Opinião

A metáfora das invasoras

O desaparecimento da identidade dos bairros pode ser tanto ou mais grave como a alteração dos ecossistemas.

Os dias 21 e 22 Maio foram escolhidos para celebrar a diversidade. A diversidade cultural para o diálogo e desenvolvimento, proposto pela UNESCO e a diversidade biológica proposto pelas Nações Unidas, respectivamente. Embora diferentes, ambos possuem os mesmos objectivos: conhecer melhor as diferenças e preservá-las, cimentando as condições para a sua manutenção. Tanto do ponto de vista antropológico como biológico uma das grandes ameaças à estabilidade desta diversidade é o aparecimento de neófitos que tenham a capacidade de se afirmar e dominar. Sempre que surge algo original, diferente, belo e inovador na sua abordagem, encontra rapidamente terreno fértil para se instalar na sociedade.

Em biologia, este é o paradigma das plantas invasoras. Possuem vantagens morfológicas e funcionais, estratégias inovadoras de reprodução, plasticidade do ciclo de vida e maior capacidade de resistir a situações de stress, que resultam da sua elevada plasticidade genética. No actual contexto do Mediterrâneo, descrito e reconhecido como área de elevada riqueza em diversidade de espécies, a introdução de invasoras representa um dos factores mais relevantes de perturbação e alteração dos serviços do ecossistema. E o problema é que elas surgem porque o homem as importa, ou importou. Foram sobretudo introduzidas para fins ornamentais ou de exploração do ponto de vista económico ou para solucionar (que ilusão!?) problemas ambientais. Depois da revisão da Convenção para a Diversidade Biológica em 2011, o Parlamento Europeu reconheceu, em 2012, a necessidade de se tomarem medidas mais incisivas para impedir a contínua perda de biodiversidade. Para isso convidou os estados membros a instituir uma política comum relativa à prevenção, monitorização, erradicação e gestão destas espécies, bem como aos sistemas de alerta precoce neste domínio. Estas medidas salientam a necessidade de estratégias ambiciosas e inventários actualizados. Neste ponto de vista, Portugal pode orgulhar-se de possuir um trabalho pioneiro de mais de uma década, iniciado e desenvolvido pelo grupo do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra em parceria com a Escola Superior Agrária da mesma cidade. Para além da actividade científica, têm vindo a desenvolver um trabalho de divulgação, de educação ambiental de abrangência nacional. Mas a erradicação e a sua gestão está muito aquém do que poderia ser recomendado e desejado.

Paralelamente, o Parlamento Europeu realçou a conservação da biodiversidade como desafio colectivo instando ao compromisso de, pelo menos 40%, todos os habitats e espécies se encontrarem num estado de conservação favorável, até 2020. Com a profusão de invasoras aliada a uma profunda descaracterização da paisagem, Portugal terá dificuldade em cumprir estas metas. A este desafio está ainda aliada a necessidade de, até 2020, 75% da flora nativa estar efectivamente conservada em bancos de sementes. Esta meta foi igualmente estabelecida nos acordos internacionais e aprovada em 2011, ao abrigo da ratificação da Convenção para a Diversidade Biológica. O Banco de Sementes da Universidade de Lisboa, sediado no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, deu, até 2014, uma contribuição significativa para o cumprimento desta meta. Até essa altura, 57% das espécies protegidas pela Directiva Habitats do continente, foram preparadas para uma conservação de longo prazo. Mas este investimento parou. Os recursos humanos, preparados e formados ao longo de quase uma década, foram dispensados. E, apesar da colecção se manter guardada, não tem aumentado, o que deixa novamente Portugal numa situação delicada, pela ameaça do incumprimento das metas europeias determinadas pela estratégia global de conservação de plantas. Estas são espécies ameaçadas, restritas a algumas regiões, mas com características genéticas que podem vir a ser usadas em prol do desenvolvimento de novos fármacos, novas cultivares. Encontram-se por vezes em locais inacessíveis, algumas nem vistosas são e, perante o paradigma actual, são geralmente tratadas como insignificantes e irrelevantes, porque não servem interesses imediatos.

Os actuais centros urbanos, onde antes pululava vida e a população idosa partilhava o espaço com os seus descendentes, são actualmente locais descaracterizados, apenas com vida diurna. O turismo, os hotéis e pensões preparadas para receber os turistas trazem dinamismo, gente jovem, mas que vão e vêm. A população residente, com idade avançada e sem os vizinhos que entretanto desapareceram, sentem-se alcantilados, esmorecidos e sem capacidade de resistir. O ambiente é outro, foi veloz a aparecer, não lhes deu tempo a adaptar e não puderam ou não quiseram sair. É a metáfora das invasoras.

Seria, porém, injusto não referenciar programas específicos que têm estado a desenvolver-se para entrosar as diferentes comunidades e as iniciativas à volta deste dia para aprofundar a compreensão sobre os valores da diversidade cultural. Mas, para além deste esforço, é necessário integrar a história, a cultura e as tradições locais, para salvaguardar a identidade original. O desaparecimento da identidade dos bairros pode ser tanto ou mais grave como a alteração dos ecossistemas. 

Bióloga, Professora Catedrática da Universidade de Lisboa