Entrevista

“A Arco é o portão para a arte latino-americana na Europa”

O futuro da feira de arte contemporânea de Madrid é para ser imaginado agora. É esse o tema quando a Arco faz 35 anos e quer chegar a Lisboa, explica o director, Carlos Urroz.

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Carlos Urroz Enric Vives-Rubio

Carlos Urroz, o espanhol que dirige a Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid (ArcoMadrid), tem um duplo desafio este ano: mostrar que se podem fazer feiras sem ter um país convidado e internacionalizar a marca, exportando-a para Lisboa. A ArcoMadrid começa já nesta quarta-feira para os visitantes profissionais (na sexta chega o público), numa edição que também será marcada pelas expectativas em relação à ArcoLisboa, que abre as portas na Cordoaria Nacional a 26 de Maio.

Esta entrevista foi feita durante uma visita de Carlos Urroz a Lisboa, onde esteve este mês a trabalhar com o comité de galeristas portugueses e internacionais que preparam a feira da Cordoaria, e a apresentar a ArcoMadrid, que este ano faz 35 anos e tem um programa especial organizado em redor do aniversário, Imaginando Outros Futuros.

Em Madrid, entre 221 galerias espanholas e internacionais, vão estar 11 portuguesas, a maioria no programa geral: 3+1 Arte Contemporânea, Baginski, Cristina Guerra, Filomena Soares, Graça Brandão, Murias Centeno, Pedro Cera, Vera Cortês (todas de Lisboa), Mário Sequeira (Braga) e Quadrado Azul (Porto). A Galeria Kubik de Lisboa participará no programa latino-americano com o brasileiro Felipe Cohen, artista que já esteve nos Solo Projects em 2010.

Só da América Latina, estão presentes 47 galerias de dez países, significando 30% das galerias estrangeiras – que, por sua vez, representam 72% do total. 

Quão importante é a América Latina para a Arco neste momento? É essa a principal característica da feira, ser o local onde os europeus podem ver o que está a acontecer nessa região do mundo?
A Arco sempre esteve muito interessada na América Latina, que até agora tem sido muito, muito importante. As principais galerias da América Latina têm participado na feira e estão nos comités organizativos, nas conferências, nos coleccionadores que convidamos, nos prémios que damos, nas obras compradas pela Fundação Arco. A América Latina, para nós, é algo muito transversal.

Quando a Arco foi fundada há 35 anos, a América Latina ainda era algo muito exótico, não era muito bem percebida pelas galerias importantes ou pelos museus principais, mas hoje, felizmente, e em parte por causa da Arco, a arte da América Latina passou a ser exibida com muito mais frequência, quer em instituições quer em museus.

A Arco é o portão para a arte latino-americana na Europa. Temos pessoas que vêm dos museus mais importantes, do Pompidou, da Tate, focadas basicamente na arte latino-americana.

Acha que essa marca, esse link com a América Latina, é a razão principal que faz da Arco uma feira relevante?
Acho que é uma das razões, mas há outras, como termos um programa de coleccionadores convidados que não vão a outras feiras. A organização, ou o conceito da feira, que permite que as galerias façam apresentações individuais dos artistas, também é um atractivo para galerias que fazem várias feiras e que aqui podem destacar um artista. Há muitos factores envolvidos.

Porque decidiram celebrar este aniversário dos 35 anos?
Pensámos que era um bom momento da economia para experimentar algo novo, para envolver toda a cidade com o apoio da câmara e da região de Madrid. É um bom momento para fazer uma coisa mais visível e diferente.

Porque é que este ano não há um país convidado em Madrid? Estão a repensar esse conceito ou é uma circunstância?
É uma circunstância. O 35.º aniversário vai ser muito importante, nós queremos sublinhar a própria feira, o que aconteceu nestes 35 anos. É também uma forma de estudar novos formatos. O formato geográfico que apresenta um novo país tem muito sucesso, mas isto também nos ajuda a fazer ligações com mais galerias internacionais que não sejam só de um país.

Significa que o investimento geralmente feito para apresentar um país convidado pode ser testado noutras maneiras de trabalhar?
Este ano, como é o 35.º aniversário da feira, o tema é a Arco, mas talvez exploremos apresentações temáticas no futuro. No entanto, em 2017, a ArcoMadrid vai ter novamente um país convidado [será divulgado no final do mês].

