Grandeza e miséria do PT

Pode a destituição (impeachment) de Dilma Roussef ser uma bênção para o Partido dos Trabalhadores (PT)? Há quem o admita. A sessão do Congresso brasileiro foi um circo indigno. A Presidente foi condenada pelas “pedaladas” orçamentais numa assembleia em que 60% dos membros são acusados ou suspeitos de corrupção e outros delitos. Pouco importa que 77% dos brasileiros defendam a “cassação” de Eduardo Cunha, presidente do Congresso que montou a operação. A destituição do vice-presidente, Michel Tamer, é pedida por 58%. Eles têm um objectivo: o PT, no poder há 13 anos, deve ser afastado a qualquer preço. Cavalgam a onda de impopularidade de Dilma.

Desta vez, “não é uma acção orquestrada da grande burguesia pois temos indícios de que não há uma preferência dos estratos sociais mais ricos pelo impeachment”, declarou no início do processo o cientista político Lincoln Secco, autor de uma História do PT (Ateliê, 2011) e ele próprio membro do partido.

Os brasileiros condenam Cunha e Temer mas não defendem a Presidente. O PT perdeu a rua. A destituição de Dilma e Temer era pedida há mais de um ano por mais de 60% dos inquiridos nas sondagens. Os pobres, as mulheres e os jovens eram quem mais intensamente a exigia (acima das classes médias e altas). O eleitorado petista estava cada vez mais descontente e a popularidade do partido a derreter-se. Tudo correu mal a Dilma. Não soube perceber a mudança da economia mundial. E o pecado mortal foi ter prometido na segunda campanha uma política económica para logo a seguir defraudar o eleitorado, sem lhe dar uma explicação. 

A oportunidade?
Os efeitos políticos poderão surpreender. Lula ganharia um tema de vitimização e coesão. Argumenta o politólogo Rodrigo Nunes: “O impeachment acaba por ser o resultado mais confortável para o PT. Tira Dilma da cena e praticamente coloca Lula em campanha.” Conclui: “O estrago seria muito maior sem o impeachment, pois correria o risco de ficar infinitamente mais impopular, permanecendo no poder no meio de um cenário de crise económica.” Aplicar-se-ia uma antiga palavra de ordem da oposição: “Nessa altura do campeonato, eles que fiquem com o Titanic.” Doravante a pressão popular estaria sobre o “governo” Temer.

No entanto, as coisas não são tão simples. Houve um (ainda inexplicável) erro político. A proposta de nomear Lula ministro-chefe da Casa Civil (16 de Março) foi interpretada como uma busca de imunidade para o ex-Presidente: foi um ponto de viragem que tornou irreversível o consenso da oposição em destituir Dilma. Lula é a personagem central da política brasileira. Muito depende da sua força ou da sua fraqueza.

Lulismo e petismo
O sociólogo José de Souza Martins, que assistiu ao nascimento do PT no ABC paulista, frisa a sua origem católica e luterana. Era um sindicalismo católico e radical e, ao mesmo tempo, uma alternativa ao comunismo, de que Lula se tornou a imagem. “Em silêncio e fora da pauta da luta de classes, o Brasil mudou. Não é o proletariado que se ergue politicamente, é o subúrbio, o lugar de chegada dos que transitam entre o Brasil atrasado e o Brasil moderno, o urbano subconstituído, inacabado e inacabável, o meio-termo, a transição.”

Depois agregou as mais variadas correntes ideológicas da esquerda. “O PT cresceu nestes anos todos questionando a legitimidade de todos e de tudo. Foi apresentado como o único partido da integridade, da decência e da competência (...)”, explica no livro Do PT das lutas populares ao PT do poder (Contexto, São Paulo, 2016). Antes da chegada ao poder havia a expectativa de que “seria o povo no poder”. Era uma utopia muito forte. “Para ser um tal partido do povo, porém, o PT jamais deveria ter aspirado ao poder.” A experiência do poder foi traumática para os radicais. Lula publicou em 2000 o “Manifesto ao Povo Brasileiro”, em que dava garantias ao capital, defendendo uma política de reformas e conciliação. Venceu em 2002.

O 1º de Janeiro de 2003 tem um duplo significado. Assinala Martins: a passagem da faixa presidencial a Lula foi “a concretização do acto político mais importante nos 500 anos da História da emancipação do povo brasileiro”. Mas significa também o ocaso do profeta e a emergência do homem de estado. “Lula e o partido achavam que governar era um acto de vontade política e que o Presidente mandava no poder. Aos poucos descobriu que o poder manda no Presidente” e que a sua margem de conduta (...) depende de uma arte completamente diversa dos pressupostos do maniqueísmo e da retórica da porta de fábrica.” Lula será acusado dentro do partido de praticar uma política de conciliação permanente. Foi sempre um líder bifronte. Homem de estado no palácio, tribuno na rua e nos congressos.

Lula deixou um importante legado social que arrancou à miséria e à ignorância milhões de brasileiros. “É o único partido na história republicana brasileira que estabeleceu um elo entre os humilhados e os ofendidos da terra, cronicamente desprezados pela direita e pela esquerda, e pelo poder”, sublinha Martins.

Mas tornou-se também num problema para o partido. O eleitorado rapidamente se tornou lulista. É o PT que vive de Lula e não este do partido. Ao mesmo tempo, mudou a composição social do PT, assinala o historiador André Singer (membro do partido e autor de Os Sentidos do Lulismo - Reforma gradual e pacto conservador, Companhia das Letras, 2012). Nos anos 1990, o PT tinha a sua grande base eleitoral entre os eleitores com mais alto nível de educação e nos estados mais urbanizados e industrializados do Sul e Sudeste. Depois de estar no governo e dos primeiros programas sociais (Bolsa Família, salário mínimo e outros), o lulismo implantou-se nas regiões pobres do Norte e Nordeste (ver Manuel Carvalho). O PT declina nas grandes cidades, perde a maioria das classes médias e regressa à condição de partido das periferias urbanas.

Anota Singer: “A desconexão entre as bases do lulismo e a do petismo em 2006 pode significar que entrou em cena uma força nova, constituída por Lula à frente de uma fracção de classe antes caudatária das forças da ordem.” Lula fez do PT o “partido dos pobres (...), lugar vago na política brasileira desde 1989, quando o PMDB perdeu essa condição.”

Ética e corrupção
O escândalo do Mensalão (compra do voto de deputados) foi um sismo que pôs em causa a “superioridade ética” do PT. Veio depois o Petrolão (a corrupção na Petrobras), despoletada pela investigação judicial Lava Jato em 2014, que não atinge só o PT mas quase todos os partidos. A corrupção é endémica no Brasil mas foi devastadora para o PT. Este ainda não a encarou frontalmente, mantendo uma relativa ambiguidade.

Lincoln Secco testemunha: “Eu mesmo ouvi de dirigentes do PT em 2005 que não era errado roubar pelo partido e sim para proveito pessoal.” E, no Petrolão, passou-se ao enriquecimento pessoal ilícito, tal como nos velhos partidos. Explica Martins que alguns dirigentes do PT elaboraram o espantoso conceito de “corrupção altruísta”, argumentado que a propina [corrupção] para levar ao poder não é corrupção, “porque, em última instância, trata-se de ‘corrupção cívica’ para favorecer pobres (...).”

É a questão que o PT ainda não resolveu e que o fará entrar em choque com o novo grande actor político do futuro, a juventude da classe média ascendente, em boa parte fruto da governação de Lula.