Entrevista

“Para o aluno, o mais importante é fazer um curso bem feito”

Eduardo Marçal Grilo defende escolas mais preocupadas em ensinar bem. E um “acordo” nacional, para que não esteja sempre tudo a mudar na Educação. Há coisas que não devem mesmo “ser postas em causa”, diz. Por exemplo, “o processo de avaliação”.

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Marçal Grilo: “Os jovens não devem ter medo dos cursos difíceis. O esforço é sempre compensado” Enric Vives-Rubio

Eduardo Marçal Grilo preside ao conselho estratégico da Futurália, a feira de educação e formação que, durante quatro dias, reúne instituições portuguesas e estrangeiras num único espaço, em Lisboa. Arranca quarta-feira. O ex-ministro da Educação de António Guterres (1995 a 1999) deixa várias ideias aos alunos que se preparam para escolher o caminho a prosseguir: não basta fazer um curso superior. É preciso que ele seja bem feito. A primeira parte da formação deve acontecer em Portugal “e depois se verá” — “Há cursos, em muitas áreas, em que não há vantagem comparativa” em ir para o estrangeiro. Mais: os jovens não devem ter medo dos cursos difíceis. “O esforço que possam fazer é sempre compensado.”

Mesmo quando esteve na Fundação Calouste Gulbenkian, responsável por outras matérias, Marçal Grilo fez sempre questão de dar o seu contributo em matéria de Educação. E uma vez mais não se furta a responder. Sim, a escola ainda não mudou como seria preciso: “O meu avô era professor primário no final do século XIX e eu costumo dizer que o meu avô hoje podia dar uma aula. A escola vai ter de dar um grande salto.” Sendo que “estamos à espera desse salto há muitos anos”. Ele não surgirá por decreto, afirma. Mas é preciso um pacto, para que não esteja sempre tudo a mudar.

São importantes feiras como a Futurália?
É uma área muito importante. Hoje a Futurália é um nome com peso, credibilidade e prestígio. Sob este título é possível fazer outras coisas além da mostra. Este é um momento importante em que estudantes, professores e pais têm oportunidade de contactar com instituições portuguesas e estrangeiras, centros de formação, etc. Há uma série de instituições que têm uma oportunidade única de se mostrar ao público.

É uma forma de vender a educação como outro tipo de produto?
Não diria vender. O país conhece mal o bom que se faz em matéria de educação. Ali, as coisas adquirem um carácter de normalidade — aqui está uma escola que faz isto, outra que faz aquilo… E existe a possibilidade de os estudantes terem contacto com experiências de pessoas que passaram por essas escolas. É um grande momento e uma oportunidade única de ter no mesmo espaço as áreas da formação profissional, os politécnicos e as universidades.

Quais são as novidades desta edição?
Não há propriamente novidades, mas as universidades, politécnicos e escolas profissionais estão mais mobilizados para aumentar a qualidade da informação que fornecem. Uma das coisas que me preocupam é que os estudantes dos 14 aos 17 anos, entre o 9.º e o 12.º anos, perguntam: “O que é que faço com esse curso?” E hoje, o que encontramos é o seguinte: há uns anos quem escolhesse um curso de Física ia ser professor de Física, hoje vão fazer as coisas mais diversas. Isto mostra duas coisas: para o aluno, o mais importante é fazer um curso bem feito; do ponto de vista da instituição, o mais importante é oferecer cursos consistentes. É o que permite ao estudante desempenhar as mais variadíssimas profissões.

Os actuais cursos superiores, mais curtos, permitem ter uma boa formação de base?
Permitem. Todos os cursos têm virtudes se forem bem ministrados, se houver preocupações com as aprendizagens. Porque não basta ensinar, é preciso que os alunos aprendam! Se tivermos estudantes que a única coisa que fazem é ver televisão, não vão muito longe. É preciso que leiam, que naveguem na Internet, que se abram ao mundo.

Apesar do desemprego, continua a fazer sentido dizer aos jovens para prosseguirem para o ensino superior?
Acho que não podemos ter um país só de doutores, mas há formações de vários níveis. Os jovens não devem sentir desmotivação e devem procurar fazer um curso. E não ter medo dos cursos difíceis, porque o esforço que possam fazer é sempre compensado. Mas isso não significa que vão ficar todos ricos do ponto de vista material.

Vão ter de sair do país para ficarem ricos?
Não vejo um drama muito grande na saída. Era desejável que ficassem, mas a saída é um enorme enriquecimento. Muitos regressam com uma experiência enorme, as pessoas ficam colocadas em redes internacionais onde o conhecimento continua a ser gerado.