Como é que vê estes seis anos, o que é que foi mais difícil para si como director? Quais são as mudanças que acha que conseguiu fazer?
O mais difícil é a situação económica, porque tem sido duro. Com as instituições sem dinheiro, os coleccionadores a serem muito tímidos, tem sido muito difícil. Temos trabalhado nisso, importando compradores, importando coleccionadores. Temos trabalhado num modelo diferente de feira. A Arco é uma feira de descoberta, para descobrir um novo artista, para uma galeria apresentar um artista mais novo, para os coleccionadores comprarem artistas quando ainda estão a um preço razoável. Nesse sentido, acho que a Arco agora já tem o seu perfil, com a ligação à América Latina, com a ligação a Portugal; penso que é muito claro o que a Arco pode oferecer.

Como feira de descoberta, como mencionou agora, quais são as coisas que funcionam melhor para trazer pessoas até à feira?
Acho que é uma mistura entre coleccionadores, galerias, artistas, mas também curadores e críticos de arte que talvez não vão a outras feiras de arte. Toda esta mistura cria trocas interessantes e tem as suas compensações. Uma feira é um mercado, trocam-se bens por dinheiro, mas também se trocam ideias. Isso é também algo em que trabalhamos, não é só comprar e vender, mas também trocar um projecto ou saber mais sobre um artista.

Porque decidiram a Arco e o Ifema, o recinto de Madrid que organiza a feira, fazer uma ArcoLisboa?
Temos estado a falar com as galerias portuguesas, que querem ter a sua própria feira e sugeriram que fizéssemos a gestão. A Arco foi fundada pelas galerias espanholas, por Juana de Aizpuru, e nós sabemos que para fazer uma feira funcionar temos de ter o apoio das galerias locais. Nesse sentido é um projecto de que temos vindo a falar há muito tempo, desde que sou o director da feira da Arco, há seis anos. Depois apareceu a crise, e agora é o momento certo.

Porque é que optaram pelo conceito de pôr as galerias escolhidas a destacarem um artista? Esta é a ideia principal para a feira em Lisboa?
A ArcoLisboa é uma feira-boutique, uma feira pequena no espaço sofisticado e histórico da Cordoaria Nacional, onde já decorreram as feiras de antiguidades. Nós queremos que a feira de Lisboa seja muito orientada para o artista e estamos a encorajar as galerias a fazerem apresentações de um artista ou a darem destaque a um dos artistas. Por isso, vamos ter 40 galerias com pelo menos 40 artistas. Pensamos que pode ser interessante ter uma feira mais focada. As pessoas hão-de vir de muitos lugares e é bom que possam reconhecer alguns artistas portugueses e internacionais. Todas as galerias vão estar misturadas e não haverá divisão geográfica.

Quantas galerias estão já seleccionadas? Como estão as coisas a correr?
Tivemos muitas candidaturas, que estamos a analisar. Já seleccionámos a maior parte do conteúdo da feira, mas decidiremos sobre algumas galerias depois da Arco. Mas já temos muito mais candidaturas do que lugares.

Quantas mais?
Não damos os números porque isso seria muito injusto para as pessoas que não são aceites. Temos mais do dobro do número.

Com quem estão a trabalhar em Lisboa? E quantas galerias estrangeiras terão em Lisboa?
No comité organizativo temos a Cristina Guerra, o Nuno Centeno, a Juana de Aizpuru, de Espanha, a Jaqueline Martins, de São Paulo, e o Giorgio Persano, de Turim. Mas ainda não está finalizado.

Vão explorar os países africanos, como Angola e Moçambique, ou é muito cedo para abrir para África?
Se as galerias quiserem apresentá-los, sim, mas não há um foco geográfico.

Como têm os programas para coleccionadores em Madrid, podiam estar a desenvolver essa linha...
Temos algumas ligações, porque há instituições portuguesas que têm muitas ligações a Angola e a Moçambique. Será uma coisa muito natural, não um foco da feira. Mas haverá alguns coleccionadores africanos, e alguns artistas africanos a trabalharem com as galerias.

Em Lisboa haverá eventos paralelos como em Madrid?
A maior parte das instituições portuguesas está envolvida, da Gulbenkian à Colecção Berardo, a pequenas instituições como a Kunsthalle Lissabon e a Carpe Diem. Todas as instituições farão parte do nosso programa público.

O que é que recomenda este ano no programa de conferências da ArcoMadrid?
Fizemos um esforço no fórum dos coleccionadores: Glenn Lowry, o director do Museum of Modern Art (MoMA, Nova Iorque), vai estar lá.  Ele não viaja assim tanto, nem vai assim a tantas feiras de arte, por isso estamos muito orgulhosos que tenha aceitado o convite para falar sobre coleccionar arte contemporânea. Nesse sentido, há também Patricia Phelps de Cisneros (Venezuela) e Eduardo Hochschild (Peru). E os coleccionadores portugueses Armando Cabral e Jorge Gaspar, dirigidos por Miguel von Hafe Pérez.