Ana Maria Gomes, à procura do tio desnaturado

Com António, Lindo António, a realizadora luso-descendente investiga as memórias de um tio que partiu para o Brasil e nunca mais deu notícias. Um filme de família que acaba de vencer o Curtas Vila do Conde.

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Ana Maria Gomes Alice de Sagazan
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Ana Maria Gomes Yves Ackermann
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Yves Ackermann

“O que me agrada é falar de alguém que na verdade existe através das projecções dos outros, alguém que é difícil de conhecer,” explica Ana Maria Gomes. “Estamos sempre um pouco na dualidade entre quem gostaríamos de ser, entre a imagem que as pessoas nos devolvem de quem somos, e quem somos verdadeiramente. E o que me agradava na história de António é que, na verdade, ninguém o conhecia agora, hoje.”

António é o seu tio, António Gomes de seu nome, que partiu para o Brasil adolescente e que em 50 anos nunca regressou à aldeia natal e deixou de dar notícias, recordado quase como “filho desnaturado”. Foi essa figura ausente da sua própria família que a artista e cineasta luso-descendente, nascida em França em 1982 e diplomada do Centro de Artes Contemporâneas do Le Fresnoy, decidiu explorar no seu projecto mais recente: António, Lindo António, média-metragem de 40 minutos que se sagrou vencedora do concurso nacional do Curtas Vila do Conde para “grande felicidade” da sua autora (e que é exibida esta quinta-feira às 21h30 na Cinemateca Portuguesa, num programa dedicado aos premiados da competição nacional). É um filme que, apesar de feito em França, se inscreve no fascínio de muitos realizadores portugueses ou luso-descendentes pela ruralidade – como é o caso deVolta à Terra de João Pedro Plácido ou Rio Corgo de Maya Kosa e Sérgio da Costa - mas que o faz com uma naturalidade, uma desenvoltura e uma economia invulgares para este tipo de projectos.

“Não suporto filmes condescendentes,” diz a realizadora, que esteve em Vila do Conde a acompanhar a sua curta. “Um filme tem de ter uma energia, um sentimento que passe para o espectador, e não tenho vontade de fazer passar algo negativo. Não sei até onde a vontade de evitar a condescendência é algo que pode ser inteiramente controlado, mas não quis cair nessa armadilha. Queria fazer algo que se parecesse comigo e que fosse fiel a quem a minha família é.” Família que a cineasta não observa de fora: “Pertenço muito a este meio, vinha todos os anos a Portugal, a minha avó influenciou muito a minha maneira de ver as coisas”, explica. “Em França, sobretudo desde que comecei os meus estudos superiores, andei muito de um lado para o outro, mudei muito de casa e de cidade. O meu ponto de referência, o meu ponto de encontro, foi sempre a aldeia do meu pai.”

Mas não foi fácil convencer a família Gomes a abrir-se. “Começou mesmo por ser muito difícil,” sorri Ana Maria. “Era um desafio porque as pessoas da minha família quase não falam, excepto a minha avó que fala pelos cotovelos e que é alguém de muito forte, que não faz cedências e de quem temos todos um pouco de medo (risos). Ninguém compreendia muito bem o que eu estava a fazer. Quando respondiam às minhas perguntas, era mais para me fazerem a vontade, porque era parte da família… O meu pai dizia-me 'porque é que queres fazer um filme sobre o António? Ainda se fosse alguém interessante ou conhecido...'… Mas eu queria ver a personagem que iria emergir das conversas.”

António, Lindo António é, então, menos a história de António Gomes e mais um olhar sobre o que os outros imaginam que ele é. “Todos [na aldeia] se lembravam daquele adolescente que se tinha ido embora muito novo, e que hoje tem 70 anos. Mas uma vida passou, entretanto, e toda a gente podia fazer dele o que bem entendesse. Todos os fantasmas, todas as acusações, todos os ciúmes, todas as projecções - é essa a personagem que acaba por se desenhar, é o retrato dos outros que se faz através do de António”.

Projecções que são da família que ficou em Portugal, mas também de anónimos brasileiros filmados no Rio de Janeiro, a quem Ana Maria pergunta se conhecem António, procurando confirmar ou desmentir as ideias que se fazem na aldeia sobre o Gomes do Brasil. “Ao princípio, não tinha um produtor, e não sabia se iria ser possível viajar. Mas quando surgiu o financiamento para poder ir, tive vontade de ver até onde a ficção dessa personagem poderia ir. As entrevistas de rua no Brasil, com gente a dizer que ele escreve novelas e ganha muito dinheiro, que nos dá a impressão de o conhecer melhor que a própria família, na verdade são fantasias ou ficções iguais às da família.”

E depois de localizar António? “Para começar, há 50 anos que ele não vinha a Portugal, e ele sabia que se alguém chegasse acabaria por ir contar tudo à mãe,” sorri a realizadora, retomando o tema da avó-matriarca como figura intimidante. “Disse a mim própria desde o início que me iria adaptar à personalidade do meu tio; e como é alguém muito tímido e muito púdico, quis respeitar isso. Passei um mês no Brasil, e vi-o o máximo de vezes possível, sem o estar sempre a filmar – havia momentos em que era apenas a sobrinha, e momentos em que sentia que tinha que o filmar, porque seria também uma maneira de ele ficar [na história da família], mas procurei separar ao máximo o lado familiar e o lado de cineasta.” O que nem sempre é fácil - “porque não posso evitar a minha dualidade. Nasci em França, tenho uma cultura francesa, mas também sinto fazer parte da cultura portuguesa. O filme reflecte esses dois mundos, frente a frente. E esses paradoxos fascinam-me.”

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