Com o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos, os alunos não vão todos para a universidade…
Pois não, vão para os politécnicos e para as escolas profissionais. É preciso não menosprezar este ensino que cria uma mão-de-obra que está mais adaptada às empresas, mas não esquecer que mesmo nas escolas profissionais não se faz formação para um posto de trabalho, esse é feito na própria empresa. Numa área onde ainda há muito a fazer é na relação entre as escolas e as empresas. Por exemplo, doutorados em empresas: Portugal tem 3%, a média europeia é 30%. Portanto, é necessário ter gente nas empresas com uma linguagem para dialogar com académicos e estes não podem menosprezar o que se faz nas empresas.

Acabar com o ensino vocacional, como fez este Governo, é um erro?
Corria-se o risco de que, ao nível dos 5.º, 6.º e 7.º anos do ensino básico, as escolas tivessem tendência a arrumar no ensino vocacional aqueles que até ao 4.º ano não alcançassem determinados patamares de conhecimento ou desenvolvimento. Isso pode ser um erro grave porque as crianças não se desenvolvem todas ao mesmo ritmo e são atirados para um beco sem saída. Perturba-me porque há miúdos que parece que não têm aptidão e depois mostram-na.

Então defende um ensino profissional a partir do secundário?
É fundamental incentivar muita gente a ir para o profissional.

Não é um ensino que continua a ser visto como de segunda, uma vez que as escolas empurraram para o profissional os alunos com mais insucesso?
Isso é errado. Acredito que um ensino profissional feito com objectivos muito concretos é absolutamente essencial para o país.

Concorda com a ideia de ter cursos técnicos superiores profissionais?
É uma forma de ter formações que não são um beco sem saída e dá a possibilidade de prosseguir para o ensino superior.

Esta é uma forma de colmatar a falta de alunos nos politécnicos?
Desde que os politécnicos assumam o seu verdadeiro papel. São tão importantes como as universidades.

Mas alguns continuam a querer ser universidades.
Se assim for, não são uma coisa nem outra porque não basta a designação, é preciso que as instituições tenham um DNA. O ensino politécnico quanto mais politécnico for, mais útil é e mais se dignifica. A dignificação do ensino não se faz pelo que as instituições dizem que fazem, mas pelo que os seus diplomados fazem. E temos muitos exemplos bons. Além disso, os politécnicos são elementos essenciais no desenvolvimento das suas regiões. É importante que as instituições se articulem entre si, o que permite a optimização de recursos; e também que se articulem com as universidades, mas não há aqui um único modelo para seguir. O modelo é não haver modelo!

Na Futurália também estão presentes instituições estrangeiras. Fazem concorrência às portuguesas?
Não digo que exista concorrência. Os alunos optam por essas instituições para fazer Erasmus. Estas estarem presentes é uma forma de enriquecerem os nossos próprios cursos, porque mostram aos estudantes que, frequentando uma universidade portuguesa, também podem ter acesso a outras. Mas as estrangeiras também vêm para captar estudantes em áreas onde há limitações por causa dos numerus clausus.

Sem ser para fazer Erasmus, por que optam os alunos portugueses por uma universidade estrangeira?
Muitos vão para Espanha e para a República Checa por causa de Medicina. Ou áreas muito específicas… Mas nós temos instituições que recebem 10% a 15% de estudantes estrangeiros, portanto também somos um país atractivo.

Então não faz sentido ir para fora porque as nossas instituições são boas?
Eu sou favorável a que os estudantes façam a primeira parte da sua formação em Portugal e depois se verá. Porque há cursos, em muitas áreas, em que não há vantagem comparativa. É evidente que determinadas áreas temos de ter a noção da nossa dimensão e ser humildes. Não temos, sobretudo, o prestígio de Cambridge, Imperial, Oxford, Yale, MIT, etc, que são nomes míticos.

O mercado de trabalho olha de maneira diferente para quem vem de fora?
Obviamente que o sítio em que se formou tem muita importância, até há empresas que dizem que das universidades A, B, C e D não querem ninguém, o que é um erro, porque dessas também pode vir gente qualificada. Mas a selecção é sobretudo feita com base na pessoa. A entrevista tem um papel decisivo nos processos de selecção.

Aprende-se a responder à entrevista na escola?
Há três coisas fundamentais que a escola tem de dar. Uma são os conhecimentos. Depois, há outras aptidões, que têm a ver com as atitudes e comportamentos: a capacidade de liderança, de trabalhar em grupo, a responsabilidade, a iniciativa, o espírito inovador, a capacidade de se ajustar à mudança. E depois existe uma terceira, que são os valores, o sentido ético, o respeito pelos outros.

