Crónica

House of Cards à moda tropical

Não sei o que dizer aos outros sobre o Brasil, mas também não sei o que dizer aos brasileiros sobre o mundo à volta.

Quando tinha 13 anos disse à minha avó que queria ser jornalista. Ela, que tinha sido vítima de um derrame e pouco falava, ficou furiosa. Preferia que eu fosse professora. Expliquei: quero fazer reportagens sobre o mundo para o Brasil e quero contar ao mundo o que é o Brasil. Hoje, há 18 anos fora, os meus amigos de todo o mundo perguntam: o que está a acontecer no teu país? E, eu, bem, eu não sei o que responder.

Sei entretanto do que a minha avó não viveu para ver: os comícios gigantescos das "Directas Já", os caras pintadas nas ruas exigindo a saída do primeiro Presidente eleito do Brasil, Fernando Collor de Mello, os meus primeiros passos no jornalismo, já na TV Globo, a assistir e viver em directo a votação do impeachment de Collor de Mello. A História acontecia à frente dos meus olhos e eu, de uma certa maneira, a contava ao meus, ao mundo. Fui morar longe, cobrir os eventos mundiais, mas lembro-me como se fosse hoje da excitação num salão de manicuras brasileiras no bairro de Queens, em Nova Iorque, abarrotado de clientes a acompanhar a posse de Lula da Silva, "o Lula". Os olhos delas brilhavam. Ia ser um Brasil diferente. A cada ida ao Brasil era a euforia de um Brasil pujante, que finalmente deixara de ser o gigante adormecido e onde tudo parecia possível.

Os anos se passaram. Uma amiga me contou que um jovem, que conhecíamos e tinha viajado connosco pelos EUA e estudado modelos de sindicalismo, tinha se tornado o “homem da mala”. Como assim, o “homem da mala”? Sim, o homem da mala do dinheiro, do então ministro José Dirceu. Custei a acreditar. Mas de repente, a cada dia, os homens da mala proliferam. São a rotina. Para não falar da imprensa partidária, das redes sociais inundadas com comentários de uma intolerância atroz, palavrões, chavões de gente inteligente de todos os lados a terem comportamentos completamente irracionais. É a terra de ninguém, que eu achara que só existia na fronteira, entre o Paquistão e o Afeganistão, que visitei há anos.

Não sei quais serão as manchetes de depois de amanhã nos jornais. Os alemães comparam o que se passa no Brasil aos episódios da série House of Cards. Podíamos falar de uma telenovela brasileira ou mexicana. Sexta-feira embarco para o Brasil para uma viagem de trabalho ao meu país. Já não o reconheço, não me reconheço. Devo ter me transformado numa estrangeira. Não sei o que dizer aos outros sobre o Brasil, mas também não sei o que dizer aos brasileiros sobre o mundo à volta. Trinta e cinco anos depois da conversa com a minha avó, sinto-me profundamente frustrada. Hoje, pela primeira vez, vou assistir a House of Cards e quem sabe perder de vez o romantismo e começar a compreender.