Merkel ganha mais tempo de portas abertas com regras de asilo mais duras

Disputas no interior da coligação governamental tornam-se mais evidentes à medida que se aproximam as eleições regionais. Chanceler vai reavaliar política depois de cimeira europeia.

Sinal de boas-vindas no aeroporto de Tempelhof, em Berlim.
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Sinal de boas-vindas no aeroporto de Tempelhof, em Berlim. John MacDougall/AFP

No final de uma semana em que os três países escandinavos endureceram o tom e políticas de acolhimento a refugiados, a Alemanha anunciou na noite de quinta-feira um plano para tornar o seu próprio sistema de asilo mais severo. Berlim vai reduzir o apoio financeiro do Estado aos candidatos e começar a exigir uma espera de dois anos antes de permitir a reunião de familiares. As deportações serão facilitadas para criminosos e aceleradas em pedidos falhados de asilo.

Mas ao contrário dos seus vizinhos na Suécia, Angela Merkel diz encarar as novas regras não como uma derrota da sua política de portas abertas, mas como um balão de oxigénio. “Sinto-me fortificada”, disse a chanceler alemã na conferência de imprensa que se seguiu ao encontro entre os três partidos da coligação governamental. "Estamos a conseguir que muito seja feito.”

É pouco provável que as novas leis de asilo reduzam imediatamente o número de refugiados na Alemanha, que só em 2015 recebeu 1,1 milhões de pessoas, muito mais do que qualquer outro país europeu. O que a reforma anunciada quinta-feira faz para já é aliviar alguma da pressão vinda do seu partido, os democratas-cristãos da CDU, e da formação irmã da Baviera, o CSU. Entre os dois, perto de cem deputados discordam da escala de acolhimento defendida por Merkel, segundo as contas do Financial Times.

As tensões partidárias são cada vez mais evidentes à medida que se aproximam as eleições de Março em três estados. Este mês, um grupo de 40 deputados dos dois partidos irmãos defendeu numa carta a Merkel a imposição de controlos de fronteira e a imposição severa das regras de Dublin, o que faria com que fosse possível impedir a entrada a quase todos os requerentes de asilo que hoje chegam à Alemanha.

Os cristãos-democratas temem que as eleições regionais se tornem um plebiscito às políticas de acolhimento da chanceler e que mesmo na Baviera – onde a CSU governa há décadas de forma quase indisputada – os eleitores escolham votar no partido antimigração e extrema-direita, o Alternativa para a Alemanha, a quem as últimas sondagens dão 11% dos votos a nível nacional – nas eleições de 2013 ficou aquém dos 5% necessários para entrar no Bundestag.  

Angela Merkel já prometera "reduzir visivelmente" o número de chegadas e fazer um balanço sobre as políticas de asilo em meados de Fevereiro, depois da próxima cimeira europeia. A chanceler ainda terá por essa altura margem de manobra antes das eleições e de uma renovada vaga de refugiados que espera para a Primavera para viajar. Até lá, segundo escreve o Financial Times, Merkel tentará fortalecer a resposta europeia, até agora incipiente.  

Já está em movimento para o fazer. Passadas semanas de desacordo, a chanceler conseguiu esta sexta-feira que o primeiro-ministro italiano aceitasse o envio de 3000 milhões de euros em ajuda humanitária para a Turquia a troco de Ancara controlar melhor as suas fronteiras. Da visita a Berlim, Matteo Renzi recebeu elogios e mais flexibilidade nas suas finanças, segundo escreve a versão europeia da revista Politico.

Violência em duas frentes
A pressão sobre a chanceler sente-se diariamente, alimentada pela recente vaga de ataques sexuais contra mulheres em Colónia, cometidos sobretudo por homens imigrantes e requerentes de asilo vindos do Norte de África. Nesta sexta-feira, por exemplo, a revista Focus publicou uma sondagem em que anuncia que 40% dos alemães acreditam que Angela Merkel se deve demitir pela sua política de asilo.

Apesar disto – a sondagem entrevistou pouco mais de 2000 pessoas –, as últimas sondagens dão o bloco cristão-democrata e os sociais-democratas do SPD, terceiro membro da coligação, no mesmo patamar dos últimos meses, embora um pouco abaixo dos resultados das últimas eleições.

A coligação prepara-se para absorver parte dos receios sobre novos ataques ao retirar Tunísia, Marrocos e Argélia da lista dos países de risco, o que torna muito mais difícil a cidadãos destes países conseguirem asilo na Alemanha. Mas a medida pode não ser muito eficaz: a Der Spiegel publica esta semana uma reportagem em que documenta as grandes dificuldades que existem em deportar milhares de cidadãos para estes três países por falta de cooperação entre governos.

A revista descreve para além disso a falta de condições na polícia alemã para responder ao aumento da violência cometida por e contra imigrantes e requerentes de asilo. O ministro alemão da Justiça anunciou esta sexta-feira que só no último ano se registaram 1005 ataques contra centros de acolhimento, cinco vezes mais do que em 2014. De acordo com Heiko Maas, quase todos – 90% – são cometidos por activistas de extrema-direita. Na madrugada desta sexta-feira os seguranças num centro em Villingen-Schwenningen encontraram uma granada no interior do edifício que, “por pura sorte”, não explodiu.