Catarina Martins fala do "falhanço" da União Europeia: “Tem de haver outra Europa”

Para o BE, tratados europeus estão "caducos" e este é “o momento” para se “construir uma alternativa”. Até porque “a direita na Europa falhou, falhou estrondosamente”.

Catarina Martins na comício do Bloco, que arrancou esta sexta-feira
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Catarina Martins na comício do Bloco, que arrancou esta sexta-feira Miguel Manso

A pergunta a propósito do "Brexit" era inevitável, mas a porta-voz do Bloco de Esquerda Catarina Martins contornou-a. À chegada ao comício que decorre nesta sexta-feira em Lisboa, a deputada foi questionada sobre se também defende um referendo em Portugal, tal como o que aconteceu no Reino Unido. Na resposta, disse que o BE não tem “nenhum optimismo em relação à União Europeia”, mas não deixará “de ter optimismo em relação à Europa, ao nosso país, à capacidade que há sempre de construir alternativas”.

Antes tinha, porém, como é convicção no BE, tecido duras críticas ao estado do projecto europeu, afirmando que os tratados europeus “não servem”, que o que fizeram “ao longo do tempo” foi transformar “uma crise financeira numa crise económica, retirar possibilidades de democracia aos povos”. Apontou o dedo à Comissão Europeia que foi concentrando “mais e mais poderes” e impondo austeridade. Estes tratados, defendeu mesmo, “dificilmente são reformuláveis, estão caducos, não servem, mostram que não respondem e só servem para criar mais e mais problemas na União Europeia”. Isto é, continuou, “não é reformável aquilo que é feito contra a democracia”. E, para o BE, este é “mesmo o momento” de se enfrentar “o facto de esta ser a falência da União Europeia e de nos termos de preparar e construir uma alternativa”. Para Catarina Martins, o resultado do referendo no Reino Unido confirmou “o que o BE tem vindo a dizer” sobre a União Europeia.

“Os responsáveis da União Europeia hoje deixam morrer milhares de pessoas refugiadas porque não lhes dão resposta, constroem muros, têm sido incapazes da mais básica solidariedade”, disse, insistindo várias vezes, nas declarações que fez antes do comício aos jornalistas, que é preciso reconhecer “o falhanço da União Europeia e que os tratados e as instituições estão caducas”: “Tem de haver outra Europa.” Para a porta-voz, “o que é preciso é lutar pela soberania democrática, ou seja, as pessoas poderem fazer escolhas nos seus países e escolhas sobre o rumo europeu”.

Catarina Martins não perdeu ainda a oportunidade para apontar o dedo à direita: “A direita na Europa falhou, falhou estrondosamente”. A ideia “da governação económica a sobrepor-se à democracia dos povos falhou”, disse.

Questionada sobre se concorda com o primeiro-ministro António Costa, que considerou este um dia triste para a Europa, a porta-voz lembrou que a Europa “tem vivido muitos dias tristes”, referindo-se, por exemplo, à “chantagem sobre a Grécia” e à crise dos refugiados. “O que a Europa tem mais tido são dias tristes.”

Catarina Martins defendeu que é preciso “pensar uma outra Europa”, não de Estados “isolados”, nem de nacionalismos, nem de xenofobias, “mas uma Europa em que Estados iguais possam cooperar entre si e não em que uns Estados mandam noutros”. A porta-voz, que pretende discutir o tema com o Governo, deixa um alerta: “Começa agora um tempo de uma responsabilidade política dura, de uma necessidade de diálogo certamente difícil, mas ou há coragem na Europa de admitir a falência das instituições e dos tratados e a necessidade de repensar a forma como cooperamos o espaço europeu ou veremos certamente problemas a crescerem todos os dias, com perigos terríveis como a xenofobia ou o ódio.”

O bloquista Luís Fazenda abriu o comício, apelando a uma união dos partidos de esquerda que possa ser “transformadora” para a Europa. Nesta noite, pavilhão do Casal Vistoso, estão vários rostos do Bloco como a eurodeputada Marisa Matias, Fernando Rosas, entre outros.