Morreu Nicolau Breyner, um pilar da ficção televisiva portuguesa

Actor e realizador tinha 75 anos e uma carreira de mais de cinco décadas que também tocou o cinema e o teatro.

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Nicolau Breyner em 2007 Rui Gaudêncio
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2007 Rui Gaudêncio
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O actor em 2003 David Clifford
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2005 Luís Ramos
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Na novela Vingança, da SIC DR
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2005 Luís Ramos

“O país vai mais triste, Sr. Contente.” A frase, em jeito de epitáfio, com que a RTP noticiou esta segunda-feira a morte de Nicolau Breyner não podia ser mais certeira na expressão do sentimento que varreu o país. “Surpresa”, “tristeza”, “vazio” foram palavras trocadas por todos quantos lamentaram o inesperado desaparecimento do actor, que morreu na sua casa de Lisboa, aos 75 anos.

Com uma carreira de mais de meio século, Nicolau Breyner marcou ao longo desse tempo, com a sua presença física, com o seu humor, mas também com a capacidade de se transmutar em personagens dramáticos, o teatro, a televisão e o cinema no país.

“O Nicolau Breyner faz parte da memória colectiva de Portugal e dos portugueses. Era um extraordinário actor, um óptimo director de actores e um companheiro de trabalho maravilhoso”, disse ao PÚBLICO a actriz Lia Gama, que com ele mantinha uma relação de amizade iniciada na juventude de ambos, nos tempos do Conservatório, em Lisboa.

Nuno Artur Silva, administrador responsável pelos conteúdos na RTP, lembrou tratar-se de “um dos grandes actores portugueses”, mas também de alguém que inovou as formas de fazer televisão no nosso país, e não apenas por ter sido co-autor e actor da primeira telenovela portuguesa, Vila Faia, em 1982. “Logo a seguir ao 25 de Abril [de 1974], com o seu programa Nicolau no País das Maravilhas [1975], ele começa a mudar a maneira de fazer humor na televisão portuguesa, abrindo caminho para o Herman José – que lançaria através da rubrica Sr. Feliz, Sr. Contente – e para O Tal Canal”, acrescenta Nuno Artur Silva, que lembra, ainda nos anos 70, “uma espécie de ensaio” que Nicolau Breyner fez numa paródia às telenovelas, no seu programa Moita Carrasco.

Cinco décadas de TV em Portugal em vídeos da carreira de Nicolau Breyner

Herman José recorda essa sua entrada no país de Nicolau como “uma espécie de Euromilhões” para o lançamento da sua carreira. Tinha contracenado, pela primeira vez, com Breyner na revista dos tempos revolucionários Uma no Cravo, outra na Ditadura, de Ary dos Santos. “Ele reconheceu em mim algum talento ainda por burilar, e aproximámo-nos porque estávamos perto um do outro, em termos de formação e de educação”, recorda o actor, acrescentando que nos três anos seguintes ficou sob a sua guarda, até encontrar o seu próprio caminho, com O Tal Canal.

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Nicolau Breyner na rodagem de Jaime (1999), António-Pedro de Vasconcelos Mário Marques

“Ele foi sempre muito solidário comigo”, acrescenta Herman, dizendo que foi dele que recebeu “o primeiro elogio” para a sitcom que actualmente está  fazer para a RTP, Nelo e Idália.

Herman não tem dúvidas de que Nicolau Breyner marcou o teatro e a televisão que se fez em Portugal em diferentes momentos, “como um moderno, antes e logo após o 25 de Abril”, depois, como uma espécie de “cómico do regime”, e finalmente, a partir dos anos 90, “encontrando a sua persona de primeiríssimo actor, tanto na televisão como no cinema”, e cita, como exemplo, os filmes que fez com António-Pedro Vasconcelos.

O crítico do PÚBLICO Augusto M. Seabra destaca também, entre as várias dimensões da carreira de Nicolau Breyner, o humor televisivo: “Tinha uma produção humorística para a televisão, como a comédia O Espelho dos Acácios e o programa Eu Show Nico, que foi muito importante, e onde mostrava uma grande versatilidade.” Augusto M. Seabra lembra ainda que Nicolau Breyner foi “um produtor importante” das telenovelas portuguesas, tendo lançado “a primeira produtora que se dedicou mais expressamente às novelas” – a NBP Produções.

Depois de ter tido problemas com a sua produtora, Nicolau Breyner mudou-se, em 2008, para a TVI, onde trabalhou em séries e programas como Flor do Mar, Equador e também Morangos com Açúcar. Actualmente estava a filmar A Impostora, uma nova telenovela daquela estação.

Se a sua imagem televisiva é aquela mais declaradamente impressa no imaginário do espectador português, no cinema Nicolau Breyner assinaria interpretações bastante mais dramáticas e contidas.

Aqui destaca-se a sua colaboração com António-Pedro Vasconcelos, com quem trabalhou em cinco filmes: Jaime (1999), Os Imortais (2003), Call Girl (2007), A Bela e o Paparazzo (2009) e Os Gatos não Têm Vertigens (2014).

Vasconcelos diz que realizou Os Imortais a pensar nele como actor, e acha que com esse filme, e já depois de Jaime, Nicolau Breyner se "libertou um pouco da sua imagem televisiva" e ganhou dimensão de actor de cinema. "É um actor completo, capaz de traduzir todas as emoções e passar de umas para as outras sem problemas." E acrescenta que "ele tinha simultaneamente a capacidade da descontracção e da concentração, e de improvisar sempre dentro da linha justa" para o filme. "Encarnava a ideia expressa na palavra francesa 'jouer' e inglesa 'play', que significa simultaneamente interpretar e brincar", prossegue o realizar de Call Girl.

