Salve, George! Berlim abre a fazer vénias a Clooney

O novo ensaio sobre a estupidez humana dos irmãos Coen, Salve, César!, é pretexto para mais um show do actor numa conferência de imprensa que fez esquecer o filme de abertura do festival.

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"É o quarto filme que faço com estes gajos e antes de me enviarem o guião dizem-me sempre que vou fazer de estúpido. Mas desta vez não sabia que ia ser tão estúpido!" AFP / TOBIAS SCHWARZ
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Josh Brolin tem o papel principal, mas é Clooney o centro das atenções
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Clooney a fazer pensar nos canastrões tipo Stephen Boyd (Ben-Hur)
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Salve, César! é, como de costume no cinema dos Coen, uma seta envenenada mesmo que afectuosa atirada ao coração de Hollywood AFP / TOBIAS SCHWARZ

"É o quarto filme que faço com estes gajos e antes de me enviarem o guião dizem-me sempre que vou fazer de estúpido. Mas desta vez não sabia que ia ser tão estúpido!" 

A sala ri-se, George Clooney ri-se, está tudo normal em Berlim. A projecção de Salve, César!, filme de abertura da 66ª edição do Festival de Berlim (fora de concurso), terminou há uma hora, o salão do hotel Hyatt já está a transbordar, em cima do pódio há uma ambiência de cumplicidade. E o filme pode ser dos irmãos Coen, e ter Josh Brolin no papel principal, mas é Clooney quem é o centro das atenções. 

É-o na mais recente incursão da dupla americana pelos terrenos da inominável estupidez humana, onde tudo parte do desaparecimento misterioso em plena rodagem de uma estrela de Hollywood (Clooney a fazer pensar nos canastrões tipo Stephen Boyd). É-o na conferência de imprensa, a primeira de Berlim 2016, onde apesar da presença no pódio de Josh Brolin, Alden Ehrenreich, Channing Tatum, Tilda Swinton - é Clooney o foco. E, às tantas, torna-se quase em mestre de cerimónias, desviando as perguntas para os colegas de elenco quando percebe que estão a ser ignorados, ou brincando com as perguntas mais ou menos inanes ou despropositadas que o seu estatuto de figura pública convoca. 

Dimensão episódica

Recordemos, no entanto: estamos aqui por causa de um filme, e esse filme é mais uma entrada (muito divertida, mas em primeira abordagem mais peso-pluma) no cânone escarninho de Joel e Ethan Coen (que, diz Clooney, não são irmãos, antes primos direitos que nos andaram a enganar este tempo todo). Depois da cena folk de Greenwich Village dos anos 1960 no melancólico A Propósito de Llewyn Davis, os irmãos atiram-se à Hollywood dos anos 1950 com uma mão cheia de piscadelas de olho cinéfilas, referências oblíquas a histórias mais ou menos apócrifas e pelo menos uma personagem que existiu realmente. Eddie Mannix, o herói nominal do filme, foi na vida real um fixer, que resolvia os problemas dos contratados do estúdio da MGM, evitando chantagens, passos em falso, escândalos. O que Josh Brolin interpreta  em Salve, César! é um Mannix ficcional que faz o mesmo para o inventado estúdio Capitol - o mesmo estúdio que "torturava" Barton Fink no filme que lhes deu o prémio máximo de Cannes em 1991. 

Que não se espere, contudo, nenhuma relação entre os dois filmes - Joel, cabelo desgrenhado, Ethan, cabelo curto, são peremptórios em resposta na conferência de imprensa. E Salve, César! não é nenhuma carta de amor nostálgica, antes um filme que trafica numa versão romantizada da Hollywood dos anos 1950, "uma fábrica maravilhosamente desenhada," nas palavras de Joel, "que nos merece afeição e admiração. Dito isto, não faço ideia como nos teríamos dado nessa altura..." 

