Portugal quer começar a exportar energia eléctrica para Marrocos

Governo está a procurar financiamento para os estudos técnicos de construção de um cabo submarino que ligue o Sul de Portugal a Marrocos. Verbas deverão vir “preferencialmente” dos fundos europeus

Menos electricidade, porém mais carvão e mais emissões
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O projecto com Marrocos poderia ser uma oportunidade de internacionalização para a REN Público/arquivo

O governo português está a estudar a construção de uma interligação com Marrocos para vender energia eléctrica a este país do Magrebe. De um encontro bilateral entre o secretário de Estado da Energia português e o seu homólogo marroquino, realizado na quinta-feira, saiu “o compromisso de fechar, até Abril, o modelo de financiamento para os estudos técnicos necessários à concretização da interligação” entre os dois países, disse ao PÚBLICO Jorge Seguro Sanches.

Em causa está a construção de uma interconexão submarina que permitiria a Portugal exportar energia eléctrica para Marrocos, explicou o secretário de Estado da Energia. Segundo Seguro Sanches, que esta semana participou numa conferência sobre energia organizada pelo Governo alemão, em Berlim, o ministro marroquino, Abdelkader Aâmara, também afirmou, na sua intervenção na conferência, que o projecto de construção de uma linha com capacidade [de interligação] de 1000 Megawatts entre Marrocos e o sul de Portugal “é prioritário”.

Numa primeira fase, em que Marrocos (que já tem ligação a Espanha) tem uma produção eléctrica deficitária e preços muito elevados, Portugal posicionar-se-ia como vendedor, mas, no futuro, estaria obrigado “a ser competitivo”, dado o enorme potencial de produção solar do Norte de África, disse o secretário de Estado.

Aliás, a aposta no desenvolvimento da produção solar é também uma das apostas do actual executivo. Jorge Seguro Sanches revelou que o Ministério da Economia está a trabalhar com o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) “num levantamento dos melhores pontos solares do país para adaptar a rede” a uma aposta maior nesta fonte de produção renovável.

Os estudos do cabo submarino, que terão um valor “inferior a um milhão de euros”, deverão ser financiados “preferencialmente através de fundos comunitários, mas vão avançar de qualquer maneira”, assegurou Jorge Seguro Sanches. São, no entanto, a primeira fase de um investimento cujo valor ainda não está definido, mas que poderia ficar próximo dos 600 milhões.

Essa foi, pelo menos, a estimativa feita para um projecto de interligação semelhante que foi conduzido pelo extinto Medgrid, o consórcio de empresas internacionais em que a REN chegou a ter uma participação accionista de 5%, e que foi extinto no ano passado. O projecto foi apresentado num seminário realizado pelo Medgrid em Lisboa, em Novembro de 2014, e previa já a instalação de uma interconexão submarina com capacidade de 900 MW entre Portugal e Marrocos, a entrar em funcionamento em 2020. No entanto, o investimento pressupunha também o reforço das interligações entre a Península Ibérica e a França, para transportar energia além dos Pirenéus, um investimento que nunca foi sancionado pelas autoridades francesas.

Com o desaparecimento do Medgrid (cujos accionistas eram predominantemente empresas francesas) este projecto ficou pelo caminho. Porém, o interesse estratégico de uma ligação entre Portugal e o Norte de África mantém-se, garantiu o secretário de Estado da Energia: “Marrocos é uma prioridade”, disse ao PÚBLICO.

Ainda que o empreendimento não tenha, por agora, um calendário definido (além do compromisso de encontrar o modelo de financiamento nas próximas semanas), a expectativa é que o projecto vá ganhando forma na actual legislatura marroquina (as próximas eleições estão marcadas para Outubro).

Apesar de o investimento obrigar ao lançamento de um concurso público internacional, Jorge Seguro Sanches acredita que tanto a REN, como o operador de rede marroquino estariam “bem posicionados” para liderá-lo. Para a REN, que ainda no mês passado viu o regulador do sector energético, a ERSE, dar parecer negativo aos seus planos de investimento na rede eléctrica e na rede de gás natural, esta poderia ser uma via para conseguir internacionalizar a operação, como há anos ambiciona. Além disso, este projecto implicaria uma adequação da rede eléctrica portuguesa, o que também teria impacto positivo nos proveitos da empresa liderada por Rodrigo Costa.

Por outro lado, o escoamento da electricidade portuguesa pela fronteira sul, para mercados onde está a crescer o consumo, permitiria a Portugal furar o bloqueio francês e converter-se efectivamente em exportador de energia renovável.