Morreu Diogo Seixas Lopes, um pensador da arquitectura

Tinha 43 anos e lutou pela internacionalização do pensamento arquitectónico feito por portugueses.

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Diogo Seixas Lopes Enric Vives-Rubio

A morte de Diogo Seixas Lopes, aos 43 anos de idade, comoveu esta quinta-feira toda uma geração de arquitectos que tal como ele começou a trabalhar nos anos 90 já consciente do sucesso internacional da arquitectura que representava. Diogo Seixas Lopes significou, talvez melhor do que ninguém, a figura do arquitecto que gostava de construir, mas que defendia que a arquitectura portuguesa merecia ter uma dimensão teórica à altura da dimensão prática que um nome como o de Álvaro Siza tornou conhecida mundialmente.

O arquitecto Diogo Seixas Lopes morreu na madrugada desta quinta-feira vítima de um cancro no cérebro, soube o PÚBLICO junto de uma amiga da família. O arquitecto, que dividia o atelier com Patrícia Barbas, sua mulher, é co-autor do Teatro Thalia e entre os seus projectos mais recentes está uma torre de 17 andares na esquina da Fontes Pereira de Melo com a Avenida 5 de Outubro (em construção), que, tal como o teatro, também se situa em Lisboa.

Diogo Seixas Lopes juntava as facetas de projectista, curador, crítico e historiador da arquitectura, todas com uma pujança rara. Mas terá sido o seu lado teórico aquele que se destacou mais no último ano, quando lançou o livro Melancholy and Architecture. On Aldo Rossi, a sua tese de doutoramento na ETH Zurique, publicada pela editora suíça Park Books. Um acontecimento, como escreveu em Maio o crítico de arquitectura do PÚBLICO Jorge Figueira, e uma obra que o jornal britânico The Guardian escolheu como um dos livros do ano na área da arquitectura.

“O que definia o Diogo Seixas Lopes era uma espécie de obsessão saudável em relação à internacionalização da arquitectura portuguesa, mas também do pensamento e da teoria feita por portugueses. Esse pensamento não tinha obrigatoriamente de ser sobre Portugal, sobre a arquitectura portuguesa, mas tentava compreender a experiência contemporânea no seu todo”, diz Jorge Figueira ao PÚBLICO, lembrando também a sua dimensão pedagógica. Diogo Lopes deu aulas durante dois anos como professor convidado no Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra e ensinou também na Carleton, em Otava.

Embora gostasse de construir, “o legado dele será sem dúvida a obra teórica”, afirma Figueira, que recorda o seu lado combativo. “Ele é a prova de que o discurso da arquitectura não tem de ser só formatado pela prática e pela construção. Conseguiu cumprir esse desejo quando publicou no ano passado o livro com sucesso. Diogo Seixas Lopes ajudou a alterar a fasquia do que pode ser a presença da arquitectura na nossa sociedade. No meio desta tragédia há a felicidade de ele ter conseguido provar aquilo com que tinha sonhado e isso dá-nos conforto.”

Ainda não é conhecida a data do funeral, mas o corpo estará em câmara ardente no sábado no Teatro Thalia, tendo a família pedido para que fosse respeitada a sua privacidade.

Filho da jornalista Maria João Seixas e do realizador Fernando Lopes, Diogo Seixas Lopes nasceu em Lisboa em 1972. Formou-se em Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa em 1996 e doutorou-se no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique.

Estava a preparar a próxima Trienal de Arquitectura de Lisboa, que terá lugar no final do ano, de que era curador juntamente com André Tavares. Era também consultor do Centro Cultural de Belém, onde fez a programação das exposições da Garagem Sul.

Para o arquitecto Manuel Aires Mateus, seu amigo, era neste momento uma personalidade central na arquitectura em Portugal. “Não só o seu atelier, que mantinha com a mulher, Patrícia Barbas, tinha uma produção muito interessante, cada vez com mais relevância com os projectos mais recentes do Teatro Thalia e da nova torre de Lisboa, como era um homem de grande reflexão em torno da arquitectura”, afirma. “Era um dos poucos verdadeiros pensadores da arquitectura em Portugal. Desaparece numa altura em que se lhe abriam todas as portas. Sempre o vi a reflectir de uma forma muito intensa e sem concessões. Era verdadeiramente acutilante na sua crítica. Para a arquitectura portuguesa fará muita falta.”

