de que a Fundação Clinton é uma "organização criminosa e corrupta", como afirmou Donald Trump.

"Estes e-mails mostram que há uma longa fila de amigos da Fundação Clinton que não tinham problemas em pedir ao Departamento de Estado dirigido por Clinton reuniões, favores e tratamento especial. Não é chocante, mas é decepcionante que as linhas entre o Departamento de Estado e pessoas de fora sejam tão ténues. Vejo pouca receptividade aos pedidos agora revelados, mas penso que é preciso investigar mais", disse ao USA Today Scott Amey, conselheiro-geral da organização sem fins lucrativos Project on Government Oversight, que se dedica a investigar e expor casos de corrupção no Governo e no Congresso.