Portugal tem metade da área ardida na UE este ano

Desde o início do ano até esta sexta-feira, o total de área ardida já ultrapassou os 100 mil hectares e vai continuar a evoluir.

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Arouca Rafael Marchante/Reuters
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São Pedro do Sul Rafael Marchante/Reuters
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Desde o início do ano até esta sexta-feira já arderam em Portugal mais de 101 mil hectares de floresta, o equivalente a 101 mil campos de futebol. Mas se os números por si só já impressionam, os dados recolhidos pelo Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (conhecido pela sigla EFFIS) mostram que Portugal, sozinho, é responsável por mais de metade da área ardida em todos os países da União Europeia em 2016. Esta sexta-feira o observatório europeu contava 201 mil hectares ardidos em toda a União Europeia (UE) desde o início de Janeiro. Em Portugal, ao longo do dia, a área ardida passou de 90 mil para os 101 mil hectares, colocando Portugal a representar mais de 50% do total dos 28 países da UE. É expectável que continue a aumentar.

O observatório, que através de imagens de satélite contabiliza quase em tempo real a área ardida, mostra ainda que os 101 mil hectares ardidos são também um valor muito acima da média dos últimos oito anos. Por esta data, o número é quatro vezes maior do que a média da área ardida entre 2008 e 2015, que rondava os 25 mil hectares ardidos.

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Os mais de 101 mil hectares já superaram a média total dos últimos oito anos, que não ultrapassou os 74 mil por ano. 

Os números mais recentes mostram igualmente como o início deste mês está a ser dramático. A 5 de Agosto, o total de área ardida em Portugal era, segundo o observatório, de 5,490 mil hectares. Na semana seguinte, entre 6 a 12 de Agosto, arderam 96,477 mil hectares, quase 20 vezes mais do que o tinha ardido até à data. Numa só semana, arderam mais hectares em Portugal do que o total de outros anos.

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Na última semana o total de área ardida disparou DR/EFFIS

Por outro lado, os dados demonstram que, em anos anteriores, a média do número de incêndios era mais alta, mas o seu crescimento foi gradual. Já este ano, o pico aconteceu durante a última semana, entre 5 e 12 de Agosto, quando o número de incêndios disparou e ultrapassou a média registada nos últimos oito anos. Até à primeira semana de Agosto, o número de incêndios e total de área ardida esteve sempre abaixo da média registada nos anos anteriores, mas a tendência inverteu-se a partir do dia 5.

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No total, já arderam 201 163 hectares na União Europeia DR/EFFIS

Ao pico do número de incêndios corresponde, sem surpresas, o crescimento da área ardida. Esta sexta-feira, o observatório contava 148 incêndios em Portugal com mais de 40 hectares e no total 403 incêndios nos 28 países europeus. A média registada em anos anteriores era de 325 incêndios, dos quais 87 eram portugueses. 

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Este ano, o número de incêndios sofreu um pico na primeira semana de Agosto DR/EFFIS

Importa notar que o Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apresenta os dados por defeito, uma vez que se baseia em estimativas com base 80% da área total ardida que são depois confirmadas pelas autoridades nacionais. Esta particularidade explica os números recolhidos até ao final de Julho, que já contavam 7,461 hectares de área ardida, dos quais 4,7 mil eram em zona de mato e 2,8 mil em zona de povoamentos. Assim, é expectável que os números do observatório ainda aumentem depois das correcções.

Para Ricardo Ribeiro, autor de um estudo sobre os dez anos de implementação do Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndio, “os números são conclusivos”. “A área ardida nos países do Sul ronda os 35% a 45% do total de área ardida nos países da União Europeia e Portugal é quem representa o maior problema”, diz ao PÚBLICO.

O cenário não é novo, mas é mais violento. Em 2013, metade da floresta perdida em toda a UE estava concentrada em Portugal. “Todos os anos ultrapassamos ou andamos muito perto dos 50% de área total ardida. Ora é 50%, ou 44% ou 49%, mas anda sempre por aí”, detalha. “Isto é uma coisa sem sentido.”

A ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, disse na quinta-feira que esperava “maior colaboração dos parceiros europeus”. Para Ricardo Ribeiro, “o que a UE nos está a dizer é 'vocês não fizeram o trabalho de casa'”, analisa. “Os restantes países também estão em situação de risco climatérico”, acrescenta o investigador.

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O observatório monitoriza em tempo real quais as zonas de maior risco de incêndio DR/EFFIS

“Os especialistas de climatologia avisam e alertam que cada vez mais estarão reunidas em Portugal as condições da regra dos três 30: os mais de 30 km/hora de vento, os 30% (ou menos) de humidade e os 30 graus de temperatura. Estes três 30 são perigosos condicionantes de incêndios". Uma das soluções apontadas pelo investigador é a aposta em "equipas de prevenção no terreno".

“Temos mais do triplo da área ardida de Espanha que tem as mesmas características climatéricas”, nota o investigador. “O que os números comprovam é que o clima é um factor de risco, mas não é o motivo predominante porque temos o exemplo de Espanha”, destaca.

De facto, se fizermos o mesmo exercício para os restantes países mediterrâneos, Portugal é o que apresenta as percentagens de áreas consumidas mais elevadas. Este ano, Espanha está mesmo abaixo da média dos anos anteriores, com uma área ardida de 24 mil hectares, cerca de 14% do total da UE. Grécia e Itália surgem com perdas de 18 e 28 mil hectares, o que corresponde a 9% e 14% da área ardida nos 28 países este ano. Já França é quem regista o maior aumento face a anos anteriores. Este ano, a área ardida triplicou, mas ainda assim representa apenas 3% do total da UE.  

Em Portugal, foram oito os distritos com mais de 2,5 mil hectares de área ardida. Arouca lidera a lista, com mais de 17 mil hectares ardidos, desde o dia 8 de Agosto. Segue-se Caminha, com 8923 hectares. Águeda (7163 ha), Arcos de Valdevez (5124 ha), Vale de Cambra (3734 ha), Anadia (3165 ha), Funchal (3078 ha) e Viana do Castelo (2613 ha) completam a lista de concelhos mais afectados.

* Notícia corrigida e actualizada. Os valores foram actualizados com base nos dados mais recentes disponibilizados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS).