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Morreu Alan Vega, o cantor dos icónicos Suicide

Precursor do punk na Nova Iorque dos anos 1970, influenciou músicos dos mais diversos géneros. Tinha 78 anos.

Martin Rev e Alan Vega, os Suicide, no Paradise Garage, em Lisboa, em Agosto de 2004
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Martin Rev e Alan Vega, os Suicide, no Paradise Garage, em Lisboa, em Agosto de 2004 Rui Gaudêncio

A sua música, mesmo não sendo de massas, influenciou sucessivas gerações de melómanos e os seus espectáculos ao vivo continuam a ser um exemplo de como actuar perante o público sem rede. Alan Vega, o cantor e provocador de serviço do duo Suicide, morreu este sábado, aos 78 anos, deixando órfão Martin Rev, o seu companheiro de aventuras.  

Era uma das figuras mais influentes da música e da cultura alternativa que irromperam na Nova Iorque dos anos 1970, quando a cidade fervilhava de ideias novas, com jovens ligados às artes, ao cinema, à dança ou à literatura a porem em causa expressões rígidas, formando bandas mesmo sem grande aprendizagem técnica.

Na companhia de Martin Rev, produziu a banda-sonora da paranóia, juntando os fantasmas do rock e de Elvis Presley a um gigantesco rolo compressor marcado pela fúria mas também pelo romance. Em 2002, em entrevista ao PÚBLICO, Alan Vega assumia que havia crescido a ouvir e a gostar da música dos anos 1960. "Não conseguia ir à escola se tinha em casa um disco de Elvis Presley para ouvir. E Roy Orbison foi a maior voz de todos os tempos, canta como um anjo, um anjo de Deus."

Os Suicide foram também dos primeiros projectos a descrever a sua música como punk. Quem os viu em concerto ao longo dos anos percebe do que falavam. Em palco, Alan Vega vestia a pele de provocador. Era comum nos seus espectáculos interpelar directamente a assistência, desafiando-a, como se a agressão pudesse ser a derradeira prova de contacto humano. Muitas vezes o público não se ficava e o conflito irrompia mesmo.

Ele era dessa estirpe de performers. Alguém que, a todo o momento, tentava estreitar a relação com o público, fosse para o abanar, ou para ser abraçado por ele. Olhando retrospectivamente, não deixa de ser incrível constatar a influência do duo sobre parte da música actual.

De Nick Cave aos Joy Division, dos Depeche Mode aos Nine Inch Nails, dos Daft Punk aos LCD Soundsystem, de M.I.A. a Peaches, de Perfume Genius às Savages, é notável a quantidade de grupos que a sua música foi capaz de influenciar. A sua obra começou a desenhar-se em 1977 com um álbum homónimo que é hoje uma referência da música electrónica e desenvolveu-se de forma esparsa ao longo de três décadas.

A notícia da morte de Vega foi dada por Henry Rollins, músico, artista e compositor que também aponta os Suicide como uma influência. Foi ele que escreveu no seu site que o vocalista – nascido como Boruch Alan Bermowitz a 23 de Junho de 1938 – “morreu tranquilamente durante o sono”. Vega estava longe dos palcos desde que sofreu, em 2012, um acidente vascular cerebral. Além do trabalho com os Suicide – o último álbum de originais é American Supreme, de 2002 –, deixa também uma longa discografia a solo e trabalhos de pintura e escultura.

“O Alan não foi só inexoravelmente criativo, compondo e pintando até ao fim, ele era também surpreendentemente único”, escreve Henry Rollins, sublinhando a “música incrível e inclassificável” que produziu com Martin Rev nos Suicide. “As performances de confronto ao vivo, a anos-luz antes do punk rock, são matéria de lenda.” “Alan Vega era o artista quintessencial em todos os níveis imagináveis. Dedicou toda a vida a expressar o que sua visão lhe impunha”, elogia ainda Rollins, numa nota que começa por qualificar Vega como um “grande artista”, uma “força criativa”, e termina com um elogio à sua entrega total à arte.

Alan Vega e os Suicide cresceram para a música numa altura em que os conceitos do “faça-você-mesmo” do punk vingavam, mas havia na sua acção também uma atitude teatralizada e artística, o que não surpreende tendo Vega começado no mundo das artes, ganhando notoriedade pelas suas esculturas de luz. A aproximação à matéria musical da dupla era simples: Rev criava uma onda electrónica minimalista, hipnótica e dissonante com os sintetizadores, enquanto Vega cantava por cima num registo meio rockabilly, com temas como Cheree, Dream baby dream, Ghost rider, Rocket U.S.A. ou Frankie teartrop a tornarem-se icónicos. Apesar da sua enorme influência, nunca obtiveram grandes resultados comerciais, a que não deverá ser alheio o facto de ao longo dos anos terem acabado e recomeçado inúmeras vezes.

Por isso mesmo Alan Vega viria a lançar vários álbuns a solo, destacando-se o seu álbum homónimo de 1980 e Saturn Strip, de 1983. A estreia em Portugal do duo deu-se em 1988, com concertos no Convento do Carmo, em Lisboa, e no Rivoli do Porto. Em 2004 viriam a actuar no Paradise Garage, em Lisboa. Em entrevista ao PÚBLICO, dois anos antes, aquando do lançamento de American Supreme, Alan Vega, dizia: "Suicide não era sobre o nosso suicídio, mas sobre o suicídio do mundo. Passados 30 anos podemos dizer: Vêem, não estávamos a pensar em suicidar-nos! Estávamos a falar do suicídio do mundo'. Quer dizer, do Ocidente, o suicídio mais longo de todos os tempos."

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