Opinião

A TAP não transporta animais para laboratórios, mas a ciência deve continuar a voar

O uso de animais em ciência é um tema controverso e complexo, do ponto de vista científico e ético. Mas considerá-lo moralmente equivalente ao extermínio de animais ameaçados é néscio e pode ter consequências danosas para a ciência, a saúde e a segurança de humanos e outros animais.

Em Novembro passado, foi divulgada a notícia de que a transportadora aérea portuguesa TAP não vai mais transportar animais para laboratórios. Esta decisão foi apresentada como uma vitória pelo conhecido grupo activista PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), e a própria companhia aérea divulgou na sua conta de Twitter uma notícia que dava conta que a decisão resultara de conversações com esta organização. A medida estende-se ao transporte de troféus de caça, barbatanas de tubarão e outras partes de animais em risco, incompreensivelmente colocados no mesmo patamar moral que a (ainda) necessária e altamente regulamentada experimentação animal.

Entrei em contacto com a TAP por email, para que me esclarecessem as razões por detrás desta decisão, ao que me comunicaram não ter havido “qualquer acordo com a PETA” e que a decisão, que data já de Agosto passado, é “da própria companhia, tendo como pano de fundo a protecção dos animais e fazendo essa associação à imagem da TAP”. A ser assim, ou a PETA mente ao declarar ter tido uma parte activa nesta decisão ou a TAP distorce a verdade ao não admitir o papel desempenhado por este grupo no endurecer da sua política de protecção animal.

Em todo o caso, é assumida a proibição do transporte de animais de laboratório como uma medida de “protecção animal”. Assim, a TAP declara que a investigação médica e científica, ao abrigo da lei – e segundo os mais elevados padrões – é moralmente censurável, ainda que estes animais gozem de maior protecção do que os animais de companhia que transportam, os quais beneficiam ainda dos avanços em medicina veterinária – como vacinas, antibióticos, analgésicos e anestésicos – apenas possíveis pela investigação levada a cabo… em animais.

As elevadas exigências de bem-estar de animais de laboratório faz com que o transporte por via aérea seja a melhor opção, por ser o mais rápido e menos stressante (a alternativa seria transportá-los por via marítima, ao longo de várias semanas, o que teria consequências desastrosas para a sua saúde). O transporte aéreo é, contudo, logisticamente complexo, razão pela qual poucas companhias reúnem as condições para o fazer. Sendo poucas as que o fazem, tornam-se assim vulneráveis a tácticas de intimidação por parte da PETA, por falta de solidariedade (ou receio de represálias) das demais. E o medo é uma arma muito poderosa, seja pelo receio de perder passageiros, ou mesmo de ser alvo de ataques, pelo que várias companhias que transportavam animais para estudos biomédicos tenham cedido a pressões da parte grupos activistas que não representam, de todo, o sentimento da maior parte do público, que aprova o uso de animais para fins biomédicos, desde que devidamente regulado, justificado e ético. Contudo, o sucesso destas iniciativas levou já à ambição de estender o boicote ao transporte de invertebrados (como moscas) nas suas exigências às companhias transportadoras.

A PETA tem focado os seus esforços na oposição ao transporte de primatas, sob o argumento de que estes são na sua maioria retirados de habitats naturais ou criados em condições deploráveis, quando na verdade os primatas usados em estudos científicos gozam de especial protecção legal. Com esta abordagem procuram apelar à maior simpatia do público por primatas (que representam 0,05% dos animais usados em ciência, não sendo usados no nosso país) do que pelos roedores e peixes que constituem cerca de 90% dos animais usados em laboratórios, uma linha também explorada pelo PAN, partido hoje com representação parlamentar.

Mas apesar de serem usados em pequeno número, os primatas têm-se revelado fundamentais para a compreensão de doenças que afectam quer humanos quer outros animais, como o HIV (e vírus semelhantes) e o Ébola, e para o desenvolvimento e teste de vacinas e terapias para as combater. E apesar das limitações ao transporte destes, ou de outros animais usados em ciência, poderem até certo ponto ser colmatadas por criação in situ, em muitas circunstâncias é logisticamente proibitivo, e em qualquer caso levará a um aumento considerável do número de animais em laboratórios e ao custo destes estudos.

Mas por que razão é importante saber se a medida anunciada pela TAP é fruto da influência directa da PETA? Porque, a confirmar-se, revela que a companhia aérea preferiu anuir às exigências de um grupo que recorre a tácticas de intimidação, sem se dignar a ouvir as instituições afectadas por esta medida – laboratórios, universidades e hospitais onde se realiza investigação biomédica – ou o grupo mais prejudicado de todos, os doentes desesperadamente à espera dos avanços médicos que apenas a ciência pode proporcionar.

Se os executivos da TAP responsáveis por esta decisão querem tão militantemente opor-se à medicina baseada na investigação científica, então não se vacinem, não tomem antibióticos, não se submetam a cirurgias que lhes podem salvar a vida nem permitam que os seus familiares ou animais de estimação o façam. Tratem cancros, infecções, diabetes e outras doenças letais com uns chazinhos, ponham a vossa concentrada fé na diluída homeopatia, ou recorram à dita “medicina” tradicional chinesa (essa sim responsável pelo extermínio de milhares de animais em perigo de extinção). Ou então deixem a ciência voar.

Investigador em bem-estar animal, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Ciências em Animais de Laboratório, membro da direcção da Basel Declaration Society