Leite materno preserva o aroma do alho que as mães comem

Cientistas encontraram o aroma de alho no leite materno. E, apesar de ainda não se saber muito sobre o sabor que passa para o leite, os bebés parecem gostar e bebem mais quando as mães comem alho.

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O aroma a alho não faz com que os bebés rejeitem o leite Enric Vives-Rubio

A importância do leite materno para o desenvolvimento de um bebé, especificamente no que se refere ao sistema imunitário, é ponto assente. Porém, ainda há muitos mitos e muito para perceber sobre a influência do que comemos no leite que as mães produzem quando estão a amamentar. Afecta o sabor? Fica com cheiro? Uma equipa de investigadores da Universidade de Erlangen-Nuremberga, na Baviera (Alemanha), concluiu que o aroma de alho é evidente no leite de mães que o consumiram.

A explicação é simples. Da mesma forma que qualquer pessoa quando come alho fica com o hálito correspondente, o leite materno também preserva o aroma deste alimento. Nos dois casos, a “força” do cheiro que se impõe no nosso organismo está no sulfeto de metil-alilo, um dos compostos voláteis que existem no alho. O sulfeto é absorvido pelo nosso organismo e entra na corrente sanguínea e só é expelido por alguns órgãos como os rins, pulmões e a pele. Agora sabemos que também chega ao leite materno. “Ainda sabemos muito pouco sobre o impacto da comida que as mães consomem nas dietas que os filhos acabam por adoptar mais tarde na sua vida. Alguns investigadores referem que as crianças preferem alimentos que as mães consumiram durante o período de amamentação, porque o leite sabe ao mesmo ou, pelo menos, muito parecido”, refere Andrea Büttner, investigador na Divisão de Química Alimentar da Universidade de Erlangen-Nuremberga e um dos autores do artigo publicado este mês no revista online Metabolites.

O leite materno dos humanos será dos mais complexos no mundo dos mamíferos. Alguns estudos já demonstraram que o comportamento dos bebés durante o período de aleitamento e as opções alimentares que adoptam quando crescem podem ser influenciados pelas escolhas das mães enquanto grávidas e durante o aleitamento. Tal como os investigadores da universidade alemã referem no artigo, foi já provada, por exemplo, a relação entre o consumo de cenouras pela mãe e a apetência das crianças (mais tarde) por este sabor. Também já se demonstrou que após a ingestão de alho, álcool e baunilha o comportamento dos bebés altera-se, intensificando-se e prolongando-se o momento do aleitamento. Estes estudos parecem levar-nos à conclusão de que os bebés são capazes de detectar mudanças de saber no leite materno. Outros estudos também mostraram que alguns alimentos ingeridos pela mãe têm um efeito no odor do leite. O alho era um deles mas a constatação era feita apenas com base no testemunho das mães. Faltava perceber a natureza exacta desta alteração e caracterizá-la.

Num comunicado de imprensa da universidade alemã, esclarece-se que esta equipa de investigadores dedica-se há vários anos a estudar o processamento dos aromas pelo metabolismo. Antes, já tinham demonstrado que, por exemplo, o óleo de peixe não mudava o aroma do leite materno e que, por outro lado, as cápsulas de eucalipto que algumas mulheres tomam quando estão a amamentar para combater uma constipação já levavam um aroma para o leite. Aliás, no caso do eucalipto, não só o seu aroma original foi encontrado no leite como também se detectou uma variedade de derivados formados no corpo da mãe.

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Algo semelhante acontece com o alho, segundo concluíram nesta investigação mais recente. A equipa recorreu a amostras de seis mães e a experiência consistia em medir os efeitos do consumo de alho cru, ingerido cerca de duas horas e meia antes das análises. Numa primeira etapa, o leite foi submetido a um teste sensorial de olfacto por um painel de peritos que detectaram o odor do alho e de repolho nas amostras. Depois, numa segunda etapa, o aroma do leite foi analisado e entre os seus componentes encontrou-se o sulfeto de metil-alilo, entre outros compostos também característicos do alho. O painel de peritos foi de novo chamado para uma avaliação dos vários componentes concluindo que o sulfeto de metil-alilo era o detentor do aroma de alho e os outros componentes eram inodoros.

Porém, Andrea Büttner nota que não é possível saber ainda se este consumo de alho pelas mães tem algum tipo de influência nos hábitos alimentares que são adoptados pela criança quando cresce. O investigador acrescenta ainda que há outras fontes de aromas que também podem ter um efeito no desenvolvimento das crianças e comenta: “Sabemos que a transferência de aromas para o leite materno é limitada e, por isso, os odores que vêm de outros contextos sociais como o cheiro do corpo da mãe ou da preparação dos alimentos na cozinha podem ter um efeito muito mais forte. Frequentemente, as pessoas lembram-se de experiências da infância através de cheiros e os cheiro de um bolo no forno ou da refeição preferida é uma das experiências mais marcantes. No que diz respeito à vertente social dos odores e aromas ainda é preciso fazer muita investigação.”

De resto, o comunicado de imprensa sobre este estudo reforça uma garantia às mães que amamentam: o aroma a alho não faz com que os bebés rejeitem o leite. Como já referido, um outro estudo terá já demonstrado que até tem um efeito estimulante fazendo com que os bebés bebam mais leite.