Joaquim Leitão dirigiu o actor em Inferno (1999), um filme de acção que decorre no Portugal contemporâneo e que reflecte sobre a guerra colonial. “Foi um dos actores mais naturalmente dotados com que já trabalhei”, diz o realizador deste filme em que Breyner interpretou a personagem de um ex-combatente, e que teve também aqui um dos seus mais relevantes papéis dramáticos no cinema português. “O que era notável no Nicolau é que nasceu para ser actor e esse talento natural era uma coisa óbvia sempre que se punha diante de uma câmara. Era uma pessoa que fazia as coisas com uma facilidade enorme e fazia-o instintivamente bem”, diz Leitão.

Representar, para Nicolau Breyner, não era uma coisa sofrida, “concentrava-se 30 segundos antes do take e fazia-o tão bem quanto outros que estão imersos no personagem 24 horas por dia”, acrescenta o realizador. Joaquim Leitão recorda-o ainda como "uma pessoa de grande simpatia, que, “embora tivesse um estatuto de grande senhor, era muito fácil trabalhar com ele” nas filmagens; estava sempre “muito bem-disposto”.

Esta faceta é igualmente relevada por Nuno Artur Silva, que diz que Nicolau Breyner tinha “o carisma das estrelas, mas era simultaneamente de “uma enorme generosidade”. Além disso, estava “sempre atento àquilo que acontecia à sua volta, e em busca de novos actores e criadores”.

Dos filmes com Vasconcelos, o papel em Os Imortais o "seu" inspector Joaquim Malarranha é de novo uma grande interpretação em cinema e novamente Breyner se filia naturalmente numa singular vocação dos actores a quem chamamos "cómicos", que episodicamente, mas de forma determinada, se enchem de drama e de frustração (recorde-se a propósito o Raul Solnado de Dom Roberto, em 1962, ou de A Balada da Praia dos Cães, em 1982) – valeu-lhe o Globo de Ouro de melhor actor, prémio que arrecadaria também pelo seu trabalho em Kiss Me, de António Cunha Telles; e O Milagre segundo Salomé, de Mário Barroso.

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Lia Gama disse ao PÚBLICO que na semana passada tinha participado com o actor numa prova de guarda-roupa para o próximo filme de Sérgio Trefaut, Seara de Vento, adaptação do romance homónimo de Manuel da Fonseca, cuja rodagem estava prevista para começar em Abril. "É um enorme vazio que fica", lamenta a actriz.

Se é genericamente unânime o elogio do trabalho de Nicolau Breyner frente às câmaras, já as suas experiências como realizador de cinema – por exemplo, 7 Pecados Rurais (2013), que foi um razoável êxito de público – suscitam reservas do ponto de vista do seu relevo artístico. Como realizador de cinema, “é apenas a continuação da sua faceta de faz-tudo, tendo sido a realização de um sonho, e penso que não tem interesse de maior”, diz Augusto M. Seabra.

No vasto leque de actividades a que Nicolau Breyner emprestava o seu nome e a sua energia esteve também a política, ainda que de forma episódica. Em 1995, e apesar de ter afirmado que nunca teve ambições políticas, candidatou-se às eleições autárquicas para a câmara da sua terra natal, Serpa, pelo CDS-PP. Perdeu. Mas voltou à luta eleitoral oito anos depois, à assembleia municipal, desta vez sob a bandeira do Partido da Nova Democracia (PND).

Foram meros intervalos na vida e carreira de alguém que tinha sempre “mil projectos à sua frente”, como refere Nuno Artur Silva o mais recente foi a criação de uma escola de actores.

Nascido em Serpa, a 30 de Julho de 1940 – era primo da poeta Sophia de Mello Breyner –, Nicolau Breyner radicou-se em Lisboa para frequentar o Liceu Camões, e depois o Conservatório, inicialmente com o intuito de ser cantor de ópera. “Nunca tinha pensado ser actor. O meu pai disse que a ópera era uma arte cénica e que tinha de ir para o Conservatório para aprender teatro e juntar as duas coisas. Comecei a perceber que não tinha coragem para manter aquela disciplina... A vida de um cantor de ópera é como a de um bailarino. O que se come, o que se bebe, o sol que não se apanha. Não era isso que queria aos 20 anos. Entretanto, o Conservatório começou a tomar conta de mim, e cá estou”, disse em entrevista ao PÚBLICO.

Estreou-se no teatro na peça Leonor de Telles, de Marcelino Mesquita, no Teatro da Trindade, em Lisboa; e no cinema em A Raça (1961), de Augusto Fraga. Seguiu-se mais de meio século de uma carreira extensa. E que “termina agora no auge”, diz Herman José. “É como sair de uma peça, que correu bem”, nota o actor criador de O Tal Canal, confessando o “sentimento contraditório” que lhe motiva a morte do amigo: de um lado, a perda, de outro, saber que ele saiu de cena sem ter sido confrontado com a decadência. “E ele merece a solidariedade que se reuniu agora perante o seu desaparecimento, no auge da sua carreira”, conclui Herman.

com Cláudia Lima Carvalho, Isabel Salema e Hugo Torres