Silêncio e oração na visita do Papa Francisco a Auschwitz

Foi o terceiro líder da Igreja Católica a visitar o campo de extermínio nazi. Nas Jornadas Mundiais pediu aos jovens para abrirem o coração aos refugiados e aos imigrantes

Francisco cruzou o portal com a cruelmente cínica inscrição 'Arbeit macht frei'
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Francisco cruzou o portal com a cruelmente cínica inscrição 'Arbeit macht frei' Filippo Monteforte/AFP
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"Senhor perdoai-nos tanta crueldade", escreveu no livro de homenagem às vítimas do extermínio Kacper Pempel /Reuters
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Francisco junto ao Muro da Morte, onde as SS executaram a tiro milhares de prisioneiros Osservatore Romano/AFP
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Mais de um milhão de pessoas foram mortas em Auschwitz durante a II Guerra Mundial Stefano Rellandini/Reuters
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Francisco rezou durante váris minutos sentado numa cadeira entre os pavilhões de Auschwitz Osservatore Romano/AFP
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O Papa encontrou-se com uma dezena de sobreviventes David W Cerny/Reuters
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Na cela onde esteve preso o monge francisco Maximilian Kolbe que deu a sua vida para salvar outro homem Osservatore Romano/AFP
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Na visita a Birkenau, onde centenas de milhares de judeus foram gaseados e os seus corpos incinerados Stefano Rellandini/Reuters
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Osservatore Romano/AFP

Em silêncio, com o rosto carregado e quase sempre sozinho, o Papa percorreu nesta sexta-feira as estações do genocídio montado pelos nazis no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, nos arredores de Cracóvia. Na véspera, tinha pedido aos milhares presentes nas Jornadas Mundiais da Juventude que não voltassem as costas aos refugiados e imigrantes que chegam à Europa.

Francisco tinha anunciado que não iria fazer discursos durante a visita, a terceira de um líder da Igreja Católica ao mais conhecido dos campos de extermínio, onde cerca de 1,1 milhões de pessoas, um milhão dos quais judeus, foram mortos pelos nazis durante a II Guerra Mundial. Uma intenção elogiada pelo grande rabino da Polónia, Michael Schudrich, lamentando, em declarações à AFP, que demasiada gente visite Auschwitz como uma atracção turística e “se mantenha em silêncio [sobre o Holocausto] durante o resto das suas vidas”. “É preciso ficar em silêncio no local, para que depois se lance ao mundo um grito forte sobre aquilo que se viu”, “lutando contra todo o tipo de injustiças”, afirmou.

Tal como os antecessores, João Paulo II em 1979 e Bento XVI em 2006, Francisco cruzou o portal com a cruelmente cínica inscrição “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”), seguido à distância por alguns assessores e dezenas de jornalistas. Sentou-se logo depois numa pequena cadeira, onde durante dez minutos rezou em silêncio e de olhos fechados. Silêncio e oração minutos mais tarde, de rosto voltado para o Muro da Morte, onde as SS executaram a tiro milhares de prisioneiros.

Recebido pela primeira-ministra polaca, Beata Szydlo, o Papa encontrou-se com uma dezena de sobreviventes de Auschwitz, entre eles a violonista Helena Dunicz-Niwinska, hoje com 101 anos. Falou com todos, um a um, antes de visitar durante vários minutos a cela onde esteve o monge franciscano Maximilian Kolbe, santo da Igreja, que em 1941, deu a sua vida para salvar um pai de família que tinha sido escolhido para morrer à fome. “Senhor, tende piedade do teu povo, Senhor perdoai-nos tanta crueldade”, deixou apenas escrito no livro de homenagem do Campo.

Seguiu depois num pequeno carro eléctrico para Birkenau, a extensão do campo criada pelos nazis para, num sistema de extermínio sem precedentes, gasear centenas de milhares de judeus que ali chegavam de comboio, transferidos dos guetos da Europa ocupada, desfazendo-se dos seus corpos em gigantescos crematórios.

Alguns aspectos do Holocausto continuam a ser um tema difícil na Polónia, país ocupado pelos nazis, mas onde houve quem denunciasse judeus ou participasse no seu extermínio. O Papa quis, no entanto, dar voz aos muitos que se mobilizaram contra o genocídio. Em Birkenau ouviu os relatos de 25 católicos polacos que arriscaram a vida para salvar judeus durante a ocupação, nomeados “justos entre as nações do mundo” pelo instituto Yad Vashem, numa cerimónia em que também participou o padre de uma aldeia vizinha, onde uma família foi exterminada por ter dado guarida a fugitivos.

Apelo a favor dos refugiados

Ao contrário dos seus dois antecessores, Francisco não viveu as atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial na Europa. Talvez por isso, preferiu guardar silêncio durante a visita, um dos pontos altos da deslocação de cinco dias à Polónia para as Jornadas Mundiais da Juventude. Um encontro que ficou ensombrado pelo ataque de dois jihadistas a uma igreja na Normandia, no Norte de França, durante a qual o padre Jacques Hamel, de 86 anos, foi morto.

Ainda antes de aterrar, o Papa afirmou que os atentados dos últimos meses são uma nova demonstração de que o “mundo está em guerra”, um conflito fragmentado de “interesses, de dinheiro, de recursos”. Com os olhos postos na Polónia — bastião do catolicismo conservador —, Francisco afirmou que esta guerra não é uma guerra entre o islão e o cristianismo. “Todas as religiões querem a paz, são os outros que querem a guerra”, afirmou.

Retomou esse tom na quinta-feira, no primeiro encontro com os cerca de 600 mil jovens vindos de todo o mundo para as jornadas mundiais. Contrariando vários governos populistas europeus, caso do executivo polaco do Partido Direito e Justiça (PiS), que ligam a chegada de milhares de refugiados vindos do Médio Oriente ao aumento do terrorismo, o Papa pediu aos jovens que acolham os recém-chegados.

“Um coração misericordioso é capaz de ser um lugar de refúgio para os que não têm casa ou perderam a casa; um coração misericordioso é capaz de ser casa para uma família que foi obrigada a emigrar; sabe o que significa a ternura e a compaixão”, insistiu, ele que tem sido um dos principais críticos de uma Europa que deixa afogar no Mediterrâneo sírios que fogem da guerra ou africanos que procuram na Europa uma vida melhor.

A Polónia, à semelhança do Governo húngaro, opõe-se ao plano europeu para a distribuição de milhares de candidatos a asilo que se encontram actualmente na Grécia e em Itália. O Governo tem uma abordagem também muito restritiva da imigração, sobretudo a oriunda de países de maioria muçulmana, dizendo temer pela identidade católica do país.