Fonte dos Panama Papers pede protecção para quem divulga "transgressões das elites"

Responsável pela maior fuga de informação de sempre publica manifesto contra "fracasso" de políticos, advogados e jornalistas e admite colaborar com a Justiça, se lhe garantirem imunidade.

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Foram revelados 11,5 milhões de documentos da empresa Mossack Fonseca Wolfgang Rattay/Reuters

Um mês depois de o mundo ter ficado a conhecer com mais pormenor a magnitude do fenómeno dos paraísos fiscais, com a divulgação dos Panama Papers, a pessoa que tirou os documentos dos servidores da empresa Mossack Fonseca publicou esta sexta-feira um manifesto no jornal alemão Süeddeutsche Zeitung. No longo texto, com quase 2000 palavras, a fonte identifica-se apenas como John Doe e nem revela se é homem ou mulher – o mais importante, defende, é denunciar "a escala das injustiças", a falta de protecção legal a quem deseja seguir o seu exemplo e o "fracasso" do sistema financeiro, mas também de políticos, advogados e jornalistas.

A divulgação de milhões de documentos da empresa panamiana tem sido elogiada como uma vitória do jornalismo de investigação, mas a pessoa que obteve as informações que já levaram pelo menos a uma demissão sonante – a do primeiro-ministro finlandês, Sigmundur David Gunnlaugsson – diz que no início encontrou muitas portas fechadas.

"Os media falharam. Muitos grupos são caricaturas do seu passado, multimilionários em nome individual fizeram da propriedade de jornais o seu passatempo, limitando a cobertura de assuntos sérios relacionados com os mais ricos, e a investigação séria não tem financiamento suficiente", acusa o autor da fuga de informação (whistleblower é o termo usado em inglês).

"O impacto é real", continua. "Para além do Süddeutsche Zeitung e do ICIJ [Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação], e apesar de alegações em contrário, vários grupos de media de grande dimensão viram os documentos dos Panama Papers. Decidiram não escrever nada sobre eles. A triste realidade é que entre os maiores e mais capazes grupos de media do mundo não houve um único interessado em noticiar a história. Até a Wikileaks rejeitou as abordagens várias vezes."

O primeiro jornal a debruçar-se sobre os Panama Papers foi o alemão Süddeutsche Zeitung, no ano passado. Depois de ter decidido avançar com a história, o jornal pediu a colaboração do ICIJ e os documentos chegaram então a uma centena de órgãos de comunicação em 83 países.

Disposto a colaborar com a Justiça

No texto publicado esta sexta-feira, o autor parece indicar que se inspirou nas revelações do antigo analista Edward Snowden, o homem que revelou uma montanha de documentos sobre programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana no Verão de 2013 – e que agora vive na Rússia, onde pediu asilo por ser procurado para ser julgado por espionagem nos EUA. Apesar disso, John Doe garante que não trabalha nem nunca trabalhou para nenhuma agência de informação: "O meu ponto de vista é apenas meu, já que a minha decisão de partilhar os documentos com o Süddeutsche Zeitung e com o ICIJ não teve uma intenção política específica, resultou simplesmente de eu perceber o suficiente sobre o que eles contêm e de me ter dado conta da escala das injustiças que eles descrevem."

"Os verdadeiros whistleblowers, que denunciam transgressões inquestionáveis, sejam eles internos ou externos, merecem receber imunidade da retaliação dos governos, ponto final. Até que os governos codifiquem na lei protecções legais para os whistleblowers, as agências de informação têm de depender dos seus próprios recursos ou da actual cobertura feita pelos media para obterem os documentos", argumenta o responsável pela revelação dos Panama Papers.

Até porque John Doe diz que estaria disponível para colaborar com as autoridades, se tivesse garantias de que não seria acusado de espionagem, apesar de considerar "acertada" a decisão do ICIJ de não partilhar essas informações: "Milhares de acusações poderiam ser feitas a partir dos Panama Papers se as autoridades legais pudessem ter acesso e avaliar os verdadeiros documentos."

Apesar de elogiar as alterações que estão a ser feitas no Reino Unido – motivadas pela divulgação dos documentos e na sequência da ligação do primeiro-ministro David Cameron ao caso –, o whistleblower afirma que está quase tudo por fazer, não bastando "enaltecer as virtudes da transparência dos governos em cimeiras e sound bites".

O manifesto aponta também o dedo ao sistema de financiamento eleitoral dos EUA: "A evasão fiscal não pode ser solucionada enquanto responsáveis eleitos pedem dinheiro às elites que têm os maiores incentivos para fugirem aos impostos em comparação com qualquer outro segmento da população. Estas práticas políticas repugnantes constituem um círculo e são irreconciliáveis."

No final do manifesto, John Doe alerta para as revoluções que começaram no passado por causa de questões relacionadas com os impostos, e deixa uma mensagem que pode ser interpretada como um apelo a mais denúncias como as de Edward Snowden ou as que ele próprio fez: "Vivemos numa época de armazenamento digital ilimitado e barato e de rápidas ligações à Internet, que ultrapassam as fronteiras nacionais. Não custa muito ligar os pontos: do início ao fim, da origem à distribuição global mediática, a próxima revolução será digitalizada. Ou talvez já tenha mesmo começado."