Mais de três mil doentes de hepatite C curados. É “a medicina da felicidade”

Portugal tem neste momento "duas das melhores coisas do mundo": o acesso generalizado aos fármacos inovadores para a hepatite C e os transplantes de fígado que chegam a 250 pessoas por ano, realça médico. Esta quinta-feira é Dia Mundial da Hepatite.

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José Carlos Saldanha no dia em que pediu ao ministro que não o deixasse morrer: tudo mudou desde aí Daniel Rocha (arquivo)

Num ano e meio, dos perto de oito mil doentes que iniciaram tratamento com medicamentos inovadores para a hepatite C em Portugal, mais de três mil estão oficialmente curados. “É a medicina da felicidade”, sintetiza Rui Tato Marinho, hepatologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia que, desde 1989, ano em que o vírus foi identificado e surgiu o teste de diagnóstico, tratou centenas de doentes, encaminhou vários para transplante de fígado, deu muitas más notícias mas agora já se habituou à sensação única de poder dizer: “Está curado”.

“Portugal tem neste momento duas das melhores coisas do mundo: toda a gente tem acesso ao tratamento, mesmo sem ter doença grave, e o transplante de fígado chega a cerca de 250 pessoas por ano”, enfatiza o médico. Entretanto, há mais medicamentos inovadores a chegar ao mercado, substâncias que prometem ser mais eficazes num período de tempo mais reduzido e que são mais baratas. Algumas poderão mesmo representar uma esperança para a estreita faixa de doentes que ainda não se cura.

Chegar a este novo paradigma não foi fácil, porém. O vocalista dos GNR, Rui Reininho, esperou quase três décadas pelos comprimidos que se revelaram “milagrosos” e esteve mesmo para desistir, depois de duas penosas tentativas para eliminar este vírus que vai destruindo o fígado e pode degenerar em cirrose e cancro. A poucos dias de fazer 60 anos, em Fevereiro do ano passado, o autor de Pronúncia do Norte começou a terapia com as substâncias inovadoras e negativou, como se diz na gíria médica. No final de 2015 foi declarado curado.

Tal como o vocalista dos GNR, são cada vez mais os doentes que em pouco tempo (12 semanas é o padrão) conseguem livrar-se do vírus. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) são inequívocos: 7840 doentes tinham começado tratamento até ao início deste mês, e, dos que já o tinham finalizado, 3005 foram declarados "curados”. A taxa de cura é de 96%, sublinha o Infarmed, que se recusa a adiantar o montante da despesa com os novos fármacos.

O acordo entre o Estado português e a biofarmacêutica Gilead Sciences — que comercializa o Solvadi (sofosbuvir) e o Harvoni (associação entre sofosbuvir e ledispavir) — “não contempla a divulgação dos preços praticados”, justifica. Estes dados incluem não só os tratamentos efectuados com os mediáticos comprimidos da Gilead mas também com moléculas de outros laboratórios que foram testadas em ensaios clínicos e que, por isso mesmo, não representaram despesa para o Estado.

Para a história ficam os tempos de incerteza, de espera e de ansiedade para os doentes e médicos. Em Portugal, foi necessário aguardar um ano (depois de o Infarmed aprovar o primeiro antivírico de acção directa a chegar ao mercado, o sofosbuvir, que se veio a provar curar a doença em mais de 90% dos casos) para que o Ministério da Saúde e o Infarmed assinassem um acordo então considerado revolucionário — o Estado português apenas paga pelos doentes curados. Este acordo vigora por dois anos, termina em Fevereiro de 2017 e aplica-se aos medicamentos da Gilead, mas já foi anunciado pelo actual ministro da Saúde que vai ser renegociado.

O preço inicialmente pedido, 48 mil euros por doente, foi classificado de “completamente imoral” pelo anterior ministro da Saúde, Paulo Macedo, e por isso as negociações foram-se arrastando. O acordo acabaria por ser assinado na semana em que um doente interpelou de forma emocionada o ministro no Parlamento, pedindo-lhe que não o deixasse morrer, e dias depois de ter sido noticiada a morte de uma mulher que aguardava pelo fármaco.

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Muitos doentes por diagnosticar

Agora, os resultados provam uma taxa de sucesso que ultrapassa os sonhos mais optimistas de médicos e de doentes — que antes do acesso a estes comprimidos eram tratados com injecções de interferão e outras substâncias, como a ribavirina, com muitos efeitos secundários, alguns tão difíceis de aguentar que faziam com que vários pacientes desistissem a meio.

Emília Rodrigues, cujo marido foi diagnosticado com hepatite C após uma peritonite complicada em 2002, não se esquece dos terríveis efeitos secundários dos fármacos usados no passado. Em 2005, em conjunto com um doente, Lourival Neto, criou uma associação, a SOS Hepatites, para apoio dos pacientes que enfrentavam as mesmas “dificuldades, dúvidas e solidão”, descreve.