João Santa-Rita, presidente da Ordem dos Arquitectos, que teve Seixas Lopes como colaborador no seu atelier em meados da década de 1990, lembra “um arquitecto com invulgares capacidades de entendimento, de relacionamento e crítica sobre a arquitectura que deixou um importantíssimo contributo na cultura arquitectónica”.

Diogo Lopes fundou o atelier com Patrícia Barbas em 2006. Juntamente com Gonçalo Byrne assinaram em 2012 a requalificação do Teatro Thalia, que obteve várias nomeações para prémios e foi publicada em revistas internacionais. Venceram depois o concurso para a torre de escritórios na Fontes Pereira de Melo.

No perfil que publicámos em Maio, intitulado “O arquitecto que pensa”, Jorge Figueira lembrava que a sua primeira iniciativa pública foi a revista Prototypo, de que foi um dos directores, publicando nove números entre 1999 e 2004. Logo na Prototypo mostrava essa necessidade de pensar a arquitectura portuguesa num contexto internacional, chamando Figueira a atenção para o facto de que a obra sobre Rossi, um nome em revisão da arquitectura contemporânea, deve ser entendida nessa lógica. Santa Rita considera-a “uma revista ímpar em Portugal, um marco importantíssimo para o país”.

Com André Tavares, Diogo Seixas Lopes dirigiu o Jornal dos Arquitectos (a revista da Ordem dos Arquitectos) até 2014. O conceito da revista era pôr em confronto, ou em diálogo, um arquitecto de um atelier português e um estrangeiro. Também com André Tavares, entre outros, fez a obra Eduardo Souto de Moura. Atlas de Parede. Imagens de Método. Para o PÚBLICO, por exemplo, escreveu sobre a presença de Souto Moura e Ângelo de Sousa na Bienal de Arquitectura de Veneza em 2008.

Em comunicado, a Trienal de Arquitectura lamenta a morte de um dos seus curadores-gerais, “um dos mais importantes pensadores da arquitectura portuguesa”. “A arquitectura portuguesa está de luto por uma perda irreparável. Desapareceu um grande arquitecto e um ser humano de qualidades notáveis que tinha um futuro extraordinário diante de si.”

À Lusa José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura, afirma que “a maior homenagem que a trienal lhe pode fazer é concretizar o trabalho feito por ele — que deixou concluído quase a cem por cento — da forma mais séria, profissional e extraordinária possível”. Ao longo da preparação desta quarta edição da trienal, Diogo Seixas Lopes “estava consciente de que o desfecho poderia ser este”, devido à doença. “Mas concordámos que uma boa forma de enfrentar esta fase difícil era manter-se ligado aos projectos, e foi o que ele fez. São projectos que ficam, e era uma forma construtiva de encarar o que se estava a passar”, acrescenta.

Numa entrevista ao PÚBLICO no ano passado, a propósito da cultura de resistência à construção em altura, no contexto de alguma polémica gerada pelo projecto da torre de 17 andares em Lisboa, Diogo Seixas Lopes argumentava que as cidades em determinados momentos precisam de uma arquitectura que seja o espelho de uma época. “Este espelho não acontece naturalmente e por isso há uma certa violência nestes gestos”, dizia. “Mas, por estarmos envolvidos neste processo, ficamos completamente convictos de que a arquitectura daqui para a frente não pode ser só umas pequenas intervenções de carácter participativo. A arquitectura está inevitavelmente vinculada à grande forma da cidade.”

Na mesma entrevista, quando questionado se na abordagem ao doutoramento, do qual resultaria o livro Melancholy and Architecture. On Aldo Rossi, lhe havia surgido primeiro o tema da melancolia ou do Aldo Rossi, Diogo Seixas Lopes respondeu que havia sido o primeiro: “Quando me confrontei com a necessidade e a vontade de fazer um doutoramento, a primeira ideia que me surgiu foi a de fazer alguma coisa em relação a um determinado sentido de perda, do início dos anos 1970 – que era mais vasto do que a arquitectura e estava ligado àquilo que se chamou em Itália 'os anos de chumbo'. Até que ponto essa conjuntura teria influenciado a arquitectura que se fez nessa época. Com isto havia uma preocupação metodológica de extravasar o campo da arquitectura e questionar até que ponto a historiografia da arquitectura não elimina do seu processo estes outros factores. Não era objectivamente a questão da melancolia, mas no fundo estava muito próxima disso.”

Com Vítor Belanciano e Joana Amaral Cardoso