Sebastião Almeida
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Sebastião Almeida

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Delhi: aqui tudo é simultaneamente frenético e lento

A Índia é o reverso da Europa e é por isso que é imperativo visitá-la. Se na Europa essencialmente laica, a fragilidade da democracia perante o poder do capital nos conduz a uma reinvenção da nossa existência, na Índia o peso da religião conduz a uma emancipação através da liberdade prometida pelos neons do capitalismo

No quarto da Guest House onde me encontro, na Jawaharlal Nehru University, em Delhi, desligam-se as luzes, a electricidade falhou nesta zona da cidade e durante horas permanecerá tudo na escuridão. Não poderei trabalhar, não poderei enviar e-mails ou comunicar no Facebook. No mesmo momento, reparo que se acendem pequenas fogueiras no "campus", convive-se, come-se e bebe-se chá, uma inovação poética "made in India", capaz de imobilizar o tempo no século XXI.

Em Delhi, tudo é simultaneamente frenético e lento. É frenético porque a metrópole é um espaço de sobrevivência "where time is money" ou "time means food", mas também lento por ser um espaço de falências, já que as suas infra-estruturas físicas e institucionais dificilmente sobrevivem à agitação causada por uma população de quase 20 milhões de habitantes. Entre esta dicotomia, as religiões: hindus, muçulmanos, católicos, budistas, sikhs, jainistas, etc., fazendo da cidade uma “janela civilizacional” e envolvendo-a numa espécie de realismo mágico capaz de sublimar a aspereza do seu quotidiano. Os cultos misturando-se na rua e a diversidade cultural existente definem a estrutura emocional da cidade (simultaneamente vibrante e turbulenta) tão importante como a sua realidade física.

A Índia é, de certa forma, o reverso da Europa e é por isso que é imperativo visitá-la. Alberto Moravia em "Uma Ideia de Índia" referia já na década de 70 que a Europa pretendia libertar-se cada vez mais do peso da realidade dos sentidos e aproximar-se de uma realidade espiritual (não necessariamente religiosa) e a Índia queria, ao invés, acreditar cada vez mais na realidade dos sentidos, distanciando-se progressivamente do peso da espiritualidade. Um paradoxo irresolúvel, mas que continua actual.

Se na Europa essencialmente laica, a fragilidade da democracia perante o poder do capital nos conduz a uma reinvenção da nossa existência e a uma valorização do "ser" em vez do "ter", na Índia o peso da religião conduz a uma emancipação através da liberdade prometida pelos neons do capitalismo. De fora antevemos, o capitalismo não salvará os indianos, aproveitar-se-á antes da segregação já existente (por exemplo entre castas nos hindus) para prosperar. Por outro lado, na Europa, questionando-se o capitalismo, os modelos políticos e o seu sentido, receamos ter chegado a um promontório histórico onde se instalou o vazio e o indefinido.

Entretanto… nas ruas de Delhi, os migrantes favelados constroem e abastecem a cidade, há uma vaca que entope o trânsito, há um homem de bicicleta que transporta uma nuvem de balões, há uma mesquita em que se reza para meca, há três centros comerciais de luxo construídos lado a lado, há uma universidade sitiada pela polícia por lutar contra a desigualdade, há bazares de rua coloridos com manjares fumegantes, há crianças que vivem na rua e milionários que vivem em arranha—céus, há templos hindus com velas e flores, há sobretudo muito a acontecer.

De regresso a Lisboa, a cidade parece museificada, há turistas que deambulam sorridentemente entre restaurantes e lojas "hype", raramente falta a electricidade, não há reinvindicações de alunos nas universidades e nas notícias ouve-se que a Europa cerra a fileira contra os refugiados. Por isso refiro “todos os caminhos vão dar a Delhi”. Talvez o Ocidente se necessite de inquietar, evitando sitiar-se e procurando uma vivacidade inspirada noutras geografias. Talvez o Oriente possa emergir um pouco do imenso mar da religião e do horizonte de promessas salvíficas do capitalismo. Entre ambos o tempo, talvez o recurso mais escasso e mais valioso para a vida de todos e de cada um.