Reportagem

Mulheres com deficiência colocadas a ajudar em oficina

Bloco de Esquerda já perguntou ao Ministério da Segurança Social se é legal utentes de lar residencial trabalharem de graça. A ideia é as pessoas estarem ocupadas e sentirem-se úteis, justifica presidente do Instituto Monsenhor Airosa, uma associação de fiéis da Arquidiocese de Braga

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A oficina das hóstias é no Instituto Monsenhor Airosa, em Braga Paulo Pimenta
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Não é só a oficina das hóstias que recebe utentes, também os serviços de apoio Paulo Pimenta
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Na estrutura fundada no século XIX, moram 58 pessoas, de várias idades, todas do sexo feminino Paulo Pimenta
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Além do apoio que dão no trabalho, vão à piscina ou à horta Paulo Pimenta
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Nas horas mais livres, desenham, pintam ou jogam Paulo Pimenta

Sem a bata branca, com uma touca quase transparente, as luvas a condizer. Quatro mulheres com deficiência de foro mental auxiliam sete funcionárias da oficina das hóstias, no Instituto Monsenhor Airosa, em Braga. Duas, numa sala, escolhem partículas usadas na eucaristia. Outras duas, noutra sala, partem e separam aparas, iguaria cada vez mais apreciada como aperitivo. 

Na estrutura fundada por Monsenhor Airosa no século XIX, moram 58 pessoas, de diversas idades, todas do sexo feminino: 24 no Lar de Infância e Juventude Santa Maria Madalena, repartidas por três unidades; 21 no Lar Residencial Santa Catarina de Sena; 10 no Lar de Idosas Santa Ana.

As idosas – marcadas pela doença e pela debilidade – têm rotinas de oração, partilham histórias, participam em actividades culturais e pedagógicas. E as raparigas – ali colocadas por comissões de protecção de crianças e jovens ou tribunais de família e menores – estudam. “Pode haver alguma que tenha uma tarde livre e ajude a fazer qualquer coisa, mas elas têm a escola, o tempo de estudo, as actividades de carácter lúdico”, diz Isabel Costa, directora geral. Compete a cada uma fazer a sua cama, arrumar a sua roupa, tratar do seu espaço. “É como fazemos com os nossos filhos”, salienta Luís Gonzaga Dinis, presidente daquela instituição particular de solidariedade social, que é uma associação de fiéis da Arquidiocese de Braga. “Procuramos treiná-las para a vida.” Vão transitando de uma unidade para outra, conforme o grau de autonomização.

As residentes com deficiência de foro mental não estão de passagem. Não são capazes de adquirir um grau e autonomia que lhes permita organizar a vida e não têm família que as acolha. Além de participar em actividades lúdicas, como natação ou zumba, “colaboram nas actividades da casa”, admite Isabel Costa. Não todas, “as que têm aptidão suficiente”. Fazem-no a título de “terapia ocupacional, dando prioridade às actividades programadas pela equipa técnica”.

O Bloco de Esquerda perguntou ao Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social se é legal as pessoas trabalharem de graça. Todos os meses, no âmbito dos acordos de cooperação, a Segurança Social paga 971,62 euros por cada uma das 21 utentes do lar para pessoas com deficiência, 700 euros por cada uma das 24 utentes do lar de infância e juventude e 362,49 euros por cada uma das 10 utentes da estrutura residencial destinada a pessoas idosas. E ainda no ano passado, o Estado transferiu 76 mil euros para qualificar os serviços de infância e juventude.

Trabalho e actividades

Não é só a oficina das hóstias que recebe utentes. Também os serviços de apoio. “Uma ou duas limpam corredores gerais da casa. Claro que atrás vem uma funcionária a limpar os cantos, porque elas passam por onde passa a procissão”, concede Isabel Costa. Outras ajudam na cozinha, na rouparia, na horta. Não é, afiança, algo que lhe seja imposto, mas algo que fazem com agrado.

Circulamos pelo antigo Convento da Conceição e deparamo-nos com mulheres na lida. Como é trabalhar aqui? “É bom”, responde Ana Santos, 39 anos, a partir aparas. “Está calor”, suspira Maria Rosa, 40 anos. Quantas horas trabalham? “Normalmente, duas horas de manhã. De tarde, arrumamos as nossas coisas e fazemos actividades”, torna Ana. Desenham, pintam, jogam...