Das três, diria que a escola só dá a primeira.
A escola dá a primeira e a segunda. Depende da maneira como a pessoa trabalha dentro da escola. A atitude e comportamento depende do próprio, do ambiente em que vive, da família e da forma como a escola funciona. Não há aulas dessas coisas, mas há aulas que permitem que as pessoas seja ginasticadas nessas coisas. Depende do método de ensino, da forma como se trabalha em conjunto…

Mas a escola continua a ser desigual e os alunos não chegam com as mesmas ferramentas. Como se faz a escola do século XIX chegar ao século XXI?
O meu avô era professor primário no final do século XIX e eu costumo dizer que o meu avô hoje podia dar uma aula. A escola vai ter de dar um grande salto.

Já devia ter dado.
Nós estamos à espera desse salto há muitos anos! Mas vai ter de acontecer, não basta modificar a sala de aula, mas também a metodologia da sala de aula e o trabalho dos estudantes, articulado com as novas tecnologias. A maneira como se trabalha tem de mudar.

Esse salto vai ser dado quando o Ministério da Educação disser: “Meus senhores, agora vamos trabalhar de maneira diferente”?
Não, isso vai depender de escola para escola e esse salto vai ser dado de baixo para cima.

Não está a ser optimista?
A minha ideia é que se dermos às escolas um maior grau de autonomia, de responsabilização da escola e dos professores individualmente, estou convencido de que temos suficientes casos pela Europa, e mesmo em Portugal, que mostram que a mudança se faz de baixo para cima.

Como por exemplo? Estamos a falar da Escola da Ponte, que é um exemplo há 20 anos?
Num processo de mudança há sucessos e insucessos e é preciso saber gerir os insucessos. Os portugueses têm uma certa tendência para, perante o insucesso, desistirem. E este, por vezes, é a melhor forma de aprender para ter sucesso. É preciso ser persistente, determinado e perceber bem os sinais que o insucesso dá. Por que estamos a falhar? O que temos de fazer para melhorar? Isto é de grande importância para o futuro da escola e dos professores.

Mas como é que os professores podem ter essa vontade se está sempre tudo a mudar?
Nós temos que mudar, mas é preciso saber como se muda...

Devia haver um pacto entre os partidos do arco da governação?
Não deve, mas tem de haver um acordo que traduza um compromisso. Lembra-se que em 1996, eu no Parlamento lancei a ideia de um pacto educativo. Ninguém pegou e uns anos depois começaram a falar nisso. Um acordo não pode ser feito ou à esquerda ou à direita, mas tem de ser uma coisa que tem de cruzar, para que não haja a ideia de que de quatro em quatro anos se pode pôr tudo em causa. Há coisas que não devem ser postas em causa. Por exemplo, o processo de avaliação.

Os exames deviam ter sido mantidos? Porque neste caso podemos falar de alguma continuidade: começaram com David Justino (PSD), mantiveram-se com Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada (PS), e Nuno Crato (PSD) introduziu-os no 4.º ano.
O exame do 4.º ano é discutível, na minha perspectiva. Um exame é uma prova que se faz e a vantagem é ser nacional e aferir os estudantes todos. As provas de aferição podiam fazer isso, mas estão muito descredibilizadas.

Então a decisão deste ministério em fazer provas de aferição não foi a melhor?
Os ingleses dão muita importância às provas de aferição porque são vistas como exames nacionais. Aliás foi de lá que eu trouxe essa ideia. E estas provas deveriam ser entendidas pelas escolas, famílias, estudantes e professores exactamente como tendo a mesma importância que um exame nacional, porque permite às escolas saber o que estão a fazer e o que os seus alunos sabem. Mas, como não contam para a nota, não têm prestígio.

Os alunos vão à Futurália só receber os papéis que lhes são dados pelas instituições ou também esclarecem dúvidas?
As escolas inscrevem-se e os alunos têm a oportunidade de participar em conferências, apresentações, mas a mostra também tem um lado lúdico porque existem actividades como, por exemplo, as que proporcionam as instituições militares. Mas há um aspecto que nos tem vindo a preocupar, que é a utilização das novas tecnologias. Os jovens têm uma relação com as novas tecnologias tão intima e às vezes tão viciada que se torna difícil colocar a atenção deles noutros materiais. Em próximas Futurálias podemos ir ao encontro dos instrumentos que eles utilizam e tentar pôr aí a informação.