A luz abre portas fechadas no Palácio Belmonte

A exposição Lightcrat apresenta no Palácio Belmonte, em Lisboa, obras de três artistas que trabalham a luz e mostram que esta nunca é absoluta – depende sempre do lugar de onde olhamos.

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"Outside over there", de Jana Matejkova-Middleton e Rory Middleton DR
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"Outside over there", de Jana Matejkova-Middleton e Rory Middleton DR
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"Antiego Mirror" de Alessandro Lupi DR
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"Her Silent Sonata", de Jana Matejkova-Middleton na Sala de Música DR
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Montagem de "Things to Come" de Stefan Kornacki DR

Uma libélula suspensa no espaço no pátio interior do Palácio Belmonte, em Lisboa. Uma vela de navio feita de milhares de tiras de plástico pretas e brancas abanando ao vento numa das torres, como se o palácio fosse agora um navio dançando nos céus da cidade. Um espelho mágico que nos esvazia de ego. Um outro espelho que nos funde com uma floresta subaquática de néones, numa espécie de passagem para um outro mundo através de uma porta fechada. A cicatriz de uma parede marcada pelo tempo transformada num quadro psicadélico. Letras enormes que gritam Victoria sobre ruínas.

Estas são as obras dos três artistas convidados para o Lightcraft Belmonte, do Belmonte Cultural Club, que se inaugura esta sexta-feira à noite com um espectáculo da orquestra holandesa de tango Tangata: o italiano Alessandro Lupi, o polaco Stefan Kornacki e o casal composto pela checa Jana Matejkova-Middleton e o britânico Rory Middleton.

O projecto está integrado no Ano Internacional da Luz e tem curadoria de Mário Caeiro, investigador da ESAD Caldas da Rainha ligado, entre outros, à Luzboa Bienal Internacional da Luz (2004 e 2006), e de Frédéric Coustols, francês que se define como um “coleccionador de paisagens” e que é desde 1994 proprietário, juntamente com a sua mulher, Maria Mendonça, do Palácio Belmonte, hoje um hotel de luxo.

Quando chegamos ao pátio do palácio, ao final do dia, Jana Matejkova-Middleton vem a subir a calçada que leva ao Castelo de São Jorge e à entrada do Belmonte, com a filha bebé ao colo. Ela, Rory e os dois filhos do casal chegaram há pouco a Lisboa, quase um ano depois da primeira visita ao palácio, para colocarem nos lugares as peças que entretando criaram. A libélula de alumínio, suspensa sobre as nossas cabeças, é uma delas (Wings, 2016) – e, ao contrário das que estão no interior, poderá ser vista por todos os que atravessarem o pátio.

A ideia com todas as peças, explicam os artistas e o curador, é tratar a luz – o trabalho de Jana e Rory chama-se Cut by Light – mas não de uma forma óbvia. “A luz é uma questão de percepção”, diz Mário Caeiro. “Acharmos que há muita luz ou pouca luz, depende sobretudo do contraste. Perceber se está escuro ou claro depende até da minha capacidade de me sentir à vontade com a luz que existe.”

O trabalho de Alessandro Lupi tem muito que ver com essa ideia da luz e da percepção. Na peça Antiego Mirror, que está na entrada do palácio, o nosso rosto torna-se invisível no espelho que o reflecte, destabilizando as nossas certezas. "O que ele nos diz é ‘só estás a ver isto porque estás nessa posição e não noutra’”, sublinha o curador.

Nas ruínas do Pátio D. Fradique, espaço público colado ao palácio, está o trabalho de Stefan Kornacki, Things to Come, que faz parte do seu Inscription Project. “Kornacki é um artista muito jovem, que recolhe estes letterings dos edifícios polacos. Era assim que se fazia a luz há não muito tempo”, explica Mário Caeiro. “Ele está a salvá-los mas não é uma posição museológica, é já reconstrutiva porque remonta-os noutro local, colocando a questão de sabermos a quem pertence a História. É chocante para alguns polacos encontrar isto aqui quando existe na Polónia um museu do néon.”

VICTORIA, KOSMOS, UNIWERSAM, ELANA, APATOR – as palavras que encimavam os edifícios polacos e agora jazem sobre um pátio arruinado em Alfama, cruzando memórias de dois países e dois tempos, “dizem também muito sobre a cultura”: Victoria era o hotel mais internacional de Varsóvia e foi o primeiro hotel de luxo da Polónia, Kosmos era também um hotel em Torun, e Uniwersam, palavra que encimava um importante centro comercial na mesma cidade, foi o símbolo do boom económico polaco.

E deste peso da História em letras de metal passamos para a leveza absoluta de Night Rider (2016) a vela feita de Tyvek de Jana e Rory Middleton, que esvoaçando num dos pátios do palácio pode ser vista por quem passa lá em baixo nas ruas – a escolha do preto e branco foi de Frédéric Coustols, que sobre ela diz, sorrindo: “São as cores de Lisboa e têm a ver comigo porque sou um pirata.” Regressamos ao interior do palácio, à Sala de Música, onde estão mais duas peças de Jana e Rory. Her Silent Sonata (2015) é um delicado trabalho de bordado com fio de néon sobre negro que parte de um desenho criado pelo tempo numa das torres do Palácio Belmonte e que, numa versão discoteca, dialoga aqui com as mulheres que no passado terão bordado nestas salas do palácio quinhentista (e que integra ruínas muito mais antigas, romanas e mouras). Numa pequena mesa, outra peça, His Silent Dance (2015), reproduz, com a mesma técnica, um dos azulejos do século XVII que decoram a sala.

Por fim, no Salão Maria Ursula, Jana e Rory depararam-se com uma porta fechada e quiseram abrir nela uma passagem imaginária. Em Outside over there (2016), a porta fechada torna-se – ou pelo menos é isso que nos parece à primeira vista – um espelho rasgado por tiras verticais de luz verde. Mas, quando nos aproximamos, o nosso movimento transforma a peça e as linhas de luz verde ganham volume. São, afinal, formas inspiradas por estalagmites, mas que poderiam também ser plantas aquáticas dançando à nossa frente, fazendo com que, num passe de mágica, a nossa imagem desapareça do espelho. Estamos ali e afinal não estamos. Fomos engolidos pela luz.