Governo admite comboios de passageiros na futura linha Évora – Caia

Lisboa pode ficar a duas horas de Badajoz em Intercidades e Évora distará 30 minutos da fronteira espanhola

Traçado marcado a vermelho
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Traçado marcado a vermelho DR

Apesar de vocacionada para o transporte de mercadorias, a linha Évora – Caia deverá ter comboios de passageiros que darão ligação em Badajoz aos comboios de alta velocidade para Madrid. Segundo o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, Lisboa ficará a duas horas de Badajoz e Évora a apenas 30 minutos.

Esta é a resposta do governo à contestação do município de Évora ao traçado da linha, que aproveita um canal ferroviário já existente na parte oriental da cidade. Os moradores temem pelos impactos negativos que a passagem dos comboios possam provocar nos bairros junto à via férrea, mas, em resposta a perguntas do PÚBLICO, o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas diz que não há razões para isso.

“Para começar, as estimativas de procura apontam para 14 comboios por dia e não os 60 comboios que têm sido noticiados. Depois, não é expectável um tráfego relevante de mercadorias perigosas, nem há razões para temer o barulho da passagem dos comboios uma vez que o projecto prevê as medidas necessárias para manter o ruído dentro dos limites legais”, disse ao PÚBLICO fonte oficial do ministério.

Entre essas medidas está o facto de os carris serem constituídos por barra longa soldada que não provoca qualquer atrito com os rodados dos comboios, bem como a colocação de uma “manta vibratória” entre o carril e as travessas, que absorve as vibrações e o ruído provocado pela passagem das composições. O projecto prevê ainda que não haja nenhuma passagem de nível em toda a linha, não havendo portanto o ruído provocado pelos avisos sonoros de aproximação de comboios.

Em vez das passagens de nível, a linha será atravessada por passagens superiores e inferiores, o que evita também o efeito de barreira da via férrea naquela zona da cidade.

Num mail enviado ao PÚBLICO, o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, recorda ainda que a linha será electrificada e logo, mais silenciosa do que se fosse percorrida por comboios a diesel. E refere que a legislação nacional e europeia obriga a cuidados muito apertados com a “esmerilagem e lubrificação” dos carris, bem como com o “reperfilamento” dos rodados dos comboios. Os próprios conjuntos de rodados (bogies) são hoje desenhados de forma a terem “uma influência decisiva no desempenho acústico dos comboios”. Tudo isto para concluir que, apesar do traçado ser o mesmo da antiga linha férrea que ia para Vila Viçosa, os comboios de futuro – mesmo os de mercadorias – nada têm a ver com a ideia que os eborenses guardam das velhas composições do passado.

A alteração ao traçado previsto, diz o governo, representaria uma acréscimo de custos na ordem dos 15 a 25 milhões de euros para um projecto que está orçado (só na reabilitação dos nove quilómetros de linha desactivada) em 20,2 milhões. “Iria ainda colocar em risco o processo de licenciamento ambiental de toda a ligação Évora – Elvas, obrigando pelo menos a um novo processo de avaliação de impacte ambiental autónomo”, diz a mesma fonte. “Só entre contratação, estudos, processos de avaliação e pós-avaliação ambiental e projectos, estima-se que o atraso na construção poderia exceder os três anos, comprometendo irremediavelmente o financiamento comunitário e pondo em causa a concretização do projecto estratégico para o país que é a ligação Sines – Elvas”.

O presidente da Câmara de Évora, Pinto de Sá, em declarações ao PÚBLICO dizia que só tinha tomado conhecimento do traçado “há algumas semanas”, mas fonte oficial do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas recorda que o projecto “está estabilizado há mais de oito anos, tendo sido dispensado de procedimento de avaliação ambiental” e contemplado no PDM da cidade. E que “os diversos desnivelamentos de estradas e caminhos mereceram anteriormente o acordo da autarquia”.

Durante o último governo de Sócrates, a própria obra já chegou a estar contratada no âmbito do projecto de alta velocidade Lisboa – Madrid (que incluía este troço da linha Sines – Badajoz) sem que na altura tivesse havido quaisquer protestos da autarquia. O governo de Passos Coelho viria a suspender o projecto, tendo sido agora reiniciado, mas sem a parte do TGV.

Mais perto de Madrid
A suspensão do projecto de alta velocidade do lado português, entre Lisboa e Badajoz, fez com que os espanhóis reprogramassem, por sua vez, a construção da linha Badajoz – Madrid. Numa abordagem pragmática, como já havia obras no terreno, decidiram concluir a linha apenas em via única e não electrificada, mas mantendo o traçado de alta velocidade para que, no futuro, se concluísse o projecto na totalidade. Desta forma, quando for inaugurada, Badajoz ficará a quatro horas de Madrid (em vez das seis actuais) com comboios a diesel. Na segunda fase, porém, o AVE ligará a fronteira portuguesa à capital espanhola em 1h58. Nessa altura, Évora estará a duas horas e meia de Madrid e Lisboa a pouco mais de 4h30.