Não ficções

Os melhores dias das nossas vidas

1. Há cinco anos eu estava na praça Tahrir e centenas de milhares de pessoas derrubaram um ditador: 11 de Fevereiro de 2011. Aconteceu de dentro para fora, sem golpe, sem máquina, sem líder. Durante dias, uma nova geração tinha-se juntado no centro do Cairo, incentivada pelo que acontecera na Tunísia, onde o ditador caíra, inspirando outras gerações, que foram vindo. Ninguém as organizou, mas tudo se organizava, turnos, brigadas, barricadas de protecção, limpeza, comida, remédios, assistência médica, cobertores, tendas para acampar ao frio, na chuva. As noites na praça gelavam e a ditadura atacava, mais de trezentos mortos, milhares de feridos. Só que dessa vez toda a gente estava a fotografar, falar, escrever, partilhar em directo, e todos os dias a revolução crescia, gente dando força a mais gente. A 11 de Fevereiro, quando o sol descia sobre o Nilo e Mubarak caiu, achei-me ao lado da mãe de Khaled Said, o rapaz que a polícia de Mubarak assassinara em Alexandria em Junho de 2010. Khaled Said fora o primeiro rastilho da revolução, e ali estava a mãe dele vendo Mubarak cair, sendo abraçada numa casa sobre a praça, e, descendo à praça, meio milhão de pessoas num lusco-fusco que era o centro do mundo, a história concidindo com a vida, resgatando uma bandeira, preto-branco-vermelho no céu e na mão, no corpo e na cara de quem pulava, cantava, abraçava, chorava com desconhecidos, na maior alegria conjunta das suas vidas. Depois de eu partir, o primeiro rapaz que conheci ao aterrar na revolução comentou na primeira fotografia que partilhei no Facebook, e em que ele aparece, à entrada da praça Tahrir: “Foram os melhores dias da minha vida.” Estávamos longe de saber como isso seria cada vez mais verdade. Incontáveis mortos depois parece outro século.

2. A Primavera Árabe começara na Tunísia, fez em Dezembro cinco anos. Nas vésperas deste aniversário aterrei em Tunis. O ISIS tinha acabado de matar mais de 200 pessoas a bordo de um avião russo que descolara de Sharm El Sheik, mais de uma centena em Paris, várias dezenas em Beirute. Tunis era uma cidade em hipertensão, traumatizada pelos dois atentados do ISIS desde o início de 2015, o primeiro no turístico Museu do Bardo, o segundo na turística praia de Sousse. Os souks estavam desertos de turistas, o museu ainda tinha estilhaços, e toda a gente temia um novo atentado a qualquer momento. No mais belo atelier da medina, um velho fazedor de chéchias, o tradicional barrete masculino, contou-me das cinco agulhas, da água e do sabão que apertam a lã de ovelha, até ela não deixar passar frio ou calor. Tínhamos muito tempo porque não havia ninguém à espera. Crianças a irem para a escola, velhos sentados nos cafés, polícia rondando, os mercadores tentando atrair quem não passava, e aquele ancião, Mohammed Messaoudi, tão elegante como quando parecia uma estrela do cinema mudo nas fotografias penduradas no seu atelier do Grand Souk des Chéchias. Continuava a abrir todas as manhãs, a dar elegantes cartões-de-visita bilingues, a embrulhar cada chéchia em elegante papel timbrado. Era uma espécie de desobediência civil ao caos deste Inverno 2015-2016, a resistência da elegância, ou vice-versa, vi isso do Magrebe à Ásia Central em muita gente da geração de Messaoudi. Ele tinha idade para ser bisavô de Shayma, a mais bonita das tunisinas com quem fui falando, uma das que cinco anos antes acreditara na revolução, e agora só queria ir embora, para o Canadá, para os EUA. Para a Europa, não: elas viam o que a Europa estava a fazer. O que não estava a fazer. E o atentado aconteceu mesmo, no centro de Tunis, quatro dias depois de eu me despedir.

