Monarquias do Golfo consideram Hezbollah "organização terrorista"

Países do Conselho de Cooperação do Golfo acusam a milícia xiita de "actos hostis". O Irão e o Hezbollah condenaram a decisão, alertando para a instabilidade no Líbano.

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O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, disse que a decisão é "imprudente e hostil" Reuters

O Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), constituído por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait e Omã, classificou formalmente o Hezbollah como “organização terrorista”.

Abdullatif al-Zayani, secretário-geral do GCC, acusa a milícia xiita libanesa de cometer “actos hostis” contra os países do Golfo, nomeadamente o “recrutamento de jovens para ataques terroristas, contrabando de armas e explosivos e incitamento à violência”. As petromonarquias denunciam ainda a cumplicidade do Hezbollah com os rebeldes huthi no Iémen e a responsabilidade do grupo no aumento da violência por parte das minoritas xiitas nos países do Golfe, maioritariamente sunitas. 

Esta decisão surge duas semanas depois de a Arábia Saudita ter cancelado um plano de ajuda no valor de quatro mil milhões de dólares (cerca de 3.6 mil milhões de euros) ao Líbano, que tinha como objectivo fortalecer os serviços de segurança do país. Logo de seguida, com medo de represálias, Riad apelou aos sauditas a residirem no Líbano para que regressassem ao país.

Perante este anúncio, o secretário-geral do Hezbollah, o general Hassan Nasrallah, reagiu de uma forma bastante crítica, considerando a decisão do GCC "imprudente e hostil". “O reino [saudita] está a colocar pressão sobre o Líbano para tentar silenciar-nos, mas não seremos silenciados pelos crimes que os sauditas estão a cometer no Iémen e em outros lugares”. “Se têm um problema connosco, deixem-no connosco, e poupem o Líbano e os libaneses”, afirmou.

O Irão também reagiu esta quinta-feira através do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, que avisou para o risco de instabilidade. “Aqueles que consideram o Hezbollah uma organização terrorista estão a comprometer a segurança e estabilidade do Líbano”, afirmou, citado pela agência noticiosa IRNA.

As rivalidades crescentes entre Arábia Saudita e Irão têm agitado grande parte do Médio Oriente, onde as duas potências têm explorado as divisões sectárias para se enfrentarem através de conflitos por procuração, o que tem aumentado o conflito entre sunitas e xiitas. 

Um ponto particularmente crítico na relação entre Riad e Teerão é a guerra na Síria, onde os dois países estão a combater em lados opostos. O Irão faz parte das forças que apoiam o regime de Bashar al-Assad e tem financiado o Hezbollah, que combate directamente no terreno. Já a Arábia Saudita, fornece armas e dinheiro a rebeldes que combatem o regime do actual presidente sírio.

A tensão entre sauditas e iranianos levou ao corte de relações entre os dois países em Janeiro, na sequência de protestos contra a execução do líder religioso xiita Nimr al-Nimr. 

Alguns analistas consideram que o actual momento da guerra da Síria poderá ter levado a Arábia Saudita e as restantes monarquias do Golfo a exercer pressão sobre o Líbano, de forma a tentar afectar o Irão. Outros, porém, consideram que o recuo na ajuda ao Líbano e consequentes acusações ao Hezbollah poderão reflectir um enfraquecimento financeiro por parte da Arábia Saudita, afectada pela quebra nos preços do petróleo e pelo custo do seu envolvimento no conflito no Iémen.

Robert Fisk, premiado correspondente do Independent em Beirute e especialista em assuntos do Médio Oriente, considera que quem irá beneficiar com a tensão entre as monarquias do Golfo e o Líbano será o Irão. Praticamente livre das sanções internacionais, o país poderá substituir a Arábia Saudita como “salvador financeiro” do Líbano, o que na opinião do jornalista, poderá levar a república islâmica a desempenhar o papel de “novo polícia” do Médio Oriente.

O Líbano está sem presidente há dois anos e vive num autêntico impasse político, sendo que o conflito entre Riad e Teerão tem aprofundando ainda mais as divisões sectárias no país.