Ocupar um espaço abandonado pode dar lugar à arte em Vendas Novas

Um espaço abandonado pode ter um uso artístico, assim o defende a plataforma Ocupação. De 8 a 9 de Julho, um antigo mercado municipal, em Vendas Novas, acolhe performances, uma feira e conversas informais.

O local escolhido para ocupar é um antigo mercado municipal.
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O local escolhido para ocupar é um antigo mercado municipal. DR

“O espectáculo chama-se Apanhados das Estrelas e surgiu numa noite com muitas estrelas”, assegura Gonçalo Pereira Valves. Por estes dias, Gonçalo está em residência artística num mercado municipal devoluto, em Vendas Novas, no Alentejo. “O trabalho que vou apresentar tem tudo a ver com o mote da Ocupação#2: Lugares quase impossíveis. A ideia é criar um lugar ideal num espaço físico. Para isso, peguei em pessoas e frases famosas e comecei a pensar nesse lugar”, revela.

Para Rodrigo Pereira, organizador da Ocupação, a ideia geral da plataforma é “pensar no espaço e torná-lo num lugar”. Tudo surgiu no ano de 2015 quando, juntamente com André Pereira, seu primo, Rodrigo teve a ideia de fazer uma actividade artística, “algo tão básico como fazer uma exposição”. Ambos de Fátima, estrearam a Ocupação num antigo palacete abandonado nesta cidade com 11 quartos, no dia 8 de Agosto de 2015. Após atestarem que o local era seguro, receberam 70 artistas, alguns em associação, e 700 visitantes.

“As pessoas têm de se relacionar com o espaço”. Este é o pressuposto para os artistas e visitantes da Ocupação. Rodrigo explica que tirando as artes performativas, que dividem o espaço entre si, os artistas vão criando um lugar próprio e reflectido. “O proposto é colocar os objectos de uma perspectiva pensada”, afirma Rodrigo.

“As pessoas têm de se relacionar com o espaço”. Este é o pressuposto para os artistas e visitantes da Ocupação. Rodrigo explica que tirando as artes performativas, que dividem o espaço entre si, os artistas vão criando um lugar próprio e reflectido. “O proposto é colocar os objectos de uma perspectiva pensada”, afirma Rodrigo.

À terceira ocuparam um nova cidade

No início de 2016, a plataforma passou a chamar-se Ocupação – Associação Cultural. Em Junho, rumou para uma nova localidade, Vendas Novas, onde se iniciariam um conjunto de residências artísticas de duas semanas. A oportunidade de Ocupação se instalar pela primeira vez fora de Fátima, após duas iniciativas, surgiu porque Rodrigo Pereira conheceu o fundador do Teatro das Artes, Rui Pedro Dias, enquanto estudava na Escola Superior de Teatro e Cinema.

“Eu e o Rodrigo temos a mesma visão” sobre a arte, começa por apontar Rui Pedro Dias. Foi então que o “Teatro das Artes e o município de Vendas Novas decidiram fazer o convite” para a intervenção da Ocupação, conta Rui Pedro Dias. O local escolhido foi o mercado municipal devoluto, mas este não será o único espaço a ser usado em Vendas Novas. “A Ocupação vai ocupar outros espaços devolutos, como lojas de roupa abandonadas, o chafariz real, cafés e o jardim municipal”, informa Rui Pedro Dias. “O objectivo é criar um centro gravitacional onde as pessoas possam pensar em conjunto”, resume o fundador do Teatro das Artes.

Para Rodrigo Pereira, há um objectivo a cumprir em Vendas Novas: “Dialogar com a cidade”. “A ideia é criar uma itinerância e ocupar um espaço que passe a ser colectivo”, reforça. Outro dos objectivos é ligar o Teatro das Artes ao MAL (Música ao Largo), festival de música local, que decorre este sábado. Como? Rodrigo Pereira apenas pode afirmar: “Vamos ocupar o último concerto”.

A programação destas intervenções, diz Rodrigo Pereira, pretende abrir espaço à reflexão sobre a arte, na sua dimensão política e cultural. Para isso, haverá conversas informais. Nesta sexta-feira, a primeira conversa intitula-se Ocupações quase impossíveis e terá a presença de Camilo Mortágua. Segue-se Pedro Coquenão (Batida), que falará sobre Angola vs Liberdade — Portugal em Silêncio. No sábado, o dia é preenchido por Ana Candeias com Educação Alternativa, Alfredo Cunhal com Ecologias e as outras Sustentabilidades, Teresa Carvalheira, Ana Teresa Neves e Mariana Rodrigues com Consumir vestuário sustentável em Portugal, João Ribeiro Fonseca e Carolina Ubach Pereira em Intervenções no Espaço Urbano e Filipe Matta em Ocupação.

Os resultados das residências artísticas também serão levados a público nesta sexta-feira com Se não levantarmos voo, pelo menos nadámos, de Ekateryna Kuzubova e Apanhados das Estrelas com o colectivo Zero Kills. É neste colectivo que entra Gonçalo Pereira Valves juntamente com Gisela Maria Matos. Gonçalo ainda não sabe o lugar que vai ocupar, talvez o mercado municipal ou talvez uma loja abandonada ao virar de uma esquina. “A partir de um certo momento, tudo muda. Há uma fase de organização, depois cria-se um sentido, para no final o objectivo ser a comunicação”, esclarece Gonçalo sobre as fases da residência artística. Esta é já a segunda vez que trabalha em site specific, sendo que a primeira vez o fez com o Colectivo de Criação Artística - Estufa Plataforma Cultural.

No sábado serão apresentadas de novo as duas performances em residência, assim como O meu coração não reconhece a palavra desconstrução, de Sofia Abreu, Tempo Concreto, de Angelina Nogueira e Recreio/ A recreational exercise ou Already made #3524, de Mariana Vieira, Luis Odriozola, Beatrice Cordier e Ana Paula Cidón.

Paralelamente à apresentação das performances, há uma mostra permanente com trabalhos de France Lellos e Meggie Prata, Tomás Tojo e Cláudia Lancaster e de Frederico Gonçalves, assim como uma feira com editoras independentes, como a Antígona ou o Orfeu Negro. Na programação também se destacam as oficinas, como a Crias, uma oficina de cinema para crianças, o laboratório de experimentação gráfica, com David Campos, ou a oficina de performance com Sofia Abreu.

Quando deixar Vendas Novas, a Ocupação vai ter de procurar um novo espaço. Por enquanto, Rodrigo Pereira revela que o próximo passo será o lançamento de uma campanha de crowdfunding para adquirir uma carrinha e um kit de ocupação, para que as acções se tornem mais regulares. “Ao contrário da maioria de campanhas de crowdfunding, teremos recompensas que são objectos originais e criados por artistas amigos da Ocupação, entre outros objectos e serviços criativos”, faz questão de salientar Rodrigo Pereira.

Texto editado por Ana Fernandes