Lourival morreu em Dezembro desse ano com um cancro de fígado e, desde essa altura e até aos finais de 2011, recorda Emília, o tratamento para a hepatite C consistia na conjugação de injecções de interferão com ribavirina. A média de cura oscilava então entre 50 a 60%, mas os efeitos secundários eram difíceis de aguentar para muitos doentes. A depressão era o mais grave.

Até que, no final de 2011, surgiram os chamados inibidores de protéase, que, em conjunto com o tratamento anterior, já proporcionavam entre 80 a 85% de hipótese de cura, mas com efeitos secundários também difíceis de suportar. Mesmo assim, estes fármacos só eram disponibilizados em Portugal aos doentes mais graves e após autorizações de utilização especial dadas caso a caso pelo Infarmed, recorda a presidente da SOS Hepatites.

Foi justamente a dificuldade na disponibilização destes medicamentos que começou a criar “ansiedade” entre os doentes, lembra Tato Marinho, que, ainda antes do mediático acordo com a empresa norte-americana, conseguiu, tal como outros colegas, curar dezenas de pacientes tratados em ensaios clínicos com moléculas desenvolvidas por vários laboratórios. Actualmente, aliás, são várias as empresas farmacêuticas a competir com a Gilead Sciences, pelo menos mais quatro, como a Abbvie, a Bristol-Myers Squibb, a Janssen e a Merck, elenca.

Ainda recentemente, em Maio, os cerca de mil doentes renais com hepatite C e co-infectados com VIH — que não respondiam ao tratamento padrão — passaram a ter acesso facilitado a uma combinação de fármacos da Abbvie e o Infarmed assinou um contrato com este laboratório que envolve os medicamentos Exviera e Viekirax. O pagamento passou a ser feito então através de uma linha de financiamento própria, à semelhança do que acontece com os fármacos da Gilead.

Se a taxa de cura dos doentes se mantiver a este ritmo, é de prever que no início do próximo ano já estejam livres da infecção mais de metade dos pacientes inicialmente inscritos nos hospitais públicos — cerca de 13 mil. O grande desafio, agora, é fazer com que pessoas que estão infectadas sem o saberem — é preciso notar que a hepatite C é uma doença silenciosa, sem sintomas ao longo de muitos anos — se submetam ao teste de diagnóstico.

De resto, ninguém consegue precisar quantas pessoas estarão infectadas em Portugal e as estimativas são muito díspares, oscilando entre 50 mil, 100 mil e mesmo 150 mil pessoas no país. "O esforço tem de continuar porque ainda existem muitos doentes por diagnosticar e tratar", assinala, a propósito, Armando Carvalho, do Núcleo de Estudo das Doenças do Fígado, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Satisfeita com os resultados que mostram que Portugal “caminha de forma sustentada em direcção ao objectivo de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública”, Raquel Chantre, relações públicas da Gilead Sciences Portugal, não se pronuncia sobre a renegociação do acordo com o Estado português. Nem comenta o preço dos fármacos. Prefere recordar uma estimativa efectuada pelo Infarmed ainda em 2015 e que apontava para uma poupança em encargos para a saúde que "poderia chegar a 412,6 milhões de euros”, por se evitarem as complicações da hepatite C nos doentes curados, nomeadamente em transplantes hepáticos e cancro de fígado.

O problema do preço

O preço dos medicamentos da Gilead Sciences desencadeou uma enorme controvérsia. Nos EUA, o sofosbuvir até ficou conhecido como o “comprimido dos mil dólares” (era quanto custava então cada cápsula) e chegou a ser classificado por um economista como a terapêutica que estava “a levar a América à falência”.

Sigiloso, o preço acordado variou de país para país, oscilando entre os mais de 80 mil dólares nos EUA e cerca de 800 euros no Egipto, o país com a maior prevalência de hepatite C em todo o mundo. 

Em Portugal, o custo acordado terá sido da ordem dos 20 mil euros por doente, por um tratamento-padrão de 12 semanas (há pacientes que necessitam de mais tempo). Mas a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) continua a recusar-se a adiantar valores.

O preço já foi considerado elevado, quando se contabilizam os custos de produção, que investigadores ingleses calcularam oscilar entre 60 a 120 euros. Somando já os custos da investigação e os do marketing, deveria rondar os 300 euros, segundo outras contas de especialistas espanhóis.

O certo é que, apesar de não ter sido dos primeiros a aprovar o tratamento, Portugal é hoje um dos países em que o acesso aos fármacos inovadores é mais generalizado. “Portugal tem um acesso à terapêutica sem paralelo na Europa, com o custo integralmente suportado pelo Estado”, sublinha Armando Carvalho.

O que se sabe é que, em 2015, foram gastos 40 milhões de euros com o tratamento da hepatite C e, para este ano, está prevista uma despesa que ronda os 85 milhões de euros. Em Março, o actual ministro da Saúde adiantou que o acordo seria renegociado, mas nem a tutela nem a farmacêutica adiantam detalhes. O segredo é a alma do negócio.