Antigo pólo industrial em Lisboa dá lugar a "uma das maiores incubadoras da Europa"

"Até ao final do ano", o presidente da Câmara de Lisboa quer ter concluído o plano que definirá os usos da Ala Sul da Manutenção Militar, que foi cedida pelo Estado por 50 anos. Medina garante que o património industrial será totalmente preservado.

“Este projecto vai permitir a revitalização e a regeneração da zona entre Santa Apolónia e o Braço de Prata”, acredita Fernando Medina
“Este projecto vai permitir a revitalização e a regeneração da zona entre Santa Apolónia e o Braço de Prata”, acredita Fernando Medina Rui Gaudêncio
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É grande a ambição da Câmara de Lisboa para a Ala Sul da Manutenção Militar, no Beato: nos mais de 30 mil m2 deste antigo núcleo industrial, Fernando Medina quer criar “uma das maiores incubadoras de empresas da Europa”, na qual poderão vir a trabalhar qualquer coisa como três mil pessoas. O autarca não arrisca dizer quando começará a funcionar esta “polaridade de desenvolvimento das indústrias do século XXI” mas adianta que o plano que ditará o uso de cada um dos seus espaços estará concluído “até ao final do ano”.

As linhas mestras do “novo Hub Criativo de Lisboa” foram apresentadas esta sexta-feira, numa cerimónia que se realizou na Manutenção Militar e que incluiu a assinatura do auto de cedência do imóvel, que é propriedade do Estado, ao município. Nesta iniciativa participaram Fernando Medina e o primeiro-ministro, António Costa, que depois desse acto formal e dos discursos visitaram demoradamente o local, acompanhados por uma extensa comitiva.

Para o presidente da câmara, foi agora dado “um passo da maior importância na construção do futuro da cidade de Lisboa e em particular no desenvolvimento da zona oriental”. “Este projecto vai permitir a revitalização e a regeneração da zona entre Santa Apolónia e o Braço de Prata”, continuou, frisando que esta era até aqui “a única” área da frente ribeirinha “que não se encontrava devidamente consolidada e regenerada”.

Fernando Medina considerou que está em causa “um dos esforços mais ambiciosos desde o tempo da Expo” e lembrou a todos os presentes que este “não é um projecto isolado”. A construção de habitações com renda acessível no Vale de Santo António e a recuperação do Vale de Chelas foram outras das iniciativas mencionadas pelo autarca.

Ao PÚBLICO, Fernando Medina lembrou que relativamente ao Vale de Chelas a ideia passa por criar “um enorme corredor verde” que faça a ligação à Belavista, com passagem pelo Parque do Vale da Montanha, já em construção. O autarca disse ainda que está “a trabalhar com o Exército” para que o município possa tornar-se proprietário do Convento de Chelas, que está hoje ocupado pelo Arquivo Geral do Exército.

Também o primeiro-ministro sublinhou a importância deste “novo pólo de criatividade, de inovação, de empreendedorismo” para uma zona que classificou como “uma das mais apaixonantes da cidade de Lisboa”. “Desde 1998 que se aguarda a conclusão do caminho do oriente”, disse, considerando que esta é a “oportunidade” para que “a Expo não seja uma excentricidade” e se crie finalmente “um contínuo urbano que a coloque no centro da cidade”. 

“Não estamos a falar de uns centímetros quadrados, estamos a falar de uns milhares de metros quadrados de construção”, notou ainda o antecessor de Fernando Medina na presidência da Câmara de Lisboa. A sua expectativa é que daqui a meia década quem visitar a Manutenção Militar e vir fotografias tiradas agora se pergunte “como foi possível em cinco anos dar a volta a este espaço”. 

Aos mais preocupados com as finanças públicas, António Costa frisou que a câmara vai pagar sete milhões de euros para ficar com este imóvel durante 50 anos. “Não há encontros às nove da manhã à borla”, disse com humor, referindo-se à hora para a qual estava marcada a cerimónia desta sexta-feira.

Nela esteve também presente o presidente da Junta de Freguesia do Beato, que em declarações ao PÚBLICO destacou a “enorme” importância deste projecto. Hugo Xambre acredita que a reboque dele se irá iniciar um movimento de reabilitação do património privado da zona e também do espaço público.

O autarca socialista não deixou no entanto de se manifestar preocupado com o impacto que este novo hub criativo terá “a nível do trânsito”. Hugo Xambre sublinhou ainda a necessidade de se garantir que “a população” da freguesia conquiste com este processo “uma melhor qualidade de vida”.

“Até ao final do ano”, Fernando Medina quer ter concluído “o masterplan” que incluirá, “para cada um dos espaços” da Ala Sul da Manutenção Militar, “a definição do uso”. Segundo adiantou, haverá zonas para incubadoras, residências para artistas, espaços de restauração e serviços de apoio ao desenvolvimento da zona, entre outras valências. Além de empresas nacionais e internacionais, o autarca ambiciona atrair para aqui “multinacionais de sistemas de informação”. 

A gestão deste novo “pólo de inovação, de emprego, das artes” ficará a cargo da Startup Lisboa, uma incubadora de empresas fundada pelo município. A ideia, explicou Fernando Medina, é que o município assuma os custos com “o desenvolvimento das infra-estruturas gerais”, cabendo depois às diferentes entidades assumir a reabilitação dos espaços que lhes forem entregues por concurso.

O autarca socialista sublinha que tudo isto será feito de uma forma que garanta “a preservação total” daquele que é “um dos mais importantes núcleos de arquitectura industrial do país e o maior de Lisboa”. “Isso é que é a alma do edifício. Tem um valor incalculável na identidade do espaço”, afirmou ao PÚBLICO, notando a curiosidade de se ir apostar no desenvolvimento de “indústrias do século XXI” num antigo espaço industrial do século XIX, no qual funcionaram por exemplo uma fábrica de bolachas e uma de massas.