Vieram ambas de Vila Nova de Foz Côa, uma há 24, outra há 25 anos. Naquele dia de manhã, uma tinha ido à piscina, outra ao dentista. Depois do almoço, vieram até ali. “Viemos às duas e meia e vamos ficar ate às quatro e meia”, diz Ana. “A seguir, vamos lanchar e fazer actividades”, acrescenta Rosa.

Gonzaga Dinis faz um longo discurso sobre a tradição. O instituto nasceu como “Casa d`Abrigo” destinada a reinserir as mulheres mais desprotegidas do seu tempo. Ainda no século XIX, já como Colégio da Regeneração, a par da instrução e da religião, desenvolveu trabalhos oficinais. As mulheres podiam então aprender a limpar, a cozinhar, a lavar, a engomar, a bordar, a costurar, a fazer hóstias, sapatos, a tecer e até a fazer desenho industrial. Desses tempos, anteriores ao Estado providência, só resta uma unidade de produção: a oficina das hóstias.

A produção das hóstias, sublinha Gonzaga Dinis, é assegurada por funcionários. “Agora, são sete. Vamos aumentar o número porque estamos a criar um produto novo, que são os cacos d’ hóstia”, explica. Houve apresentação pública no final de Julho, no Posto de Turismo de Braga, e degustação com compota e vinho verde.

 “Uma casa destas tem dificuldades de sobrevivência”, afiança aquele responsável. As hóstias, as “pastas” para a indústria de pastelaria e os “cacos” complementam o orçamento da instituição, que se faz também com a venda de peças da antiga tecelagem, a recolha de donativos e as comparticipações do Estado.

As utentes não têm um horário fixo. “Nós tentamos encaixar [o oficina] nas actividades para que tenham ocupação e sentido de utilidade”, repete Gonzaga Dinis. E não recebem remuneração. “Isto não é encarado como trabalho”, justifica. “Elas estão nesta família e colaboram nas actividades desta família.”

Às vezes, afirma, “é um custo acrescido enquadrar as pessoas neste tipo de actividades”. “Temos uma utente surda-muda na oficina das hóstias. Ela não sabe que vai uma funcionária escolher as hóstias que ela escolheu, porque as hóstias que ela escolhe não ficam bem escolhidas. Ela sente que trabalha e é útil. Nós estimulamos isso. Tentamos que as pessoas tenham um sentido de utilidade. Agora, como são pessoas com alguma dificuldade cognitiva, podem não ter noção exacta de qual é o seu papel.”

“É importante perceber este enquadramento”, julga Isabel Costa. “No fim do dia, quase todos os dias, essa utente surda-muda gesticula para diz que está cansada, que trabalhou muito.” Às vezes, queixa-se que as outras falam de mais, trabalham de menos. Quando sai uma encomenda, reclama a quebra de stock.

“Elas têm aquela rotina”, diz a directora geral. “Há uma certa rotina que tem de fazer parte da vida delas. Se lhes mexemos na rotina é uma crise. Esta menina, no início [da semana] não queria ir para a piscina, com as outras, queria continuar a ir para as hóstias. No primeiro dia, não foi. No segundo já foi.”

Há uma que não foi vez alguma. Está todos os dias na horta. “De manhã e de tarde”, diz ela. “Não quero ir à piscina. Não vou deixar o senhor José [o funcionário] sozinho a fazer as coisas. Ele tem para aí 80 anos. Se tivesse outra pessoa… Ele pode cair ou isso. Já está aqui há muitos anos. Eu estou a acompanhar. Fico atenta. Se é preciso trazer alguma coisa, trago. Se é preciso abrir a água, abro.”

“Que sentido faria ter uma pessoa, com algumas capacidades, a um canto?”, questiona Gonzaga Dinis. “À espera de quê? Da morte? Não fazendo nada? Não é possível andarmos de trabalho manual em trabalho manual, da piscina para o teatro, do teatro para a Quinta das Malafaia. Farão isso tudo de forma equilibrada. Pretendemos que tenham uma vida o mais normal possível”, remata.  

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