Opinião

Demita-se, sr. governador

António Costa faz bem em barafustar e em confrontar o Banco de Portugal com as suas próprias incongruências

Não é um frente-a-frente. É uma luta de costas. António Costa contra Carlos Costa. Quem tem razão? O Costa, naturalmente. É um duelo entre o Governo e o governador; um que tenta governar e outro que faz de conta que governa. Não basta ter os cabelos grisalhos, fazer um semblante carregado e ter à volta uma batelada de assessores para se concluir que Costa é competente. A competência mede-se pelos resultados. Costa, o António, ainda não teve tempo de mostrar se o é a governar. Costa, o Carlos, já teve mais do que tempo e já mostrou que a competência não é o seu forte.

É difícil olhar para o que se passou na banca nos últimos anos e chegar à conclusão de que o Banco de Portugal está a fazer um trabalho competente. Os casos BPN, BPP, BCP, Finantia, BES e Banif, durante os mandatos de Vítor Constâncio e Carlos Costa, ficam bem num currículo de quem vai candidatar-se para trabalhar numa fábrica de pirotecnia. Não para quem vai supervisionar bancos. E o trabalho de Carlos Costa está a ser feito de uma forma pouco transparente, hermética, enviesada, atrasada e aparentemente traiçoeira, com uma grande obsessão pela imagem.

Fará algum sentido que o Novo Banco tenha fechado em Dezembro de 2015 um negócio para vender uma sucursal em Cabo Verde a uma empresa ligada a José Veiga e que só esta semana é que o Banco de Portugal se tenha lembrado de dizer que não aprova o negócio? O mais estranho é que o próprio supervisor de Cabo Verde já tinha impedido José Veiga de abrir um banco local no passado, com base num parecer do próprio Banco de Portugal, que, supostamente alegava falta de idoneidade. Perante isto, o que faz o Banco de Portugal, depois de não ter feito nada nos últimos dois meses? Emite um comunicado, impresso na impressora de Pilatos, a dizer que este processo de venda “foi exclusivamente conduzido pelo Novo Banco”.

António Costa não gosta de Carlos Costa porque o governador se colou em demasia a Passos Coelho e politicamente escolheu ficar com as dores do anterior Governo no caso BES. E apesar de Maria Luís Albuquerque ter dito que a supervisão “falhou” no caso BES, Carlos Costa recebeu o prémio devido pelo PSD-CDS; foi reeleito para mais cinco anos, apesar de no seu primeiro mandato Portugal ter assistido à maior derrocada de sempre do sistema financeiro. O império da família Espírito Santo ruiu e Carlos Costa ainda está abananado a tentar perceber o que lhe caiu em cima. Até ao dia de hoje ainda não percebemos o que andou Carlos Costa a fazer entre Novembro de 2013 (quando soube pela primeira vez que havia irregularidades no grupo) e Julho de 2014 (quando Ricardo Salgado saiu do banco). Se calhar, a mesma coisa que andou a fazer agora nos dois meses em que Stock da Cunha se preparava para vender uma parte do banco a José Veiga.

Carlos Costa terá com certeza as costas largas, mas há coisas que são difíceis de perceber. Por que é que António Costa diz que o Banco de Portugal não se dignou a nomear um representante para participar nas reuniões para tentar resolver o problema dos lesados do papel comercial do BES, e o Banco de Portugal vem dizer que a reunião já está marcada e vai realizar-se esta semana? Além de estarem de costas voltadas, também não têm telefone para falarem um com o outro?

António Costa faz bem em barafustar e em confrontar o Banco de Portugal com as suas próprias incongruências. Afinal, não foi o próprio Banco de Portugal que obrigou o BES a fazer uma provisão de 700 milhões de euros para reembolsar esses investidores do papel comercial? Isso não criou uma expectativa de reembolso? E agora lava as mãos como o senhor da impressora?

O Governo não pode esticar em demasia a corda. Quem nos olha lá de fora já desconfia de um Governo antiausteridade, apoiado por dois partidos de esquerda radical. Se resolvem tentar exonerar o governador de um banco central sem ter uma razão sólida e objectiva, arriscam-se a fazer capotar a geringonça. Ainda se lembram, em plena crise grega, do plano secreto da ala mais radical do Syriza que passava por mandar prender o governador do banco central grego? Não queiramos passar uma imagem parecida.

António Costa sabe que Carlos Costa tem as costas quentes porque está num cargo em que é praticamente inamovível, a não ser que o governador seja apanhado a cometer uma “falha grave” no exercício das suas funções. É esta “falha grave” que socialistas e bloquistas procuram quando pedem, com toda a legitimidade, que o Banco de Portugal torne público um relatório da Boston Consulting Group (BCG) que avaliou, a pedido do próprio Carlos Costa, a actuação do supervisor no caso BES. Estranhamente, o governador recusa-se a divulgar o conteúdo do relatório, invocando o “dever de confidencialidade”, como lembrava nesta quinta-feira o Diário Económico. Então o governador gasta 300 mil euros a mandar fazer um relatório para avaliar o seu trabalho e quando o relatório chega esconde-o atrás das costas? Faz lembrar aquelas crianças que tiveram um medíocre no exame e quando chegam a casa tentam esconder a nota dos pais. Mas Carlos Costa, com os seus cabelos grisalhos, já não tem idade para isso.