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Não quero ser confundido com uma velha

Como também não é bom, é óptimo, que a McDonalds decida acabar de vez com os questionários “pró menino e prá menina”

A Zara resolveu apostar numa linha de vestuário que não é carne, nem é peixe. É assim uma espécie de tofu da roupa. Quem não quiser comprometer-se com as proteínas de uma boa posta à mirandesa ou com as espinhas de uma dourada grelhada, pode sempre optar por um alimento parecido com o queijo, mas que não é exactamente queijo, feito à base de leite de soja, mas que tecnicamente não é bem soja. Descontando as eventuais imprecisões técnicas na descrição deste alimento – que me relevem os puristas –, a linha de vestuário que a Zara se lembrou de colocar no mercado é isso. Melhor dizendo: não é nada disso.

Estou mesmo a imaginar-me a passear na rua ao lado de uma amiga com melena comprida idêntica à minha, calçada com umas sapatilhas brancas iguaizinhas às minhas e vestida com umas calças azuis ganga e um pólo cinzento comprado na mesma secção de “indiferenciados” do que os meus. Tudo muito certo, até ao momento em que alguém nos aborda na rua para pedir indicações acerca de um bom restaurante que haja nas imediações. Não é possível descrever a cara de espanto do incauto transeunte quando percebe que eu sou eu e que ela, afinal, é ela. Nada de corzinhas diferentes, muito menos nos cortes da roupa. “Desculpe mas, visto de trás, são… iguais.”

Olhando para esta campanha publicitária e para as reacções que se lhe seguiram, só me ocorre aquela crónica de Ricardo Araújo Pereira, “O Velha”. Com Portugal atolado em problemas de vária índole, o personagem Adérito Ribeiro estava indignado, porque o seu filho “visto de trás, parece uma velha”. É exactamente isso que vai acontecer, se a moda pega. Vistos de trás, os adolescentes portugueses vão todos parecer uma velha. E isso não é bom.

Como também não é bom, é óptimo, que a McDonalds decida acabar de vez com os questionários “pró menino e prá menina”. Gostos e opções de vida podem discutir-se, sim senhor, e os Happy Meal azuis ou cor-de-rosa continuarão a ser servidos. O que mudam são os questionários no masculino ou no feminino. É justo.

Bem mais importantes, senhoras e senhores, são conclusões como as revela um estudo da consultora Mercer, a propósito do Dia Internacional da Mulher. “A manterem-se as actuais políticas de recrutamento, promoção e retenção de mulheres nos cargos de topo, nem daqui a 10 anos será atingida paridade no que toca à presença de homens e mulheres na liderança das empresas.” Estabeleçamos prioridades. Por isso, nem Zara, nem McDonalds. Até porque não estou para andar na rua, sossegado, a comer o meu Happy Meal e ser confundido com uma velha.

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