Opinião

O referendo no Reino Unido e o seu impacto na realidade política europeia

Um acontecimento tão traumático como seria a saída do Reino Unido poderá ter o efeito de libertar energias até agora aprisionadas.

1. Não há mal nenhum em assumir uma posição descaradamente céptica em relação ao projecto europeu. Também não há nenhum bem intrínseco à mera explanação de tal posicionamento. O que é negativo e censurável é o comportamento daqueles que, preconizando em tese a adesão ao ideal europeísta tal como este se vem materializando desde 1958 até hoje, não perdem uma oportunidade para condescender com os violentos ataques de que a União Europeia se tornou alvo nos últimos tempos. Julgam talvez seguir os sentimentos de uma opinião pública naturalmente perturbada com as contradições próprias da era em que vivemos. Em todo o caso, revelam-se imprestáveis quer para a afirmação pública de um qualquer projecto quer para a promoção do debate democrático que as presentes circunstâncias reclamam.

É hoje mais ou menos claro que a extrema-direita e a extrema-esquerda estão empenhadas em aproveitar o actual desassossego identitário do projecto europeu para o anular definitivamente. A extrema-direita fá-lo em nome de um velho nacionalismo de carácter excludente, inevitavelmente xenófobo e profundamente desconfiado de tudo quanto exale o mais leve odor cosmopolita, internacionalista ou intercultural. A extrema-esquerda permanece fiel à sua velha retórica assente na identificação do projecto europeu com o triunfo do capitalismo, objectivado nos conceitos de mercado único e de livre concorrência. Uns e outros repercutem agora o que continuamente proclamaram nas últimas décadas. Se há crítica que lhes não pode ser assacada é a de cultivarem a incoerência. Pelo contrário, têm privilegiado o caminho da repetição exaustiva dos dogmas que alimentam a sua intervenção política. O que revela, de resto, que não sendo em si mesma um defeito, a coerência está também longe de constituir em si mesma uma virtude.

O que há hoje de novo é uma predisposição algo insólita de alguns sectores tradicionalmente pró-europeístas para uma aquiescência pueril para com um discurso anti-europeu de efeito relativamente fácil. Isso nota-se nalgum centro-direita disposto a aderir às arcaicas reservas soberanistas dos propagandistas do Estado-Nação e nalguma esquerda democrática recém-inebriada com um certo radicalismo folclórico e vagamente juvenil. Os próximos tempos vão confrontar estes sectores com a necessidade de explicitação clara das suas posições de fundo. Na verdade, o referendo que dentro de dias se vai realizar no Reino Unido, independentemente do resultado que dele saia, obrigará a uma alteração significativa da realidade política europeia. Um pouco por todo o lado surgem textos, reflexões e comentários preconizando um conjunto alargado de alterações a levar a cabo. Uma coisa é certa: finalmente parece ter-se percebido que perante as actuais debilidades do Ocidente, a União Europeia não pode permanecer paralisada, alheia a tudo quanto muda à sua volta e incapaz de responder às múltiplas exigências que emergem no seu interior. Daí que se fale hoje mais abertamente da possibilidade de consolidar um núcleo duro europeu - coincidente ou não com o conjunto dos países integrantes da zona euro - capaz de avançar de modo resoluto no sentido do reforço da sua integração política, económica e social. Há mesmo quem afirme que um hipotético triunfo do Brexit poderá favorecer o sucesso das teses federalistas numa parte significativa da Europa Continental. Admitindo que as coisas não venham a ser assim tão simples - e muito menos assim tão automáticas - haverá que reconhecer que um acontecimento tão traumático como seria a saída do Reino Unido poderá ter o efeito de libertar energias até agora aprisionadas. Quer na França, quer na Alemanha, têm surgido importantes vozes políticas, do centro-esquerda e do centro-direita, a propor a criação de uma espécie de vanguarda europeia inspirada no modelo federalista. Tal proposta pode parecer paradoxal, mas o simples facto de a sua possibilidade ser enunciada constitui já uma novidade de monta face a um passado recente excessivamente marcado por um calculismo medroso e pouco fecundo.

2. Pelo facto de ter intervindo a favor do projecto europeu no congresso do Partido Socialista fui imediatamente acusado de cultivar uma espécie de europeísmo acrítico. A acusação carece do mais elementar fundamento, tendo em consideração tudo quanto tenho dito e escrito nos últimos anos e constitui uma supletiva demonstração da arrogância momentânea de uma certa esquerda que se pretende zeladora dos bons hábitos, dos bons costumes e das boas palavras na família política em que se integra.

3. Alfredo Barroso, num artigo em que revela em todo o esplendor a sua miséria filosófica e a sua mediania estilística, resolveu atacar-me imputando-me parte considerável da responsabilidade por uma suposta descaracterização ideológica do Partido Socialista. O texto é tão mau, a argumentação de tal modo indigente, a tese de tal maneira descabida que não me darei ao trabalho de redarguir. Limito-me a constatar a mediocridade das ideias e a excessiva leveza de uma personalidade eternamente adolescente.