Ricardo Araújo Pereira é o convidado português da Festa Literária Internacional de Paraty

O mais importante evento literário brasileiro vai realizar-se em Junho e o humorista e escritor lançará um livro inédito, um ensaio sobre o riso.

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Ricardo Araújo Pereira Enric Vives-rubio

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que este ano se realiza de 29 de Junho a 3 de Julho, terá um convidado português: Ricardo Araújo Pereira. O humorista, cronista e editor da colecção de humor da Tinta-da-china participa naquele que é o mais importante evento literário brasileiro e que, nesta edição, homenageará a brasileira Ana Cristina Cesar (1952-1983).  

“Vou com curiosidade”, diz Ricardo Araújo Pereira que não aceita todos os convites que lhe fazem. Mas aceitou este porque "gostava de ir à FLIP como público" mas nunca se proporcionou. "Agora tenho oportunidade de ir, fico com um lugar até melhor, com uma vista melhor para o palco”, brinca ao telefone o escritor que recebeu o Grande Prémio da Crónica atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores em 2013. 

No Brasil, em 2012,  publicou o livro de crónicas Se não entenderes eu conto de novo, pá, na Tinta da China Brasil, e lançará agora, na mesma editora, um livro inédito que só mais tarde será editado em Portugal. A editora Bárbara Bulhosa explica que está a preparar a edição para a FLIP: “Publicaremos um ensaio original que esperamos há muito: ‘A doença, o sofrimento e a morte entram num bar - uma espécie de manual de escrita humorística” que será publicado em Junho no Brasil e só em Setembro em Portugal”.

Quando pedimos a Ricardo Araújo Pereira que explicasse de que se trata, ele diz-nos que tentou "pensar um bocado" sobre "um ofício que as pessoas tendem a considerar que pode ser desempenhado apenas por uns escolhidos que nascem com um dom". Essa, no entanto, não é a sua opinião. “Aquilo a que chamamos sentido de humor é um modo de raciocinar, tal como a filosofia, por exemplo", diz. E no livro tratará de falar sobre essas questões, sobre esse método específico de raciocinar. "E isso envolve alguns riscos. Um é o facto de eu não ser um académico. Mas também não acho que as pessoas não esperam obter daquilo que escrevo aquilo que se obtém de um académico, muitas vezes hei-de falar sobre riso,sobre o humor, sem me limitar aos conceitos. Vai ser uma coisa descontraída. O outro risco é que normalmente a conversa sobre a comédia não tem graça nenhuma. E isso gera alguma desilusão”.

De Bogotá, onde está a participar na Feira Internacional do Livro de Bogotá, a editora portuguesa Bárbara Bulhosa disse estar “muito feliz” com a ida de Ricardo Araújo Pereira (RAP) ao Brasil. “Considero-o um dos mais determinantes escritores portugueses da nossa geração e será importante que o público da FLIP o fique a conhecer.” Matilde Campilho e Alexandra Lucas Coelho, também suas autoras, foram as convidadas da edição passada, e a passagem de Matilde pela FLIP foi tão emotiva como tinham sido as dos escritores portugueses António Lobo Antunes e Valter Hugo Mãe.

Paulo Werneck, que pelo terceiro ano consecutivo é o curador desta festa literária, explicou ao PÚBLICO que um escritor se torna “um bom nome para a FLIP” quando “bons leitores de diferentes extracções” lhe fazem a mesma recomendação. “Isso em geral significa que o autor ultrapassa os limites de um gueto, de um leitorado específico. Ricardo está no meu radar desde 2014, a FLIP do Millôr Fernandes, quando uma amiga portuguesa que é uma excelente leitora me recomendou. Agora, com um livro dele para ser lançado no Brasil, recebi a dica da editora Bárbara Bulhosa e a ocasião me pareceu perfeita.”

Lembra que o humor esteve sempre presente na programação da FLIP, não só com a homenagem a Millôr Fernandes, mas também com a presença de autores como Angeli, Laerte, Verissimo, há alguns anos, ou Plantu e Rafael Campos Rocha no ano passado. “Se já RAP tem um diálogo com o público brasileiro de humor, penso que ainda falta ser descoberto do ponto de vista literário”, acrescenta o curador. Este ano Ricardo será o único português, “mas a presença de autores portugueses é um grande sucesso na FLIP, e não por questões numéricas. Matilde Campilho e Valter Hugo Mãe, sozinhos, são multitudinários. Acredito que o RAP também seja, estou muito ansioso para vê-lo no palco em Paraty.”

A programação completa só será divulgada durante a próxima semana mas já se sabe que a prémio Nobel da Literatura de 2015, Svetlana Alexievich, a escritora britânica Helen Macdonald (A de Açor, ed. Lua de Papel), o escritor holandês Arthur Japin, o escritor americano Benjamin Moser (Clarice Lispector Uma Vida, ed. Civilização), a cronista brasileira Tati Bernardi (Depois a louca sou eu, ed. Companhia das Letras) e o escritor brasileiro João Paulo Cuenca (Descobri que Estava Morto, ed. Caminho) estão entre os convidados desta edição.