Juliette Binoche e Lou de Laâge: dueto de câmara

Duas actrizes notáveis dão corpo e alma a um “dueto de câmara” sobre mulheres em luto emocional.

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Pelo meio das decepções generalizadas (mesmo que previsíveis) que são os mais recentes trabalhos dos cineastas italianos do momento – a Juventude de Paolo Sorrentino, o Mergulho Profundo de Luca Guadagnino e o Conto dos Contos de Matteo Garrone, estreados em rápida sucessão por cá – é a primeira longa de Piero Messina que nos parece o filme mais interessante.

Se em comum com aqueles tem um cuidado estético que está quase paredes-meias com o ostensivo (afinal, Messina foi assistente de Sorrentino em A Grande Beleza), A Espera transcende a mera demonstração de virtuosismo audiovisual para criar com grande justeza um ambiente abafado, quase viciado, uma espécie de “limbo emocional” onde se encontram duas mulheres unidas pelo desaparecimento de um mesmo homem. O espectador sabe desde o início que esse homem morreu inesperadamente, mas uma das mulheres – a namorada que a família ainda não conhece – não; quando Jeanne aterra na Sicília, Anna, a mãe, oculta-lhe a informação e constrói um casulo protector de negação como forma de viver o luto, procurando manter viva a presença do filho por mais algum tempo através da descoberta da jovem onde, ainda por cima, se revê de algum modo.

Se os paralelos com a dimensão de morte e ressurreição da quadra pascal onde tudo se passa são um pouco forçados em excesso, Messina minimiza-os pelo modo atento e paciente como constrói a sensação de “tempo suspenso” que a sua história exige (o trabalho de som em particular é extraordinário na maneira como parece excluir tudo aquilo que é desnecessário). Sobretudo, coloca todo o filme nos ombros – e nos olhos, e nos rostos – das suas actrizes, Juliette Binoche (a mãe) e Lou de Laâge (a namorada), que se entregam a um exigentíssimo dueto de câmara todo em detalhes, presenças, olhares, do qual saem triunfantes ao mesmo nível, sem uma vencedora nem uma vencida. São as suas presenças, as suas entregas, e o modo como Messina as integra que compensa largamente as fraquezas inerentes a uma primeira obra.

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