Povo fragiliza golpe militar na Turquia

Presidente Erdogan apelou a manifestações contra o ocupação militar das ruas. A Turquia, que tem o segundo maior exército da NATO, é um aliado central da UE e dos EUA.

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Praça Taksim, em Istambul Murad Sezer/Reuters
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Civis ao lado dos militares no aeroporto Ataturk, em Istambul ALDEMIR/Reuters
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Militares ocupam a ponte sobre o Bósforo, em Istambul Reuters
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Homem enfrenta os tanques no aeroporto Ataturk, em Istambul Reuters
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As forças militares abriram fogo sobre civis na ponte sobre o Bósforo, em Istambul Bulent KILIC/AFP
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Os apoiantes de Erdogan saíram à rua em Ancara com bandeiras da Turquia Chris McGrath/Getty Images/AFP
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Agentes da polícia nas imediações do quartel de Ancara Tumay Berkin/Reuters
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MIlitar a controlar ponte em Istambul Yasin AKGUL/AFP
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Erdogan fala à imprensa em Marmaris, onde passava férias Kenan Gurbuz/Reuetrs

A zona do palácio presidencial em Ancara foi bombardeada e cercada com tanques, no decorrer de uma tentativa de golpe de Estado na Turquia. As Forças Armadas turcas anunciaram ter assumido o controlo do Governo e informaram que o país tinha passado a ser governado pelo Conselho da Paz, que iria garantir a liberdade e segurança dos cidadãos. Para tal, impuseram a lei marcial e decretar um recolher obrigatório. Mas o apoio popular ao Governo e as manifestações de solidariedade dos líderes mundiais fragilizaram a acção dos militares.

Ao início da madrugada de sábado, o Governo turco disse ter a tentativa de golpe "amplamente controlada", embora continuassem muitos militares nas ruas. As informações contraditórias e incompletas sucederam-se ao longo das horas, mas a televisão estatal turca, ocupada pelos golpistas, foi abandonada pelos militares após os serviços secretos turcos terem dado a intentona como falhada. Perto das 2h (hora de Lisboa), houve um tiroteio na Praça Taksim, em Istambul. Estima-se que existam vários feridos e há relatos, ainda por confirmar, de 17 vítimas mortais – agentes da polícia. Em Ancara, uma bomba atingiu o Parlamento, sem causar estragos de maior, de acordo com a agência Anadolu.

O Presidente Recep Tayyip Erdogan, que está fora da capital em férias, apareceu em directo numa emissão da CNN Turk, através do telemóvel, para denunciar a tentativa de golpe que atribuiu a "um grupo minoritário". Erdogan chamou-lhe "um Estado paralelo", que é a designação que costuma utilizar para se referir aos partidários do imã Fetullah Güllen, o seu arqui-inimigo e inspirador de um movimento social e político, e que o Presidente acusou de estar por trás desta acção militar.

"Não lhes podemos ceder terreno", clamou, apelando à população para que se concentre nas praças e nos aeroportos com o objectivo "de pôr fim à ocupação". Erdogan não confirmou nem desmentiu os relatos que davam conta da tomada como refém do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Hulusi Akar. Disse que há uma "atmosfera obscura a poluir as informações".

Numa declaração à estação de televisão NTV, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, tinha já confirmado a tentativa de golpe de Estado, que atribuiu a grupos do Exército, a "comportar-se de uma forma irresponsável". O primeiro-ministro, próximo de Erdogan, disse que estes militares estarão a agir sem ordens superiores e sem respeitar a cadeia de comando. "A Turquia não permitirá qualquer iniciativa que interrompa a democracia", garantiu.

Binali Yildirim apelou aos cidadãos para que saiam à rua "para defender a democracia". No entanto, as ruas turcas estão a ser ocupadas por tanques de guerra e outros veículos militares nas mãos dos golpistas.

Pelo menos dois mísseis foram disparados contra a televisão estatal (TRT) onde antes tinham estado soldados, que saíram de dois autocarros. Pouco depois, a declaração dos militares revoltosos foi lida na televisão pública.

