Tunísia paga o preço de se ter esquecido da pobreza

Pelos dias do 5.º aniversário da única Primavera Árabe que acabou em democracia, os tunisinos voltam a protestar nas ruas contra o mesmo desemprego e pobreza que serviram de gatilho à revolução de 2011.

Cenas dos protestos de quinta-feira em Kasserine, epicentro das manifestações da última semana.
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Cenas dos protestos de quinta-feira em Kasserine, epicentro das manifestações da última semana Fathi Nasri/AFP

A Tunísia ouviu esta semana os mesmos gritos de desespero que há cinco anos fizeram com que dezenas de milhares de pessoas marchassem nas ruas contra o regime de Ben Ali e conseguissem em menos de um mês a sua Primavera Árabe. "Trabalho, Liberdade, Dignidade", ouviu-se pela primeira vez no domingo, nos cânticos de centenas de tunisinos da pobre cidade rural de Kasserine. As manifestações alastraram-se lentamente a outras cidades rurais até atingirem alguns bairros da capital, já no final da semana. Nesta sexta-feira, no final de uma madrugada de pequenos confrontos em Tunes, o Governo decretou recolher obrigatório entre as 20h e as 05h para todo o país.

Os acontecimentos que desencadearam as manifestações dos últimos dias são inquietantemente semelhantes aos de Janeiro de 2011. No sábado passado, ao descobrir que ficara de fora de um concurso a posições no Ministério da Educação, um jovem tunisino de 28 anos chamado Ridha Yahaoui subiu a um poste de electricidade em Kasserine para protestar contra a falta de oportunidades no país. Morreu electrocutado. Muitos dizem que se suicidou, como, há cinco anos, o vendedor de rua Mohamed Bouazizi, que se imolou e acabou por ser o gatilho de uma revolução. Depois da electrocussão de Yahaoui, quatro tunisinos tentaram suicidar-se por não terem emprego, incluindo um esta sexta-feira.

A Tunísia fez muito desde a sua Primavera Árabe. Corrigiu o rumo quando o homicídio de dois deputados seculares pela mão de radicais islamistas ameaçava fazer sucumbir a sua jovem democracia, em 2013. Aprovou uma Constituição no ano seguinte que é hoje um modelo único na região para uma sociedade inclusiva e tolerante. O seu partido islamista não só aceitou duas derrotas eleitorais em dois meses depois de ser Governo como, em seguida, negociou uma coligação com a formação vencedora. O mesmo projecto de democracia que falhou nas revoluções da Líbia, Egipto, Síria, Bahrain e Iémen conseguiu vencer na Tunísia. Mas o mesmo não aconteceu com as reivindicações dos manifestantes de 2011 que pediam trabalho e melhores condições de vida.

O desemprego cresceu desde o ano da revolução. Há agora cerca de 700 mil pessoas desempregadas na Tunísia, o que equivale a 15,2% da população. Atinge particularmente os jovens – 37,6% estão sem trabalho – e é ainda mais alarmante na população com formação universitária, que cresceu desde a Primavera Árabe: 62,3% está desempregada. "Temos liberdade, mas não a podemos comer", resume ao Guardian um licenciado tunisino no desemprego, Saber Gharbi. "Há muitas semelhanças entre 2011 e agora. As mesmas pessoas estão na rua pelas mesmas razões."

Desconfiança e radicalização
Ao contrário dos seus vizinhos Argélia e Líbia, a Tunísia não tem grandes reservas de recursos naturais e as décadas de estagnação do regime de Ben Ali fizeram pouco para diversificar a economia e distribuir a riqueza. As cidades no Norte e do Litoral concentram em si quase todo o investimento privado estrangeiro, quase sempre na área do turismo, que representa cerca de 7% do Produto Interno Bruto. Mas esta fonte está em queda vertiginosa desde os ataques terroristas no Museu Bardo e a um resort turístico em Sousse. Morreram 22 pessoas no primeiro atentado e 38 no segundo. Quase todos turistas.

Aquilo que era já um grave problema económico na Tunísia piorou à medida que estrangeiros começavam a cancelar reservas e governos desaconselhavam viagens. O magro crescimento de 1% esperado para 2015 acabou por ficar nos 0,5% e tudo é mais grave no interior do país: em Kasserine, por exemplo, o desemprego é o dobro da média nacional. E na Tunísia a crise económica tem ramificações perigosas. A falta de trabalho é um dos principais factores que terá levado cerca de quatro mil tunisinos a partirem para o grupo Estado Islâmico na Líbia e outros três mil para a Síria e Iraque.  

Gerindo a crise desde o estrangeiro, o primeiro-ministro tunisino, Habib Essid, disse que não tem "uma varinha mágica para acabar com o problema rapidamente". O líder tunisino vai regressar mais cedo da Suíça, onde esteve presente no Fórum de Davos, para se encontrar com um gabinete de emergência em Tunes no sábado e anunciar medidas de combate ao desemprego – pelo caminho, nesta sexta-feira, visitou o Presidente francês e conseguiu de Paris uma promessa de mil milhões de euros em ajudas económicas. Os protestos na Tunísia estão muito longe da dimensão dos de há cinco anos, apesar das duas centenas de feridos nas zonas rurais, causados quase todos por bombas de gás lacrimogéneo. Algumas esquadras da polícia foram incendiadas por cocktails molotov e um agente morreu – não em confrontos, mas num acidente de carro, quando tentava conter uma manifestação.

O Governo diz que tem tudo sob controlo e anunciou cinco mil novos apoios para desempregados em Kasserine, investimento em obras públicas e privatização de terrenos. O presidente da câmara da cidade de 430 mil habitantes foi também despedido por suspeitas de manipular concursos de emprego no Estado, muitas vezes a única oportunidade de trabalho para a população rural. Mas as manifestações não pararam, em parte devido à desconfiança num Governo que falhou várias promessas às localidades do interior. "Sempre que alguém visitava Kasserine, aparecia aclamando oportunidades de emprego", disse o pai de Yahaoui depois da morte do filho, que, assegura, terá um efeito semelhante ao da imolação de Bouazizi em 2011. "Ouvimos tantas promessas. Esperamos soluções. Mas nada."