Segundo ataque com o cunho do Estado Islâmico alarma a Alemanha

Explosão, que causou 15 feridos, foi provocada por um suicida de nacionalidade sírio a quem foi recusado pedido de asilo. Tinha problemas psiquiátricos e terá deixado vídeo a jurar fidelidade aos jihadistas.

O atacante tinha problemas psiquiátricos e já tinha tentado suicidar-se por duas vezes
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O atacante tinha problemas psiquiátricos e já tinha tentado suicidar-se por duas vezes Daniel Karmann/AFP
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Um sírio de 27 anos, a quem tinha sido negado o pedido de asilo na Alemanha e sofria de problemas psiquiátricos, fez-se explodir nas imediações de um festival de música numa cidade da Baviera, naquele que é o segundo ataque inspirado pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI) no país, de um total de quatro incidentes violentos registados em apenas uma semana. Quinze pessoas ficaram feridas no ataque, que ameaça provocar um novo rombo no apoio à política de acolhimento de refugiados do Governo de Angela Merkel.

A bomba, que integrava inúmeros pedaços metálicos, explodiu pouco depois das 22h (21h em Portugal continental) frente a um restaurante no centro de Ansbach, localidade de 40 mil habitantes a sudoeste de Nuremberga que alberga uma base militar norte-americana. Segundo a polícia, o sírio transportava o engenho numa mochila e terá tentado entrar no festival de música que se realizava na cidade e que nessa altura acolhia cerca de 2500 pessoas. Acabou por detonar os explosivos frente a um restaurante da cidade, morrendo na detonação e ferindo outras 15 pessoas, quatro das quais com gravidade.

O atacante chegou à Alemanha em 2014, mas no ano seguinte as autoridades recusaram conceder-lhe asilo, com base na informação de que já tinha recebido essa protecção na Bulgária. A sua extradição para aquele país foi bloqueada depois de ter apresentado certidões médicas que atestavam doença psiquiátrica – desde que está no país tentou por duas vezes suicidar-se e chegou a estar internado –, mas o processo foi reiniciado no passado dia 13, revelou o Governo alemão.

“É terrível que alguém que tenha vindo para este país em busca de abrigo tenha cometido um acto tão hediondo”, lamentou ministro do Interior do governo estadual bávaro, Joachim Herrmann, reconhecendo que este ataque “que irá certamente aumentar a inquietação” que se vive no estado depois de cinco pessoas terem sido esfaqueadas num comboio em Wurtzbourg, no dia 18, e do tiroteio de sexta-feira em Munique.

Ao contrário do primeiro incidente – levado a cabo por um refugiado de 17 anos, que se suspeita agora ser paquistanês, e que deixou um vídeo a jurar fidelidade ao EI – as autoridades dizem que o adolescente, alemão de origem iraniana, que matou nove pessoas na capital bávara era “obcecado por assassínios em massa”, não tendo ligações a grupos terroristas nem sinais de ter sido radicalizado por extremistas islâmicos.

Mas a proximidade temporal ajuda a criar uma amálgama de medo, reforçada depois de na tarde de domingo um outro refugiado sírio, de 21 anos, ter matado com um machete uma mulher grávida na cidade de Reutlingen, nos arredores de Estugarda. Também aqui a polícia diz que não há indícios de que o atacante tivesse motivações extremistas, havendo informações de que o atacante conheceria a vítima, com quem terá discutido antes de a esfaquear. Já nesta segunda-feira, um jornal revelou que a polícia de investigação federal alemã recebeu mais de 400 pistas sobre possíveis jihadistas entre os refugiados, tendo aberto 60 investigações.

“Temos de fazer tudo o que seja possível para evitar a multiplicação deste tipo de violência no nosso país por parte daqueles que vieram cá em busca de asilo”, disse Herrmann, dirigente dos conservadores bávaros da CSU, partido irmão dos democratas-cristãos de Merkel e que tem liderado a contestação à decisão da chanceler de acolher os que fugiram à guerra na Síria e no Iraque – um milhão chegaram ao país em 2015, a grande maioria através da Baviera.

Inspiração islamista

Horas mais tarde, na mesma altura em que o ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière, dava uma conferência de imprensa, Herrmann voltou a falar aos jornalistas para anunciar que no telemóvel do suicida foi encontrado um vídeo em árabe que prova “sem sombra de dúvidas de que este foi um ataque terrorista de inspiração islamista”. Citando uma “primeira tradução” das imagens, revelou que ele anuncia explicitamente [agir] em nome de Alá e jura fidelidade" [ao líder do EI] Abu Bakr al-Bagdadi", prometendo vingar-se dos “alemães que se colocam no caminho do islão”.

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No albergue em que residia foram descobertas mais imagens “de conteúdo salafista” e material suficiente para fabricar uma segunda bomba. E pouco depois, o braço de propaganda dos jihadistas anunciou que o atacante era um dos seus “soldados”, alegando que ele agiu “em resposta aos apelos para atacar os países da coligação” que combate o grupo na Síria e no Iraque.

Maizière não fez referência aos vídeos, mas anunciou um reforço policial em locais sensíveis – incluindo portos, aeroportos – e controlos reforçados nas fronteiras, dizendo que, perante a sucessão de ataques e a compreensível apreensão dos cidadãos, “é particularmente importante aumentar a presença das forças de segurança em espaços públicos”.

Ao mesmo tempo que lamentou os dois incidentes de domingo, Maizière recusou quaisquer ligações com a política de acolhimento do Governo, notando que ambos os atacantes entraram no país antes de 2015, quando Berlim decidiu acolher todos os que fugiam da guerra. “Não devemos alimentar uma suspeita generalizada contra os refugiados”, insistiu o ministro, descartando alterações nas regras de atribuição de asilo até que as investigações estejam concluídas.

Mas estes ataques vieram tornar ainda mais escassa a margem de manobra de Berlim e dar novo fôlego a grupos como o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Depois do ataque de dia 18, o jornalista alemão Konstantin Richter escrevia no Guardian que o balanço da acção “ficou aquém do pior cenário” para o qual a polícia alemã se prepara desde os atentados de Paris e Bruxelas. Mas o seu “impacto político será enorme”, já que se cola à narrativa dos populistas “que há muito insistem numa correlação entre o número de refugiados e a [maior] probabilidade de um ataque”. Um receio que agora se redobra.