A eterna metamorfose dos King Gizzard And The Lizard Wizard

Vêm de Melbourne e têm um nome que indicia que há neles algo de delirante. King Gizzard And The Lizard Wizard, banda rock'n'roll, banda caleidoscópio. Oito discos desde 2012 e cada um deles um novo mundo revelado. Nonagon Infinity, que trazem a Paredes de Coura, é um portento. Imperdíveis.

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"I’m in your mind”, assinalavam eles há dois anos – e achávamos muito bem que estivessem. “Nonagon infinity opens the door”, exclamaram já este ano, quando editaram o oitavo disco em quatro anos – e assim confirmavam o que já sabíamos: os King Gizzard And The Lizard Wizard, australianos de Melbourne, abrem realmente a porta para um outro lado. E nós a carregá-los na cabeça, nós sob a influência da banda que faz de cada álbum mergulho num universo diferente, forma de controlar uma criatividade torrencial que, não fosse controlada, redundaria facilmente em caos alienante.

O que se mantém, sempre, é a mestria e a produtiva sofreguidão que demonstram na abordagem e centrifugação da história do rock’n’roll, com ênfase especial nas aventuras da passagem da década de 1960 para a de 1970. O cartaz da edição 2016 do Vodafone Paredes de Coura tem uma boa porção de rock desejoso e indutor de escapismo, ora mais onírico, ora insaciável nessa procura. Ali veremos os inigualáveis Thee Oh Sees de John Dwyer, os Psychic Ills das névoas shoegaze, o holandês voador chamado Jacco Gardner ou os Unknown Mortal Orchestra agora reconvertidos em máquina dançante. Ali veremos, e prestem-lhes muita atenção, os King Gizzard And The Lizard Wizard, candidatos a uma das revelações do festival. Chegam dia 19. Preparemo-nos. Tudo pode acontecer – mesmo como se deseja. “Não temos um alinhamento definido. Temos uma ideia vaga do que queremos tocar, mas depois deixamos tudo em aberto”. Assim explica Stu McKenzie, vocalista, guitarrista e homem com a capacidade de fazer de uma flauta transversal, que toca ocasionalmente, mote para headbanging endemoninhado.

São sete em palco. Duas baterias, baixo, guitarras, sintetizadores, theremins, harmónicas, a supracitada flauta. Já foram ainda mais, já foram apenas um trio. Tudo porque, quando começaram, não eram exactamente uma banda. Eram o que um grupo alargado de músicos fazia nos intervalos do trabalho nas suas bandas a sério. “A formação era flutuante”, explica Stu. "Por vezes éramos três, outras vezes dez. Fazíamos canções com dois acordes e três palavras de forma a que ninguém tivesse que ensaiar. Assim qualquer um podia aparecer, ligar o amplificador e juntar-se ao concerto. Demos muitos assim. Música simples e energia garage-rock. Os sete que somos agora foram os que se foram mantendo ao longo do tempo”. Passado um ano disto, a banda secundária passou a principal. “Aconteceu quando começámos a fazer gravações juntos”. 12 Bruise EP2, de 2012, foi o primeiro registo. A partir daí, não só se multiplicaram as edições, como a música se foi complexificando, não no sentido “prog” da coisa, mas na forma como os King Gizzard And The Lizard Wizard começaram a tratar cada álbum como se do primeiro registo de uma nova banda se tratasse.

Quanto a conversa já vai longa, McKenzie contará que ter crescido nos anos 1990 foi determinante para que se voltasse, irremediavelmente, para a música das décadas de 1960 e 1970. “Como cresci com o nu-metal, com os Offspring e com a Britney Spears, com os quais não conseguia sentir qualquer tipo de relação, tive que me refugiar em música do passado. De qualquer modo, é difícil para quem tem uma banda rock não ser inspirado pela British Invasion, o movimento psicadélico ou o heavy metal inicial. O importante é descobrires nisso espaço para te encontrares a ti mesmo”. Os King Gizzard And The Lizard Wizard descobriram-se de uma forma peculiar: transformação constante é o mote.

I’m Your Mind Fuzz, o quinto disco (2014), aquele que primeiro chamou a atenção de todos para a banda de Melbourne, tinha ritmo de motorika em modo blues rock e descia as rotações para se fixar num onirismo feito de visões estelares e vozes distorcidas, subaquáticas. De seguida, chegou Quarters (2015), composto por quatro canções que se esticavam nos dez minutos de duração. Depois dele, no mesmo ano, Paper Maché Dream Balloon, de base acústica e paisagens pastorais, recheado de humor negro (Cold cadaver era uma das canções de melodia muito gentil) e com uma tendência para o delírio iluminado que encontrávamos nas canções de Kevin Ayers na década de 1970. Este ano, por sua vez, chegou um portento chamado Nonagon Infinity, imaginado como álbum em loop contínuo – o último segundo da última canção ligado directamente ao primeiro; excertos de letras e enxertos de canções transbordando de umas para outras até criar um caleidoscópio de padrões que se transformam em velocidade supersónica. Para Stu McKenzie, tudo se resume a uma palavra, exploração. “Parte do divertimento de tudo isto reside em explorar, em experimentar aquilo que não fizeste antes. Nunca fui um compositor que, de um momento para o outro, inventasse a partir do que quer que me passasse pela cabeça. Temos uma ideia e construímos à volta dela. Depois sim, utilizamos o que quer que resulte no momento, dentro desse contexto. Todos os discos foram criados contidos em fronteiras determinadas. Não é uma questão de pensar fora da caixa, mas sim de explorar dentro da caixa”.

A ideia para Nonagon Infinity era “fazer um disco que fosse como uma grande canção”. Um disco que fosse “o mais pesado” que a banda já gravara e onde fossem “exploradas diferentes marcações rítmicas”. A ambição acabou por traí-los. A meio do processo, cansados das horas sem fim de ensaios para que todas as pontas fossem ligadas na perfeição, aconteceu aquilo que, neles, nunca pode acontecer. Foi-se o divertimento. Fizeram uma pausa. Sendo a banda que são, aproveitaram-na para gravar um álbum completamente diferente. “Acústico e composto de canções curtas sem relação umas com as outras” – esse mesmo: Paper Maché Dream Balloon.

Gravado e editado o disco imprevisto, lançaram-se então à tarefa de completar este febril Nonagon Infinity, álbum sem fim, álbum de que nunca nos cansaremos por toda a eternidade. Dele será feito grande parte do concerto em Paredes de Coura. Aproveitemo-lo bem. Quando os King Gizzard And The Lizard Wizard regressarem a Portugal, o mais certo é que sejam a banda de sempre, completamente diferente.