Desafio do Balde de Gelo já levou a descobertas sobre genes associados a ELA

Milhares de pessoas aguentaram com um balde de água fria no corpo em nome da esclerose lateral amiotrófica, ou ELA. Por cá, a campanha rendeu cerca de 100 mil euros mas há investigadores portugueses envolvidos em descobertas feitas por redes internacionais que receberam milhões.

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Mais de 200 filipinos, na Cidade de Quezon aderiram ao Desafio do Balde de Gelo, em Setembro de 2014 Erik De Castro/Reuters

O arrepio provocado pela água fria despejada no corpo de milhares de pessoas em nome da esclerose lateral amiotrófica (ELA) começa a fazer cada vez mais sentido. Os cerca de 115 milhões de dólares (quase 105 milhões de euros) angariados com o Desafio do Balde de Gelo para a Associação ELA (dos EUA), que mobilizou milhares de pessoas anónimas e muitas figuras públicas em 2014, serviram para financiar projectos de investigação e pelo menos dois deles já conseguiram avanços importantes. Na última edição da revista Nature Genetics há dois estudos sobre a raiz genética desta doença. Um deles contou com a participação de dois cientistas portugueses do Instituto de Medicina Molecular (IMM) e do Departamento de Neurociências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Apesar do aparente sucesso a nível mundial, em Portugal os resultados do Desafio do Balde do Gelo ficaram longe do objectivo pretendido. A Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA) terá conseguido juntar cerca de 100 mil euros. Estima-se que em Portugal existam entre 600 e 700 pessoas com ELA.

“Para fazer o trabalho de investigação, a nossa proposta era estudar o ADN de cerca de 200 doentes e ter um grupo de controlo com 100 pessoas. Para isso, precisávamos de cerca de 600 mil euros”, refere Mamede de Carvalho, investigador do IMM e membro do conselho científico da APELA. Nem mesmo a participação de figuras mediáticas como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho no popular Desafio do Balde de Gelo terá servido de muito à APELA porque, segundo explica o investigador, estes participantes terão escolhido outras instituições para fazer as suas doações.

Assim, impossibilitados (por enquanto) de fazer os seus próprios estudos e análises genéticas, os cientistas portugueses apoiam-se nas redes internacionais para participar no avanço do conhecimento sobre a ELA. Para o estudo agora publicado na Nature Genetics, Mamede de Carvalho e Susana Pinto enviaram cerca de 200 amostras de doentes portugueses. Este trabalho clarifica uma parte da arquitectura genética da ELA, identificando genes associados ao risco de desenvolver esta doença neurodegenerativa, que afecta cerca de 200 mil pessoas em todo o mundo e que também é conhecida como “doença do neurónio motor” ou “doença de Lou Gehrig”.

O artigo abrange a análise de dados de mais de 12 mil doentes e de um grupo de controlo com 23 mil pessoas e conclui que se pode estimar em 8,5% a hereditariedade da doença baseada em variações na sequência de ADN, sendo que as variantes menos frequentes (1 a 10%) têm um papel mais relevante.

“De facto, há factores genéticos ainda não identificados que são capazes de modelar a expressão da doença. Se os casos familiares correspondem a cerca de 10%, nos outros todos, ou seja 90%, não há qualquer história familiar e portanto não têm um traço genético forte, porque não há transmissão hereditária. Mas nestes 90% podem existir factores genéticos que alteram o risco de cada indivíduo desenvolver a doença. É isso que estamos a identificar aqui”, explica Mamede de Carvalho ao PÚBLICO.

No caso do estudo em que participou, foi identificado um conjunto de três genes (o mais importante é no cromossoma 21) que aumentam o risco de desenvolver a doença.

Este estudo teve o apoio do projecto internacional MinE, que por sua vez recebeu cerca de um milhão de dólares recolhido com o Desafio do Balde de Gelo para mapear o perfil de ADN de pelo menos 15 mil pessoas com ELA (usando 7500 pessoas saudáveis como controlo).

 Grande repertório de amostras

 Um outro estudo, que teve o mesmo apoio e foi publicado na mesma edição da revista científica, está relacionado com as variantes genéticas associadas ao gene NEK1 que conferem susceptibilidade para ELA. “O que importa é que há um conjunto importante de genes que alteram este risco que têm vindo a ser identificados. Estes genes estão associados a alguma coisa, provavelmente a uma expressão anormal de uma proteína que ainda não foi identificada. Quando chegarmos aí, poderemos então tentar construir um medicamento qualquer que altere a expressão da proteína e assim diminuir o risco de desenvolver a doença ou, melhor ainda, tratar as pessoas que já têm esta doença”, acrescenta Mamede de Carvalho.

De facto, sabe-se pouco sobre a causa desta doença neurodegenerativa, progressiva e rara, que reduz a esperança de vida dos doentes a uma média de três anos após o aparecimento da doença. É uma doença assustadoramente incapacitante, que aprisiona uma mente saudável num corpo que progressivamente vai paralisando.

Até 2014 era conhecida por ser a doença que paralisou Stephen Hawking, a nível internacional, ou Zeca Afonso, se optarmos por referências mais próximas. Em 2014 ganhou uma visibilidade que nunca antes tinha tido com o Desafio do Balde de Gelo, que consistia em gravar um breve vídeo, que se tornou viral nas redes sociais, enquanto se despejava água fria em cima do corpo. Lá fora, Oprah Winfrey, Mark Zuckerberg, Britney Spears e até George W. Bush, entre muitos outros, fizeram-no. Por cá, vimos também Nani, Sara Sampaio, José Alberto Carvalho ou Nuno Markl com a equipa da Rádio Comercial, a fazer o mesmo. Os vídeos foram vistos por centenas de milhões de pessoas.

“O Desafio do Balde de Gelo permitiu à Associação ELA investir dinheiro no projeto MinE para criar um grande repertório de amostras necessárias para este tipo de investigação”, afirma, em comunicado, Lucie Bruijn, da Associação ALS.

John Landers, da Faculdade de Medicina da Universidade do Massachusetts (EUA), é um dos autores que assina os dois estudos na Nature Genetics e emitiu uma declaração, citada pela agência Reuters, onde refere que estas descobertas se devem a uma colaboração global entre cientistas, possível graças aos donativos do Desafio do Balde de Gelo. “É um excelente exemplo do sucesso que a combinação de esforços entre tantas pessoas dedicadas a encontrar as causas da ELA pode ter.”