A Europa em três imagens

Quando em Dezembro fizermos o balanço político de 2016, vamos incluir três fotografias desta semana, três imagens europeias, sem mortos nem feridos. Haveria outras, mas estas — juntas — captam o medo, a incerteza e a esperança da nossa era.

Numa, um consultor português para assuntos energéticos identificado como diplomata pelo cartão que tinha ao peito foi detido e algemado depois de tirar uma fotografia com o seu telemóvel a um edifício da União Europeia na Praça Schuman, em Bruxelas. Noutra, uma mulher baixa, magra e negra, interpela, sozinha, um grupo de neo-nazis, altos, fortes e brancos, que percorrem as ruas de Borlänge, uma pequena cidade sueca que tem apenas um jornal e 20 escolas, a terra onde nasceu o campeão olímpico Lars Frölander. A última é a de Sadiq Khan, o novo mayor de Londres, eleito por 57% dos votos, contra 43% do milionário conservador Zac Goldsmith.

As três imagens estão ligadas de uma forma peculiar e fazem um retrato da Europa de hoje. Uma Europa onde o medo do terrorismo está a abrir portas para excessos securitários, onde o populismo ganha terreno e dá cada vez mais poder a partidos de extrema-direita com agendas e propostas políticas contrárias aos princípios democráticos, mas onde — apesar de tudo — um trabalhista, muçulmano, filho de imigrantes paquistaneses, convenceu o eleitorado cosmopolita de uma das mais importantes capitais europeias.

A eleição de Khan vai enfurecer os neo-nazis de Borlänge, mas destrói a narrativa extremista. Tanto a dos europeus que agitam as sociedades com o papão do perigo da entrada de imigrantes na Europa, como a dos terroristas islâmicos que agitam o papão de que os ocidentais odeiam os muçulmanos. E por isso a eleição de Sadiq Khan combate de forma eloquente uma das principais armas do auto-proclamado Estado Islâmico — a radicalização de jovens europeus que planeiam ataques terroristas nas suas próprias cidades a partir dos bairros europeus onde nasceram. Com Khan no poder, será mais difícil tornar credível a ideia — pelo menos para os jovens londrinos — de que os filhos de imigrantes e os britânicos muçulmanos não têm futuro nem um lugar na sociedade. Sadiq Khan disse que venceu “a esperança em vez do medo” e Tess Asplund, a sueca de origem africana que fez o protesto solitário em Borlänge, não estará em desacordo.