A inteligência política aplicada aos negócios

Acompanhar de perto a actividade política e legislativa pode revelar-se determinante para contornar os obstáculos e melhorar os resultados do negócio.

Não há dúvida de que o sucesso de uma organização depende, entre outras coisas, do grau de compreensão do contexto económico, social e político onde opera; cada vez mais, as empresas estão as susceptíveis às oscilações dos factores que as rodeiam. Esta sociedade líquida em que vivemos obriga-nos a uma interacção constante com os elementos externos, que nos condicionam, e a volatilidade do contexto actual torna, por isso, fulcral a capacidade de antever estas alterações, assim como o impacto que podem suscitar no negócio das empresas e no futuro das organizações.

Em épocas de crescimento económico relevante o contexto pode ser igualmente volátil mas, perante um maior leque de oportunidades de negócio, é mais fácil alcançar uma boa performance minimizando os impactos externos negativos. Porém, isso não acontece em períodos de reajuste do ciclo económico, recessão ou tímida recuperação – estágio em que nos encontramos actualmente. Os recentes dados do INE a respeito do primeiro trimestre do ano não foram animadores. Ainda que o PIB nacional tenha crescido 0,8% face a período homólogo de 2015, Portugal teve o segundo pior desempenho da Zona Euro (apenas atrás de Grécia) e as metas traçadas pelo Governo – o Executivo antevê, no Orçamento do Estado, um crescimento de 1,8% em 2016 – parecem cada vez mais difíceis de atingir.

A aptidão estratégica de um negócio não recai, então, apenas na compreensão das dificuldades macroeconómicas do país, mas sobretudo na capacidade de superar um clima de incerteza. Ora, acompanhar de perto a actividade política e legislativa pode revelar-se determinante para contornar os obstáculos que esse cenário pode trazer e, por conseguinte, melhorar os resultados do negócio.

Ou seja, um dos factores que mais influem na acção organizacional, e que é muitas vezes negligenciado, é o da esfera política e legislativa. Não é novidade que as decisões debatidas e tomadas regularmente neste âmbito têm o poder para influenciar directamente a actividade de uma empresa, ou até para afectar todo o funcionamento de um sector. Porém, a maioria destas decisões mantem-se fora do radar das empresas durante a fase da sua entrada e debate na Assembleia, acabando por se fechar quase qualquer janela de oportunidade por parte das organizações em proactivamente participarem no debate, ainda que possam ser grandemente afectadas. Se existir uma forma de antecipar um risco, abre-se a possibilidade de reagir. Aí, a organização despe a sua pele de observadora para passar a intervir na defesa dos seus legítimos interesses.

Só uma pequena parte da actividade política – cerca de 10% – chega ao público em geral, através dos órgãos de comunicação social. Isto torna evidente que o volume de trabalho legislativo é substancial e que há inúmeras movimentações nos órgãos de soberania que não chegam sequer a ser publicamente conhecidos. Perante esta realidade, evidencia-se a importância da inteligência política no universo das organizações; a construção de uma vantagem concorrencial pela informação sobre as dinâmicas do universo político, que faculta a capacidade de prever a mudança e os diferentes cenários que podem emergir. Já são muitas empresas e organizações que contam com este vértice estratégico para melhor gerirem as ameaças ou aproveitarem as oportunidades que surgem no seu caminho. Através dele, as empresas incrementam o nível de conhecimento da esfera política, social e económica em que operam para uma tomada de decisão mais informada, diminuindo a margem de erro. A inteligência política e económica como ferramenta nos negócios não é nova mas cada vez mais distingue as organizações que convivem activamente com o meio onde atuam daquelas que se limitam a perdurar na sua consequência.

Carlos Ruiz Mateos

Director da Área Corporativa e Financeira da Llorente & Cuenca Espanha