O CDA não foi um think tank, nem um partido, mas mudou a política

Na semana em que o Congresso Democrático das Alternativas, fundado em 2012, decidiu "pôr termo formal às suas actividades", falámos com um dos seus fundadores, o economista Ricardo Paes Mamede, sobre a influência desta organização no entendimento à esquerda.

Foto
Ricardo Paes Mamede, um dos fundadores do Congresso Democrático das Alternativas Rui Gaudêncio

Começando pelo fim: Há uma "leitura política", lisonjeira para a "geringonça" liderada por António Costa,  que justifica o encerramento do Congresso Democrático das Alternativas (CDA), decidido no dia 16 de junho. "Se houvesse a percepção que a geringonça era efectivamente uma geringonça nos termos em que a direita a classificou, como algo que se pode desfazer a qualquer momento, provavelmente o CDA iria continuar." Ao contrário, como diz Ricardo Paes Mamede, é a visível "estabilidade" do Governo que torna plausível que agora se decrete o fim de uma organização que, de alguma forma, tornou possível um entendimento inédito entre partidos desavindos.

O Congresso Democrático das Alternativas acaba, precisamente por isso. Um dos seus propósitos - " criar espaços de encontro entre as várias esquerdas" - está feito. "Os partidos fazem-no todos os dias. Todos os dias falam e constroem soluções." E entre os que o fazem estão alguns dos mais influentes participantes no CDA.

Desde a sua fundação, em 5 de Outubro de 2012, o CDA foi dinamizado por "dirigentes socialistas, militantes comunistas e bloquistas, dirigentes do Livre e muitas pessoas sem partido". "Estas pessoas, antes do CDA, não tinham muito hábito de falarem umas com as outras", prossegue Paes Mamede. É por isso que o Congresso faz parte da genealogia da actual maioria de esquerda, porque criou o "contexto para as aproximações que foram possíveis" entre o PS, o PCP e o BE. "A tendência para se funcionar numa lógica de tribo, de clube, de as pessoas não estarem habituadas a pôr-se no lugar das outras, é muitas vezes um bloqueio fundamental para processos de entendimento."

Muito mudou, em quatro anos. Quando o CDA foi criado, Portugal estava no "auge do processo de ajustamento". Vítor Gaspar era ministro das Finanças de Pedro Passos Coelho. António José Seguro era líder do PS e Francisco Louçã coordenava o BE.

Terá sido há precisamente quatro anos, no início do Verão, que a ideia surgiu, sugerida por Miguel Portas, "que tinha por hábito ser o criativo destas coisas". "Terá sido ele a defender que se convocasse uma assembleia cidadã, que envolvesse pessoas dos vários partidos, numa lógica de construção de convergências à esquerda", conta Mamede.

Por isso, os primeiros organizadores do CDA não vinham das direcções partidárias. Eram um grupo pequeno, e diverso: os economistas Ricardo Paes Mamede e José Maria Castro Caldas, os ex-dirigentes comunistas Henrique Sousa e Domingos Lopes, o ex-líder da CGTP Manuel Carvalho da Silva, o dirigente da Associação 25 de Abril Vasco Lourenço, e dois amigos de Miguel Portas no BE, Daniel Oliveira e João Semedo.

O Governo deu uma ajuda... Anunciou um aumento da TSU para os trabalhadores (e uma descida para as empresas), o que levou, no dia 15 de Setembro de 2012, centenas de milhar de portugueses para as ruas, numa das maiores manifestações de sempre em Portugal. "A manifestação de 15 de Setembro, em si, não tinha associado nada de orgânico. As pessoas podem ter olhado para o CDA como algo que corporizava aquele tipo de sentimento e de necessidade de procura de alternativas. A partir daí multiplicaram-se as adesões e aumentou o envio de textos para debate", recorda Paes Mamede.

Aulas magnas

No dia 5 de Outubro, a Aula Magna encheu-se com 1700 pessoas. Em cima da mesa estavam alguns dos temas que dividiam (e ainda dividem) a esquerda: O que fazer à dívida? Que Estado Social? Deve a esquerda ser eurocéptica ou europeísta? Mas o debate não foi etéreo, longe disso. "Foi um trabalho muito prático, com grupos específicos para áreas específicas."

E isso teve resultados: "Obrigou as pessoas a serem confrontadas com questões concretas. Não há nada mais disciplinador do que a realidade." Com alguma diplomacia, a organização só afastou liminarmente a hipótese de se constituir em partido.

Hoje, apesar de considerar cumpridos alguns dos objectivos iniciais, Ricardo Paes Mamede considera "importante" que alguém continue "a desempenhar alguns dos papéis que o CDA teve neste processo". Em particular,  "há um trabalho programático que tem ser feito num horizonte mais longo, sem olhar a tacticismos", nas áreas "em que os partidos da geringonça tenham mais dificuldades em criar entendimentos".

Mas não será o CDA a fazê-lo. Nem como think tank, uma hipótese que parecia possível, uma vez que deixa como legado alguns trabalhos de fôlego (livros sobre Estado Social, documentos programáticos). Ricardo Paes Mamede considera que para criar um think tank, a esquerda precisaria de duas coisas que não abundam: pessoas e dinheiro.

"Continua a não haver assim tanta gente qualificada para trabalhar em áreas de tecnicidade elevada, como são as políticas públicas. Não conheço em lado nenhum do mundo think tanks que funcionem sem pessoas a tempo inteiro", diz. "Se pensarmos em Portugal o único think tank verdadeiro que existe é a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que tem recursos infinitos, porque uma das famílias mais ricas do país resolveu investir naquela área. Precisávamos de ter uma família muito rica de esquerda que estivesse disponível para fazer esse tipo de investimento..."