3. A seguir a Tunis e Tahrir, as manifestações de 2011 alastraram à Síria. Esta manhã em que escrevo, 11 de Fevereiro de 2016, o incontável está em 470 mil mortos, quase metade da população deslocada. Há menos de sete anos atravessei um país que já não está em pé. E a Europa, que assistiu ou foi parte disso, agora fecha a porta.

4. Hoje, os ecos do Cairo são que tudo está pior do que antes de Tahrir. Ao militar Mubarak sucedeu, por eleição, o islamista Morsi, que foi derrubado pelo militar Al-Sisi, num golpe que custou mil mortos, dezenas de milhares de presos e repressão generalizada. Nas semanas que antecederam este quinto aniversário, Sisi pôs em marcha uma operação preventiva: tropas na rua, activistas desaparecidos, interrogatórios, buscas a milhares de casas. E nos últimos meses, mais mil presos políticos se terão somado aos que já lá estavam. No New York Times, Kareem Fahim escreveu que Sisi “tem encarado até a hipótese de manifestações como uma ameaça grave”. O repórter Hossam Bahgat, que esteve detido pelos militares egípcios, disse ao Guardian que “o nível de repressão hoje é bastante maior do que no tempo de Mubarak, e gerações mais velhas dizem que é pior até do que nos anos 1950 e 1960”, quando Nasser estava no poder. Há relatos de tortura nas cadeias, as prisões são feitas sem acusação nem julgamento.

5. A revolução da praça Tahrir tinha uma base antiga na cabeça dos egípcios, acredita Abdel Rahman Mansour, um dos fundadores da página de Facebook We are all Khaled Said, que desencadeou o levantamento de 2011. Numa reflexão para a Al Jazeera a propósito deste quinto aniversário, ele enfatiza isso, que “em retrospectiva, a revolução não aconteceu num vácuo, existia no espírito colectivo há muito”, e que se ela foi bem sucedida, ou seja, se conseguiu derrubar um ditador há tanto tempo no poder, foi porque contou com uns 200 mil anónimos, jovens egípcios, homens e mulheres, que se juntaram num movimento de direitos humanos. “Ninguém sabia que eles existiam. Estes ‘actores invisíveis’ eram o resultado das condições políticas que o país vivera.” Hoje, acredita, a situação é muito diferente, apesar da opressão e da brutalidade policial serem idênticas ou superiores. “Penso que o espírito colectivo egípcio está à espera de um momento, uma oportunidade, porque não é possível ter sucesso duas vezes com as mesmas ferramentas, e parece-me que isso é um bom sinal. Creio que a baixa participação nas últimas eleições parlamentares é um indicador de como as pessoas vêem em que tipo de regime estão a viver.” Em suma, Tahrir aconteceu porque já estava lá, e a nova Tahrir vai acontecer de outra forma, quando houver uma oportunidade.

6. Tahrir é a arma que resta, diz Omar Robert Hamilton, fundador de um colectivo-arquivo da revolução. Num texto publicado no Guardian, lembra: “A Praça Tahrir foi um espectáculo, por um momento parou o país, o mundo até, a história renasceu. A polícia foi expulsa das ruas e a cidade era nossa.” Isto foi real, derrubou um ditador. “Fomos naive, sem dúvida, mas o resto do mundo foi naive connosco.” O que resta hoje para lutar? “A memória da possibilidade é tudo o que temos. Talvez por agora seja o bastante. Sabemos que ainda os assusta: a ideia de revolução.” Tudo pode vir a acontecer: décadas de Sisi no poder, golpes militares internos, um lento processo de democratização, o colapso do estado, um domínio do ISIS, inundações do Nilo, fome generalizada. “Não posso dizer que estou optimista. Mas não estou morto e não estou na prisão, então não tenho o direito de dizer que está tudo acabado.” Não enquanto a memória da possibilidade estiver lá. E essa memória vem daquilo a que o rapaz da praça Tahrir chamou os melhores dias da nossa vida.

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