A Turquia tem o segundo maior exército da NATO, a seguir aos Estados Unidos, e a base militar de Incirlik, junto à fronteira com a Síria, que está a ser utilizada pelos drones e aviões da Força Aérea dos EUA na campanha contra o Estado Islâmico embora o maior inimigo escolhido por Ancara sejam os curdos, por receio de ver o Curdistão turco tornar-se independente, como aconteceu na Síria. Por força do conflito sírio, a Turquia recebe mais de 2,5 milhões de refugiados, e tem um acordo com a União Europeia para manter no seu território os que tentam chegar às fronteiras da UE. Tem sido alvo de uma série de atentados, que põem em causa a estabilidade do país.

Uma fonte da União Europeia, citada pela Reuters, parece dar o goipe como bem sucedido. "Dá a ideia de que se trata de uma operação bem orquestrada, que conta com um apoio substancial de militares e não apenas de alguns coronéis. Dada a escala da operação, que já controla vários pontos estratégicos da cidade de Istambul, é difícil imaginar que os revoltosos não vão prevalecer."

"Manter o Estado de direito"

As duas pontes sobre o Bósforo, em Istambul, foram cortadas pelos militares e há relatos de tiroteios e de helicópteros e jactos a sobrevoar a capital, Ancara, a baixa altitude. Tanques e outros veículos militares cercaram o aeroporto internacional de Istambul e todos as partidas de voos foram canceladas, diz a Reuters, citando um piloto no local. O acesso ao Facebook, Twitter e Youtube começou a ser limitado.

Numa declaração enviada para todos os canais de televisão turcos por e-mail, os militares golpistas disseram que a sua prioridade é manter o Estado de direito e preservar todas as relações internacionais do país. "As Forças Armadas turcas assumiram completamente o controlo do Governo para se instalar a ordem constitucional, as liberdades e direitos humanos, o Estado de direito e a segurança que tinham sido postas em causa. Todos os nossos acordos internacionais mantêm-se válidos. Esperamos que todas as nossas relações com todos os países continuem."

A agência noticiosa Dogan avançou que a direcção nacional de polícia chamou todos os agentes para que se apresentem ao serviço em Ancara. Há relatos de tiroteio junto ao quartel-general da polícia em Istambul e, segundo a CNN Turk, houve explosões no centro de treino das forças especiais da polícia em Ancara.

Na praça Taksim, em Istambul, há uma situação caótica, com carros a apitar e a circular em contramão, polícia e militares próximos do confronto, e pessoas a juntarem-se com bandeiras turcas.

O Departamento de Estado norte-americano emitiu um alerta, recomendando que todos os cidadãos nacionais na Turquia se mantenham em casa e entrem em contacto com familiares, se possível. “Não tenho quaisquer pormenores neste momento”, afirmou entretanto o secretário de Estado norte-americano, John Kerry. “Espero que haja estabilidade e paz e continuidade na Turquia. Mas não tenho nada a acrescentar no que diz respeito ao que se veicula até agora”. A Casa Branca fez saber que o Presidente dos EUA, Barack Obama, também está acompanhar os desenvolvimentos na Turquia. Horas mais tarde, divulgou um telefonema entre Obama e Kerry em que ambos concordavam no apoio ao Governo turco, eleito democraticamente.

Pelo seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, disse que é importante que se consiga "evitar um banho de sangue" na Turquia, aconselhando os golpistas e o Governo a resolver a questão pela via constitucional.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, exprimiu no Twitter a sua "profunda preocupação com a crise na Turquia. A estabilidade, democracia e segurança do povo turco são fundamentais. A unidade e a prudência são imperativas". O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, acrescentou por seu lado que a Rússia olha para estes acontecimentos com muito apreensão.

O novo ministro britânico dos Negócios Estrangeiros também recorreu ao Twitter para demonstrar a sua preocupação. “Estou muito preocupado com os acontecimentos na Turquia. A nossa embaixada está a monitorizar de perto a situação”, escreveu Boris Johnson. O porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, falou no mesmo sentido: "A ordem democrática deve respeitada na Turquia. Tudo deve ser feito para proteger vidas."

Com a chegada ao poder de Recep Tayyip Erdogan e do seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), em 2002, iniciou-se um braço de ferro com os militares, que foram perdendo autoridade na vida civil. Depois de vários incidentes, que levaram à detenção das mais altas patentes militares, o Presidente logrou esvaziar a tensão e encontrou uma forma de conviver pacificamente com o exército.