Conferência Episcopal e CDS condenam cartaz do Bloco

Bloco responde dizendo respeitar "todas as convicções religiosas" e que o seu objectivo era contribuir para, "sem tabus, provocar o debate" e "assinalar mais um avanço pela dignidade das pessoas e por todas as famílias". Marisa Matias considera que foi "um erro".

Foto
Enric Vives-Rubio

O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), Manuel Barbosa, considerou “uma afronta aos crentes” o uso de uma imagem de Jesus Cristo numa campanha do Bloco de Esquerda (BE) em defesa da adopção por casais homossexuais. Também o CDS reagiu ao início da tarde, tendo o deputado Pedro Mota Soares representando uma "ofensa gratuita à sensibilidade de muitos portugueses".

Pouco depois, o BE emitiu um esclarecimento onde afirma respeitar "todas as convicções religiosas" e dizendo que o seu objectivo era contribuir para, "sem tabus, provocar o debate" e "assinalar mais um avanço pela dignidade das pessoas e por todas as famílias".

Quem tem uma opinião diferente é Marisa Matias. A eurodeputada e candidata presidencial pelo BE, questionada no Facebook sobre a polémica, considerou que o cartaz com a imagem de Jesus "saiu ao lado da intenção que se pretendia". "Foi um erro", escreveu.

O BE divulgou um cartaz com a imagem de Jesus Cristo no qual se lê “Jesus também tinha 2 pais” e que pretende assinalar a data de 10 de Fevereiro de 2016, dia em que o Parlamento confirmou as leis vetadas por Cavaco Silva, em final de Janeiro, sobre a adopção por casais homossexuais e as alterações à lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.

O porta-voz da CEP considera que o cartaz “afronta os crentes que seguem Jesus Cristo e os que são da Igreja, naturalmente”. “Deve haver respeito pela liberdade de expressão. Sabemos que esse respeito deve ser sempre um respeito mútuo. A liberdade implica sempre relação e corresponsabilidade e, este respeito mútuo, não sei se estará presente no anúncio deste cartaz”, sublinhou.

No entender de Manuel Barbosa, a imagem usada pelo BE é “uma analogia sem sentido”. “Essa dos pais espirituais é abusiva. Penso que há um certo aproveitamento, num período em que na Igreja se está a viver um tempo forte de Quaresma, depois a Páscoa e o Ano da Misericórdia. Não sei se é coincidência ou se é propositado”, argumentou.

Manuel Barbosa disse que o cartaz “vale o que vale”, realçando que “há coisas mais importantes”. “É de lamentar que não se tenha em atenção as convicções de quem segue Jesus Cristo, mesmo que este cartaz já tenha sido feito noutros países. É uma cópia de muito mau gosto”, sustentou. O responsável disse ainda esperar que o cartaz “não seja motivo para desviar a atenção em relação aos problemas da vida das pessoas”.

CDS: "Ofensa gratuita à sensibilidade" 
Também o CDS-PP lamentou o cartaz do Bloco de Esquerda (BE) em defesa da adopção por casais homossexuais que, com a imagem de Jesus Cristo, representa na óptica dos centristas "uma ofensa gratuita à sensibilidade de muitos portugueses".

"Este cartaz é uma ofensa gratuita à sensibilidade de muitos portugueses, crentes ou não crentes. Em política, como na vida, podemos discordar das ideias dos outros, mas não devemos ofender os sentimentos dos outros", vincou o parlamentar centrista Pedro Mota Soares, aos jornalistas no parlamento.

Para Pedro Mota Soares, "a liberdade de expressão é uma liberdade total", mas há uma outra coisa a ter em conta, "que é a sensibilidade das pessoas".

"Na minha sensibilidade pessoal, não acho que a maioria dos portugueses se revê neste tipo de atitudes", vincou o parlamentar do CDS-PP, que lembra ainda que o Bloco se afirma "todos os dias como laico" e se permite agora "utilizar imagens religiosas para alegadamente tirar um proveito político" das mesmas.

"Recurso ao humor", diz BE
No seu esclarecimento, o BE afirma que a imagem polémica "não se trata de um cartaz, mas da forma de, nas redes sociais, com recurso ao humor, chamar a atenção para a conquista da igualdade entre todas as famílias. A frase, de resto, não é da autoria do Bloco, sendo um velho slogan do movimento internacional pela igualdade de direitos". O Bloco admite ter afirmado ao PÚBLICO que essa imagem seria um cartaz integrado na campanha nacional e que iria para as ruas em todo o país no sábado. Recusa, no entanto, que o recurso às redes sociais seja um recuo ou uma mudança de estratégia, mas a verdade é que o esclarecimento surge depois de ter estalado a polémica..

"O Bloco de Esquerda respeita todas as convicções religiosas. Com estas iniciativas, pretendeu contribuir, como sempre fez, para, sem tabus, provocar o debate e, neste contexto, assinalar mais um avanço no respeito pela dignidade das pessoas e por todas as famílias. Estamos certos de encontrar, entre crentes e não crentes, uma grande maioria que partilha connosco esta motivação", conclui o esclarecimento enviado às redacções.

Ao início da tarde, em declarações aos jornalistas no Campo Pequeno, em Lisboa, - local onde se encontra o cartaz com a palavra "Igualdade" -, a deputada do BE Sandra Cunha explicou que a "imagem que está a circular na internet não é uma palavra da ordem da autoria do BE, mas sim do movimento internacional pelo direito à igualdade e foi aproveitada para, com recurso ao humor, se conseguir chegar à discussão na sociedade".

"Não se pretende de nenhuma forma ofender nem teve qualquer caráter ofensivo. O BE respeita e tem o maior respeito por todas as convicções religiosas e estamos certos que temos uma grande maioria de crentes e de não crentes que estarão connosco por estas famílias e por esta diversidade", sublinha.

A deputada bloquista recusa a ideia de que a utilização desta imagem seja uma "afronta", afirmando que "não foi esse o objectivo, nem é essa a mensagem, mas pelo contrário". "Conhecemos uma enorme maioria de crentes que estiveram connosco nestas lutas, que estiveram envolvidas desde o início. Tenho a certeza que eles continuam deste lado e continuam a apoiar esta visibilidade para estas famílias e para as crianças", adiantou.

Sugerir correcção