Salve, César! é, como de costume no cinema dos Coen, uma carta de amor armadilhada, uma seta envenenada mesmo que afectuosa atirada ao coração do sistema que, bem ou mal, os acolhe há largos anos. Scarlett Johansson faz de Esther Williams num elaboradíssimo ballet aquático, mas assim que ela sai da água fala como uma criada de Queens, e tem uma criança a caminho que torna complicado o guarda-roupa. Alden Ehrenreich (revelado por Coppola em Tetro) é um cowboy cantor metido à força numa comédia sofisticada e nas mãos de um realizador perfeccionista (Ralph Fiennes). 

Há um número musical onde Channing Tatum, antigo stripper, se sai às mil maravilhas, mais um filme bíblico que leva a uma discussão teológica de cair para o chão, e onde Clooney, estrela amiga das bubas colossais e das amantes em cada plateau, é um centurião. Aliás, é desse plateau que é raptado, tudo por causa de um complot comunista para invadir Hollywood criado por uma rede de argumentistas que querem uma distribuição mais igualitária dos salários, mas cujo talento para a escrita parece não se ter estendido ao planeamento de raptos e resgates.

Uma jornalista canadiana aponta que Salvé, César! é o filme perfeito para abrir um festival de cinema, tal a quantidade de referências à era de ouro de Hollywood que só os cinéfilos vão apanhar. Mas - dizemos nós - é essa dimensão episódica que impede que o filme ganhe embalo enquanto narrativa. Ao mesmo tempo, passa muito ao de leve pelo período da "caça às bruxas" e do McCarthyismo - o que leva um jornalista a perguntar a Clooney se "é, ou alguma vez foi, simpatizante do partido comunista", numa referência velada à actividade da Comissão Investigadora das Actividades Não-Americanas à qual o actor dedicou ainda o seu melhor filme como realizador, Boa Noite e Boa Sorte. Clooney responde na mesma moeda - "Não vou responder invocando o meu direito à Quinta Emenda. O senhor não tem vergonha?" 

A gargalhada geral apenas vem complicar uma conferência onde falar a sério é quase impossível, apesar dos apelos de um jornalista escandinavo que veio pedir a Clooney que traga para as primeiras páginas o sofrimento da Síria e de uma outra mexicana que pergunta qual o investimento pessoal do actor em causas humanitárias. George não achou graça nenhuma a esta última pergunta, e devolveu-a à jornalista. "É uma pergunta estranha a fazer porque tenho visitado, viajado, ajudado muito, por exemplo no Sudão que é uma causa que me é muito próxima. O que é que a senhora fez, você própria, na sua cidade, pelos refugiados do Médio Oriente?" A jornalista responde evasivamente, o silêncio incomodado é interrompido por Joel Coen. "Por acaso, quando fomos presidentes do júri no Festival de Cannes, demos o prémio máximo a um filme que era sobre refugiados, de que gostámos muito e que achámos ter coisas importantes a dizer [Dheepan, de Jacques Audiard]. Mas é absurdo dizer que, por sermos figuras públicas, temos de apontar o dedo. Sim, gostaria de ver mais filmes sobre esse tópico, mas isso não leva em conta que as histórias não surgem assim do nada." Antes, Clooney já dissera que "no mundo do cinema infelizmente reagimos às situações, muito mais do que as lideramos. Neste momento acredito que é muito mais fácil às organizações noticiosas chamar a atenção para estas coisas do que o cinema, porque é muito difícil fazer um filme sobre estes temas, tem de haver uma história para contar mais do que apenas um tema para abordar, e leva tempo até terminarmos a rodagem. E se não fazemos o filme como deve ser, não vamos ter outra oportunidade." 

Já não há muito mais tempo de pódio, o moderador ainda tenta que Josh Brolin e Alden Ehrenreich falem um pouco para não ter vindo em vão, mas a verdade é que o filme dos Coen já ficou para trás, Clooney e o seu bando de comparsas já fizeram o seu número e o festival pode continuar. Tudo normal em Berlim, como dizíamos. Siga para bingo.