A república brasileira entrou em colapso

Vladimir Safatle, professor de filosofia na Universidade de São Paulo e colunista no jornal Folha de S. Paulo, diz que a sociedade brasileira está dividida em dois.

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Muita coisa mudou desde quarta-feira. Qualquer concepção de democracia presume que os indivíduos possam defender-se do Estado. Se você for processado pelo Estado, você e o seu advogado têm uma relação de inviolabilidade.

Estamos a assistir a um descontrolo completo do sistema judicial brasileiro, que não percebe que vai criar um estado de excepção em que os indivíduos já não vão ter mais garantia alguma contra o poder do Estado. Gravar uma conversa entre Lula e o seu advogado e jogar imediatamente essa conversa num jornal nacional é criminoso. Independentemente de quem é esse indivíduo, isso não faz a menor diferença.

Sem contar com o facto escandaloso que o juiz Moro gravou a Presidente da República  e, em vez de remeter essa gravação para o Supremo Tribunal Federal, impôs uma interpretação que não é clara de forma alguma e jogou imediatamente isso num canal de televisão. Com isso entrou no jogo político. O sistema judicial é como as Forças Armadas: está fora do jogo político do país.

A discussão sobre corrupção está a ser colocada de forma muito injusta apenas contra o governo federal. A Operação Lava Jato revelou o sistema incestuoso de relação entre a classe empresarial e a classe política. Ela mostra que a experiência de redemocratização do Brasil foi um fracasso. Que é uma democracia que só funciona na base da corrupção. O resultado disso é muito importante porque vai fazer com que a sociedade brasileira perceba que precisa de refundar a sua democracia.

Mas essa consciência só vai ocorrer se ficar muito claro que todos os partidos estão envolvidos nessa corrupção – se você mostrar a real extensão do problema em vez de focar só num dos actores. Porque, se não, o que vai acontecer é que o governo cai e vão assumir outros partidos políticos que estão envolvidos no esquema de corrupção.

A sociedade brasileira está completamente dividida em dois. É uma divisão tal que não tem mais um campo comum de relação no interior da sociedade civil. A minha impressão é que isto iria acontecer num momento ou outro. O Brasil nunca foi capaz de criar um campo comum entre as suas tendências internas. Nem mesmo em relação à sua história: quando acabou a ditadura militar, foi o único país que não foi capaz de estabelecer uma narrativa comum. Até hoje é uma questão que divide a sociedade: há pessoas quem têm uma visão negativa sobre a ditadura e pessoas que têm uma visão positiva.

O Brasil, hoje, são dois países. Isto não vai mudar em pouco tempo. Desde a última eleição era evidente que o país tinha sido dividido. Isso continua e só se está a aprofundar.

Nenhum dos actores institucionais está a ajudar a mudar isso. Não há nenhum poder funcionando minimamente nesse país – nem o executivo, nem o legislativo, nem o judicial. A república brasileira entrou em colapso.

Depoimento recolhido por Kathleen Gomes